Declarações do Papa levantam debate sobre os rumos da Igreja Católica Filippo Monteforte/AFP

Foto: Filippo Monteforte / AFP

O papa Francisco não silencia diante de perguntas espinhosas, acena com força para a responsabilidade social do sacerdócio e acolhe com uma desenvoltura não vista em seus antecessores diretos. A figura popular do Santo Padre encanta – e também suscita discussões acerca do que ela pode trazer de transformações para a Igreja Católica. O Papa e seu estilo despachado e afável seriam o começo de mudanças? Ou são consequências de uma instituição que percebe sua necessidade de mudar?

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Religiosos, teólogos e estudiosos observam o pontificado do argentino Jorge Mario Bergoglio como o elo necessário – e por algum tempo perdido – entre a Igreja Católica e a sociedade. O primeiro pontífice latino em 1,2 mil anos retomou a base evangélica da Igreja, atendo-se mais às pessoas e menos a exigências para o exercício da fé cristã. Também trata de temas cabulosos para o Vaticano, como aborto, homossexualismo e novos arranjos do casamento, de forma clara e objetiva. Frente a seus antecessores, esta é a grande ousadia do papa Francisco.

– O moderno nele é criar mais sintonia com a realidade. Até este Papa, tinha-se questões como o divórcio e o aborto como fatores para excomungar alguém.
A pessoa que tivesse cometido alguma dessas “contravenções” era alijada. Agora, ela deve ser respeitada e acolhida – avalia o professor de história da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Ivan Esperança Rocha, cofundador da Associação Brasileira de História das Religiões (ABHR).

Interpretações sobre um discurso popular

A postura avançada do Papa sobre determinados aspectos sociais não se reflete em quebra de paradigmas católicos, mesmo que seja frequentemente interpretada dessa forma. Arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler analisa o que considera confusões na compreensão de declarações do Sumo Pontífice quanto ao casamento e os gays, por exemplo.

Em 2013, o pontífice pediu acolhimento e fim da discriminação de homossexuais. Agora em setembro, Francisco publicou um Motu Proprio (espécie de normativa), intitulado Mitis Iudex Dominus Iesus (O Senhor Jesus, Juiz clemente), pelo qual ele promove a reforma do processo de declaração de nulidade do matrimônio. Houve quem entendesse como uma mudança da Igreja quanto ao casamento gay e ao divórcio.

No começo desta semana, ficou bastante claro que isso não está entre as disposições do Vaticano. Nas palavras do próprio papa Francisco, durante a inauguração do Sínodo dos Bispos sobre a família, foram mantidasa defesa da indissolubilidade do casamento, do modelo de família formado por um homem e uma mulher e a condenação do divórcio.

– A orientação que nossos padres e religiosos recebem é a de sempre estarem abertos e atentos a todas as pessoas que nos procuram. A opção sexual é um segundo elemento. As situações são particulares, e assim devem ser tratadas. Mas é evidente que acolher essas pessoas não significa aprovar suas escolhas ou condutas. Papa Francisco não mudou as orientações morais da Igreja, apenas enfatiza que a pessoa está acima da lei, e a lei máxima é sempre o amor – pondera o arcebispo.

Teólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), padre Érico Hammes aposta que a renúncia do papa Bento XVI e a eleição de Bergoglio para comandar a Igreja Católica já sinalizavam que a instituição percebia a necessidade de ajustes, especialmente na condução de seus fiéis. O perfil evangelizador do papa Francisco, segundo Hammes, veio ao encontro desta demanda, sem se confrontar com as tradições católicas.

Apesar de sua popularidade, Francisco não cometeria grandes ousadias, a não ser a própria simplicidade. Em outras palavras, o pontífice consegue, com a maestria de poucos líderes, abordar de forma objetiva e sem rodeios temas delicados, como racismo e homossexualismo, direcionando suas sugestões à proteção das pessoas e não à “legalização” de suas atitudes. Para Hammes, um dos desafios é disseminar essa postura pastoral de Bergoglio entre os sacerdotes.

–  Se elencarmos os papas, poucos tinham essa postura. Se elencarmos os padres, muitos também não a tem. É uma atitude que exige condições de personalidade, habilidades pessoais e formação. Mas a linha de evangelização que se pretende é a do papa Francisco, e ele tem consciência de que as mudanças não se fazem por decreto – avalia o teólogo.

Alinhamento com a realidade social dos fiéis

O professor da Unesp Ivan Esperança Rocha enxerga no pontificado de Francisco o início de um caminho novo para a Igreja Católica. Não no aspecto dogmático, mas quanto à integração com a sociedade que pretende auxiliar e à consciência de que não é a dona da verdade e que existem outras formas de pensar que devem ser respeitadas.
No entanto, o professor ressalta que isso não deve significar mudanças nos preceitos católicos, até porque, observa o estudioso, nota-se uma guinada de conservadorimo na sociedade – apesar de haver uma fatia grande da população pedindo aceitação do casamento gay e descriminalização do aborto, há outra tão volumosa rechaçando essas posições. Neste contexto, o papa Francisco aparece mais como uma liderança social do que religiosa.

– É importante dizer que ele vai alinhar a Igreja para dar respostas às pessoas que estão aqui e agora, até por sua base evangélica. Mas isso não significa que ele vai colocar o Vaticano de cabeça para baixo. Não esperem por isso, porque não vai acontecer – assegura Rocha.

 

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