Estreia de MasterChef Júnior suscita debate sobre participação de crianças em programas de competição Carol Gherardi/Band/Divulgação

Foto: Carol Gherardi/Band / Divulgação

Assim que MasterChef Júnior foi anunciado, imaginava-se que, por lidar com crianças entre nove e 13 anos, a versão do reality show de sucesso da Band teria uma rotação mais baixa do que sua edição para adultos. No original, as quase três horas de atração são recheadas por momentos de tensão, gritos e duras cobranças por parte dos jurados. No programa que estreou terça-feira, os chefs Erick Jacquin, Paola Carosella e Henrique Fogaça e a apresentadora Ana Paula Padrão, de fato, esforçam-se para trocar a exigência por afagos, a pressa por complacência, o clima pesado pela diversão. Mas, nas redes sociais, a atração acabou ensejando debates nada leves. Discute-se desde o perigo dos pequenos chefs "mexerem com faca e fogo" até a inadequação de vê-los envolvidos em uma competição, e comentários pedófilos no Twitter provocaram onda de reação em blogs e sites.

Ana Paula Padrão: "O público estava pronto para amar o 'MasterChef'"

A produção do reality show afirma que todas as precauções para evitar possíveis problemas foram tomadas. No site oficial, o diretor Patrício Díaz explica que o programa "explora mais o lúdico, a surpresa e o divertimento, mas sem perder de vista a competição e a exigência culinária". A psicóloga Maria Lucia Stein, especialista em adolescentes, faz uma ponderação:

— Competição existe em qualquer instância e é algo saudável em certo grau. Temos de pensar é na exposição na mídia, algo que pode ser prejudicial. O reconhecimento do fracasso e do sucesso, em uma criança com menos recursos para lidar com frustrações, pode trazer efeitos no desenvolvimento.

OAB lista cuidados a serem tomados

No episódio de estreia, não foram poucas as crianças que caíram no choro ao depararem com problemas nos pratos. Surpreendente, entretanto, foi a calma com que os eliminados deram depoimentos após sair. Aos gritos de "fica feliz" e "parabéns, você já é um vencedor", Hytalo, por exemplo, declarou:

— Sou um dos 20 melhores cozinheiros júnior do Brasil. Hoje, não choro de triste. Choro de feliz. Porque foi uma coisa que consegui.

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Em um texto sobre o assunto, a jornalista Cássia Zanon, dona do blog Mãe de Proveta, reclama da exposição de "crianças sendo impelidas desde tão cedo (...) a dar tudo de si, não de uma maneira colaborativa (...), mas concorrendo a prêmios do tamanho de uma viagem a Disney com direito a cinco acompanhantes, só para não dizer que o prêmio é dinheiro" (além da viagem e do troféu do MasterChef, o campeão ganha curso de culinária, vale-compras de R$ 1 mil por mês e kit de eletrodomésticos). A preocupação não é só de Cássia, mãe de uma menina de três anos — a Comissão de Direitos Infantojuvenis da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de São Paulo também olha atentamente para o reality.

— Existem precauções que precisam ser tomadas: deve-se fazer um pedido antes de entrar no ar, explicando o tempo que vai tomar dessa criança, se vai ser possível conciliar com a escola, como aquilo vai contribuir para a formação. Aquelas crianças só estão lá porque foram autorizadas por um juiz. Mas como vamos mensurar a exploração da imagem? Imagina que ela minta, em determinado momento, sobre algum ingrediente. Tudo é potencializado, a opinião pública pode amar e odiar — avalia o presidente da Comissão, Ricardo de Moraes Cabezón.

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Entre tantas discussões, uma se destacou: alguns poucos telespectadores utilizaram o Twitter para publicar mensagens com teor sexual em relação a uma participante de 12 anos, Valentina. Ontem, a Band lançou nota repudiando "essas desagradáveis manifestações" e salientando que "o foco do programa é o talento das crianças". Diante da repercussão, o coletivo feminista Think Olga, que combate o assédio em espaços públicos e outros tipos de violência contra a mulher, lançou a hashtag #primeiroassédio no Twitter.

— Pode-se pedir uma indenização, caso haja danos à imagem, se a pessoa falou algo muito forte, que fez com que a criança tivesse que se submeter a terapia. Se houve ofensa, difamação, se a pessoa faz ameaça ou apologia ao estupro, estamos num outro plano de tipificação penal, que é muito mais grave, que pode levar à prisão — explica Ricardo Cabezón.

3 casos de exposição infantil na mídia

Vogue Kids

Ensaio de moda na edição de setembro de 2014 da Vogue Kids foi alvo de uma polêmica tão grande que a Justiça obrigou a editora Globo a interromper a circulação da publicação. As meninas, entre 10 e 13 anos, vestiam biquínis e roupas curtas e apareciam em poses sensuais.

Maisa

A relação de trabalho da menina Maisa com o SBT foi alvo de polêmica em 2009. O Ministério Público do Trabalho foi um dos órgãos que questionaram o incidente ocorrido no Programa Sílvio Santos, quando ela se assustou com uma fantasia de monstro e chorou em frente às câmeras.

Cidade de Deus

“Escolhe, moleque, quer tomar o tiro aonde: no pé ou na mão?”, questiona Zé Pequeno a duas crianças em cena do filme Cidade de Deus (2002). Siro Darlan, juiz da Vara de Infância e Juventude do RJ, chegou a afirmar que a produção seria punida por colocar os meninos em situação de violência.

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