"Os pais tinham medo de proibir", diz pesquisadora em educação Arquivo Pessoal/arquivo Pessoal

Tania Zagury é escritora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

Foto: Arquivo Pessoal / arquivo Pessoal

Em mais de um ano de trabalho, Tania Zagury, autora de 25 livros, colheu depoimentos de pais que cuidaram dos filhos com tanto amor e liberdade que não perceberam os riscos e hoje amargam frustrações na relação com aqueles que educaram. Confira a entrevista que Tania concedeu ao caderno Vida:

O que a motivou a se dedicar ao levantamento?
Quando publiquei Sem Padecer no Paraíso, em 1991, já havia uma forte corrente da psicologia que dizia para os pais tomarem cuidado que as crianças poderiam ficar traumatizadas com muitos limites. Esses pais, lá dos anos 1970 e 1980, eram de uma geração criada com limites e que queria mudar isso na criação de seus filhos. Nessa época, notei mudanças no comportamento das crianças, que mostravam a perda do que chamamos de socialização básica, como esperar a vez para falar, ouvir as pessoas até o fim, pedir licença. Tentei averiguar o que estava acontecendo e percebi a relação com a família. Resolvi tentar ajudar os pais a entenderem que simplesmente dizer um "não" e proibir algumas atitudes não prejudicaria os filhos. Passados 20 anos, já há consenso de que limites não dão traumas, mas esse era o medo da geração dos anos 1970. Bem mais tarde, observei esses problemas nos adolescentes. Os pais tinham medo de proibir porque poderiam gerar problemas como desequilíbrios psicológicos e envolvimento com drogas. Foi outra parte do meu trabalho. Agora, percebi que já haviam se passado 25 anos e tive um insight: vamos ver como aqueles que foram pais nos anos 70/80 estão com os filhos adultos, vamos ver se o que eles pretendiam foi atingido.

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E atingiram?
Levei mais de um ano para fazer o trabalho. Foi uma pesquisa qualitativa, com aspectos bem claros. Mas resolvi publicar não apenas para apresentar o que esses pais, que hoje são avós, estão sentindo, mas também ajudar quem está atualmente criando seus filhos. Quero alertar quem está educando hoje que determinadas atitudes, muitas vezes realizadas a partir de informações inadequadas, podem ser prejudiciais.

Mas qual foi o principal efeito colateral da educação sem limites nesses pais?
Bem, não falo em abandono, que é algo mais grave, mas em negligência. Esses pais, hoje com seus filhos adultos, mudaram a forma de hierarquia da família e pensavam que fazendo isso ficariam mais próximos de seus filhos, mas isso não se concretizou. Uma reclamação quase unânime foi a constatação de que os filhos pensam que esses pais não precisam de nenhum tipo de retribuição, e isso não tem nada a ver com algo material. O que eles querem é um pouco da atenção que deram aos filhos. Uma das perguntas que fiz foi: "No último mês, quantas vezes o seu filho foi lhe visitar exclusivamente para vê-lo, sem que o senhor o convidasse?". Nenhum deles disse que os filhos foram espontaneamente. Em geral, só apareciam se convidados, e em 99% das vezes para pedir alguma coisa. Muitos desses avós trabalham até tarde, valorizam contribuir socialmente, e os filhos não percebem que eles estão cansados e mais idosos. É que esse filho está acostumado a receber muito e acredita que o mundo é assim. Não é falha de caráter, é o poder da educação. Ele é educado para ser o filho tirano.

Como esses filhos são como pais?
Obviamente são mais egocentrados, tendem a se colocar em primeiro plano. Estão repetindo o modelo dos pais de dar tudo, mas, dessa vez, coisas materiais. No entanto, não acham que dar limites é temerário, mas esse limite dado por eles é muito mais de acordo com a conveniência desses pais do que com o interesse da criança. Vi uma reportagem sobre a superexposição das crianças na internet. Na verdade, isso é algo narcísico dos pais, não da criança. Você expõe as crianças a riscos para um prazer que é seu. A visibilidade na internet virou quase uma necessidade das pessoas.

Como evitar os caminhos que levam ao desenvolvimento de egocêntricos?
O interessante é perceber que, ao dizer para o seu filho "faça o que você acha melhor", você está passando um conceito que ele vai entender como fazer só o que lhe agrada. Não aprenderá a empatia. A neurociência está tentando entender por que algumas pessoas têm mais empatia, mas a gente já sabe que é algo que pode se desenvolver com a educação.

*Zero Hora

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