Pais encontram na internet espaço para dividir experiências sobre a paternidade Félix Zucco/Agencia RBS

Prestes a se tornar pai, Pedro produziu vídeos para aprender a cuidar da filha

Foto: Félix Zucco / Agencia RBS

Logo após pôr seu ovo, as pinguins fêmeas saem em busca de alimentos. Distantes, delegam aos machos a função de manter aquecido o futuro filhote. Depois do nascimento, são eles que alimentam a cria até a chegada da mãe. Há poucos exemplos na natureza de um pai tão dedicado quanto o pinguim imperador — e a espécie humana está começando a seguir o seu caminho.

Foi-se o tempo em que o homem assumia na família apenas a função de trazer recursos à casa e sustentar a mulher e os filhos. Seja na hora de trocar fraldas, dar banho ou preparar a papinha, os pais têm desempenhado um lugar mais próximo na criação dos filhos. Movimento que vem sendo observado com mais intensidade desde a década de 1960 — principalmente pelo ingresso das mulheres no mercado de trabalho —, a aproximação dos homens no cuidado com os bebês têm trazido mudanças dentro e fora de casa.

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Ampliação da licença-paternidade em alguns países, como Estados Unidos e Islândia, e projetos de lei que preveem a obrigatoriedade de fraldários em banheiros masculinos são algumas delas.

O maior envolvimento dos pais nos cuidados com os filhos foi um dos destaques do relatório State of the World's Father (O Estado dos Pais do Mundo, em tradução livre), lançado recentemente em Nova York pelo grupo MenCare — instituição formada por voluntários e ativa em mais de 35 países que promove maior participação paterna na criação dos filhos. Segundo o documento, um estudo de tendências realizado entre 1965 e 2003 em 20 países descobriu um aumento de, em média, seis horas por semana na contribuição de homens casados e empregados no cuidado com as crianças e nas tarefas domésticas.

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— Pesquisas têm mostrado principalmente que os pais estão gastando mais tempo para estabelecer laços afetivos com a criança, dedicando-se mais às brincadeiras, e que isso respinga também nos cuidados dentro de casa. Mas o envolvimento das mães, até por questões históricas, ainda é muito mais intenso — destaca o psicólogo e professor do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Desenvolvimento Infantil da Universidade Federal de Santa Catarina Mauro Luis Vieira.

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É principalmente nos primeiros meses de vida do bebê que a mulher ainda fica com a maior carga de cuidados. Mas a divisão de tarefas mais igualitária entre pais e mães tende a se intensificar, e as novas configurações familiares têm contribuído para a mudança gradual desse cenário.

— Ainda não podemos avaliar todas as consequências disso para as gerações futuras, mas é possível perceber que os pais se sentem mais realizados, sintonizados e comprometidos quando vivenciam de perto o desenvolvimento dos filhos. Além disso, eles exercem um papel fundamental no desenvolvimento cognitivo, emocional e social de uma criança — explica a psicóloga Giuliana Chiapin, da Clínica Investir Infância.

Desenvolvimento infantil também é afetado

A maior presença da figura paterna é, para a psicóloga infantil Elis Rossi, do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, de extrema importância não só para dividir de forma mais igual os cuidados com o bebê, mas também porque são os pais que mostram para a criança que existe um mundo fora da relação mãe-filho:

— Nos primeiros meses, existe uma construção simbiótica com a mulher, pois é dela que a criança nasce e se alimenta. Mas isso não significa que o pai deve ficar de lado. Pelo contrário. A função paterna, de proporcionar à criança enxergar um mundo além dessa relação com a mãe, de entender limites e relações, é fundamental para seu desenvolvimento.

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Conforme os indicadores apontados no relatório State of the World's Father, os níveis de desenvolvimento infantil foram melhores naquelas famílias que contaram com um segundo cuidador além da figura materna. E, nesse ponto, especialistas afirmam que são os papéis que cada um exerce no cuidado com os filhos o que realmente importa para seu pleno desenvolvimento:

— Quando nos referimos a essas figuras, não necessariamente estamos falando do pai ou mãe biológicos, mas, sim, da pessoa que ocupa esse lugar e, aqui, podemos nos referir a pais solteiros, casais homoafetivos, entre outros. Normalmente, um ocupa um lugar de acolhimento, enquanto o outro assume mais a função de impor regras e limites — resume Luciana Barros de Almeida, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Em busca de espaços mais iguais

A responsabilidade de criar os filhos ainda é vista por muitos como algo que cabe prioritariamente às mulheres. Com a mídia especializada ainda direcionada principalmente para as mães e os cuidados maternos, é na internet, por meio de iniciativas próprias, que eles encontram o espaço para trocar informações.

— Ainda existe a ideia de que esse mundo do cuidado com os bebês é muito feminino e, por isso, é tão difícil encontrar publicações específicas para pais. Essa é, sem dúvida, uma lacuna que temos — relata o psicólogo Mauro Luis Vieira.

Nos Estados Unidos, pais blogueiros contam com milhares de seguidores que foram, aos poucos, expandindo o universo do compartilhamento de informações sobre a paternidade para fóruns, comunidades e aplicativos.

Entre os mais famosos está o Daddit, página da rede social Reddit criada em 2011 e que hoje conta com mais de 39 mil assinantes.

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Quando descobriu que seria pai pela primeira vez, o ator Pedro de Oliveira, 30 anos, logo quis aprender sobre a nova fase de sua vida. Sem ter planejado a empreitada — mas sempre com o desejo de ter um filho — o gaúcho confessa que foi pego desprevenido quando a namorada, a empresária Milene Zardo, deu a notícia de que estava grávida:

— Quando ela me contou, comecei a pesquisar, buscar sites e fóruns para conhecer um pouco mais sobre o universo de ser pai.

Pedro queria dividir seus sentimentos e angústias, aprender a dar banho, preparar papinha, e estar pronto para quando a filha Ana vier ao mundo. Insatisfeito com o que encontrou nas pesquisas, decidiu pôr a mão na massa. Criou o S.E.R. PAI — Sociedade Educativa e Recreativa, um canal no YouTube que também conta com uma página no Facebook. No espaço, ele apresenta vídeos que produziu e nos quais conhece mais sobre a paternidade por meio de conversas com amigos que já tiveram filhos:

— Queria aprender tudo para estar o mais pronto possível quando minha filha nascesse. E, por que não, dividir isso com os futuros pais. Daí, veio a ideia de ser um catalizador de informações sobre a paternidade.

Com a primeira temporada finalizada antes mesmo do nascimento da pequena Ana, Pedro já comemora o sucesso da empreitada. São milhares de visualizações nos vídeos e um retorno de outros futuros papais que não esperava receber.

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