Viver SC: Escola da maior reserva indígena de SC ensina cultura caingangue Marco Favero/Agência RBS

Marcos Fernandes ensina a língua e artes caingangues na instituição

Foto: Marco Favero / Agência RBS

Ao chegar à Escola Indígena de Educação Básica Cacique Vanhkre, em Ipuaçu, no Oeste de Santa Catarina, o visitante se depara com palavras incompreensíveis.
No lado de fora da sala de aula, por exemplo, um pequeno cartaz identifica a porta como jãnkã. É desta forma que professores tentam reforçar os ensinamentos do
povo caingangue para 800 alunos na primeira instituição indígena com ensino médio do Brasil.


 Assistente educacional da unidade, Getúlio Narsizo reforça a importância do projeto na Reserva Xapecó – onde vivem cerca de 6 mil caingangues e 300 guaranis. De acordo com ele, é a maior escola indígena do Sul do país.

– O primeiro objetivo das aulas é garantir a preservação cultural. Ter a língua é importante para isso – afirma Narsizo.

O assistente explica ainda que a escola promove a integração com a sociedade, já que no local são realizados inúmeros eventos. Ele lembra que, há quatro décadas, a Funai contratou monitores bilíngues e muitos deixaram de falar a língua nativa. Hoje, estima-se que apenas 30% da população da reserva fale caingangue, e a maioria dos alunos chega à escola sem saber o idioma.

– Tentamos adaptar o ensino à realidade do aluno indígena. Nosso maior desafio é a falta de respeito do poder público com a escola. Lutamos por um calendário diferenciado para respeitar os feriados e as festividades da comunidade, por exemplo, no período de venda de artesanatos, colheita ou no tempo de troca de cacique – diz.

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Outro desafio da comunidade é a formação de profissionais para ensinar o idioma. Marcos Fernandes é um dos professores da escola e ensina a língua e artes caingangues. Ele é filho de professor da aldeia e se formou em Linguagem na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Para Fernandes, é fundamental saber a língua para o futuro, inclusive profissional, dos alunos.

Reforço vai além da comunidade

– Meu avô falava caingangue e me ensinava. Alguns alunos têm muita dificuldade na hora de falar, porque muitos são filhos mestiços e a maioria só fala português. Acho muito importante porque já estão fazendo vestibular em língua caingangue. Com as aulas, os estudantes ficarão melhor preparados – diz Fernandes.

A pequena Milene Paliano tem 12 anos e é uma das alunas da escola. Ela lembra que antes não sabia a língua nativa, mas hoje consegue conversar com a avó e amigos no idioma indígena. A irmã Mirela, de quatro anos, também está aprendendo, mas os pais só falam o português.

– Até ela (irmã) já sabe um pouquinho – diz Milene.

A pequena cidade de Ipuaçu, de 11,5 mil habitantes, abriga a maior reserva indígena de Santa Catarina, a Reserva Xapecó, com 6 mil pessoas e mais de 15 mil hectares. Metade da população da cidade é indígena e as principais etnias são caingangue (90%) e guarani (10%).

DIÁRIO CATARINENSE
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