Mulheres catarinenses usam tecnologia para driblar assédio sexual Diorgenes Pandini/Agencia RBS

A estudante Carolina Arruda usa o aplicativo SaiPraLá há pouco tempo, mas se espantou com a quantidade de registros

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Cantadas, assovios e, ainda pior, mão boba estão na mira de um aplicativo que mapeia casos de assédio sexual em todas as cidades do país. Um clique na tela do smartphone é suficiente para mulheres denunciarem o local exato em que foram assediadas e o tipo do caso: verbal, sonoro ou físico.

O mapa interativo está disponível no SaiPraLá, que foi lançado há pouco menos de um mês, mas acumula números significativos: na primeira semana foram mais de 5,6 mil assédios registrados no Brasil, sendo cerca de 250 em Santa Catarina. Florianópolis, Itajaí, Blumenau e Joinville dominam nas ocorrências no Estado. O app une-se a grupos em redes sociais e WhatsApp em torno de um mesmo propósito: dar voz às mulheres e tentar coibir os assédios.

A graduanda em Cinema na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carolina Arruda, usa o aplicativo, mas teme que a tecnologia não seja capaz de mudar a mentalidade dos agressores.

— No começo fiquei receosa achando que seria mais uma coisa para nos assustar e não atingir quem tem que atingir [homens]. Mas vi que pode ser interessante para criar estatística, mapear os locais mais perigosos e pressionar os órgãos públicos para auxiliar na circulação das mulheres com segurança por meio de intervenções urbanísticas — avalia.

— Acredito que com o app, muitos homens que assediavam na rua comecem a se policiar. Mas a mentalidade a longo prazo só muda com educação quando a pessoa está desenvolvendo o senso crítico — concorda a criadora do SaiPraLá, a estudante paulistana Catharina Doria, 17 anos.

Sobre o aplicativo Sai Pra Lá: "Na primeira olhada já me espantei com a quantidade de assédios"

Especialistas comemoram mobilização

A união feminina que tem por objetivo identificar e coibir a violência contra a mulher é aprovada pela pesquisadora do Núcleo de Identidades, Gênero e Subjetividades da UFSC, Marinês da Rosa, por inspirar o sentimento de coletividade:

— É importante observar o uso das tecnologias no propósito de informações e mobilização diante das violências de gênero, como o assédio. As redes, virtuais ou não, significam um lugar de posicionamento diante de situações comuns, pois despertam o sentimento coletivo, logo o fortalecimento diante de situações que, por vezes, foram vivenciadas individual e silenciosamente — analisa.

A pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Serviço Social e Relações de Gênero, vinculado ao Instituto de Estudos de Gênero também da UFSC, Catarina Nascimento de Oliveira, complementa com os principais desafios que ainda concernem o combate à violência contra a mulher.

— Estabelecer uma rede de atendimento de modo eficiente, qualificado, acessível e inclusivo para toda e qualquer pessoa que viva em situação de violência.

Viviane Bevilacqua: Falta punição aos agressores


Primeira reunião do grupo "Vamos Juntas à Praia?" aconteceu na semana passada. Foto: Charles Guerra/Agência RBS

Empoderamento pelo direito de ir e vir

"Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?". A união é o que propõe o movimento feminista Vamos Juntas?, concebido em Porto Alegre (RS) por Babi Souza, mas que se espalhou pelo Brasil rapidamente por meninas que não estavam mais dispostas a deixar de realizar atividades por medo de assédio — verbal, físico ou sexual.

A iniciativa é recém-chegada a Florianópolis (SC), depois que a estudante Sofia Stoffel Cardoso, 26, criou o grupo "Vamos Juntas à Praia?" há menos de duas semanas. Em dois dias, o grupo já tinha mais de 200 participantes e, atualmente, soma 506.

— Aqui no Rio Tavares, para irmos à praia, precisamos passar por trilhas. E esses lugares começaram a ficar perigosos. Fomos ouvindo inúmeros relatos de mulheres assediadas e até mesmo estupradas. Foi aí que tive a ideia de criar o grupo, no mesmo formato do Vamos Juntas?, para que nós, mulheres, não deixemos de fazer algo tão simples que é ir à praia por medo. É uma forma de empoderamento feminino — explica a criadora.

Nenhum boletim de ocorrência relacionado à violência contra a mulher foi registrado na 10ª Delegacia de Polícia, na Lagoa da Conceição, conforme informações da Polícia Civil. O que não significa que os crimes não tenham ocorrido, justamente por envergonharem e desencorajarem as vítimas de lembrar e relatar o caso. A Polícia, inclusive, estimula e recomenda o registro desse tipo de violação.

— É importante registrar boletins de ocorrência em relação aos crimes e não apenas denunciar na internet _ reforça a delegada Patrícia Zimmermann, coordenadora estadual das delegacias de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso
Fundamental registrar BO.

Algumas usuárias defendem que a ferramenta deveria ter algum tipo de conexão com o sistema da polícia para que as denúncias fossem concretizadas. A delegada Patrícia Zimmermann enxerga de maneira positiva o aplicativo, mas teme ser algo que não passa por nenhuma forma de auditoria.

— Essa é a dificuldade, pois é intitulado de maneira genérica de assédio sexual e não dá para saber o que aconteceu e nem identificar a vítima — relativiza.

Para a delegada, seria fundamental ter uma identificação de quem alimenta o sistema, pois é difícil, dessa forma, ter fidedignidade das informações.

— Mas mostra, sem dúvida, um enfrentamento da vítima, que tem buscado cada vez mais seus direitos. É uma importante iniciativa e demonstra a preocupação com o tema. É uma maneira de chamar a atenção para esses crimes �— acredita.

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