Designer catarinense ajuda a recriar bico em 3D de arara que foi mutilada por maus-tratos Cícero Moraes/Divulgação

Depois de 15 dias da cirurgia que envolveu veterinários, designer e cirurgião dentista, Gigi já se alimenta sozinha

Foto: Cícero Moraes / Divulgação

A arara Gigi completa hoje 15 dias desde que começou a se alimentar sozinha e não depender mais de um tratador exclusivo. Mas a conquista não é de uma ave recém-nascida, e sim de um animal adulto mutilado que reaprendeu a se alimentar sozinho após receber um novo bico, metálico, em uma experiência inédita e que tem o trabalho de um catarinense como peça fundamental.

A arara da espécie canindé foi recolhida pela Polícia Ambiental em Praia Grande (SP) e estava com o bico deformado, com a parte restante crescendo deformada e atrapalhando a alimentação. Não se sabe exatamente o que aconteceu, mas a suspeita é de maus-tratos e contrabando, já que a espécie não é naturalmente encontrada no litoral paulista.

O animal foi então para o Centro de Pesquisa e Triagem de Animais Selvagens (Ceptas) de Cubatão (SP), onde recebeu tratamento e era alimentado por funcionários. Aí é que entra o catarinense na história. Conhecido pela reconstrução facial de personalidades, especialmente santos, o 3D designer Cícero Moraes, de Chapecó, se envolveu no processo. 

Ele, quatro veterinários e um cirurgião dentista foram chamados para atuar no caso, referenciados por outros trabalhos que a equipe já fez, como a reconstituição facial da Santa Paulina.

 Confira como ficou a reconstrução facial 3D de Santa Paulina

A arara foi examinada e foi feito um modelo de novo bico, em um processo que envolveu moldes, gesso, fotografias e criação virtual e impressão em 3D. Gigi se tornou assim a primeira ave a receber uma prótese de titânio no mundo.

– Escolhemos o titânio porque ele é mais resistente que o plástico e outros materiais e o bico de uma arara sofre muita pressão, faz muita força. Deu mais trabalho porque precisou ser feito com uma espessura muito fina, pra não ficar muito pesado e não ter risco de queda – explica Cícero.


Foto: Arte sobre foto de Cícero Correa / Divulgação

Animal vive em cativeiro e inspira novos estudos

O bico foi impresso em 3D no Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, em Campinas (SP) e a cirurgia para o implante ocorreu na Clínica Veterinária Animal Care Ipiranga, em São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Agora, Gigi está de volta ao Ceptas de Cubatão.

– Dois dias depois da cirurgia ela já estava adaptada, parecia ter o bico desde que nasceu. Já come, descasca semente e escala a gaiola. O único problema é se ela quiser bater em alguém – brinca o 3D designer.

Como todos os animais que passam por adaptações desse tipo, a arara não vai voltar para a natureza, mas a experiência serve, além de melhorar a condição de vida de Gigi, como contribuição científica a novos avanços na área, com publicação de artigos e o uso da técnica em novos processos.

Além de Cícero, participaram os veterinários Roberto Fecchio, Rodrigo Rabello, Matheus Rabello e Sergio Camargo e o cirurgião dentista Paulo Miamoto. No CTI, os pesquisadores Jorge Vicente Lopes da Silva e Marcelo Oliveira se envolveram no trabalho.

Impressão 3D é pesquisada para salvar vidas

O Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, em Campinas (SP), trabalha há pelo menos 15 anos com tecnologias tridimensionais. Ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, o CTI é referência no desenvolvimento de softwares livres, usados para transformar imagens em modelos 3D na tela do computador.

E se engana quem pensa que a tecnologia se limita à fauna. A impressão 3D para reconstrução facial ou de membros vem ganhando relevância também no atendimento aos humanos à medida em que a técnica é aperfeiçoada, a partir de casos como o de Gigi. Hoje bastante aplicado no planejamento cirúrgico, em que médicos usam modelos dos pacientes para tomar decisões antes da cirurgia, o trabalho caminha para se tornar fundamental também na prática, revolucionando a fabricação de próteses.

– As grandes vantagens do 3D são que você consegue fazer a produção de maneira razoavelmente rápida e ele permite manipular geometrias altamente complexas, o que não é possível em processos tradicionais. Imagine pegar um crânio humano cheio de estruturas e aí escavar, eu não vou conseguir. O 3D faz em camadas e consegue qualquer geometria. No caso de um acidente em que uma pessoa perdeu grande parte do osso na cabeça, eu consigo fazer um molde que atende a necessidade específica do paciente – explica o doutor Jorge Vicente Lopes da Silva, chefe da divisão de Tecnologias Tridimensionais do CTI.

A veterinária, claro, também se beneficia com o avanço da tecnologia. Tanto nos seres humanos quanto nos outros animais, os resultados são funcionais e esteticamente melhores do que as soluções aplicadas atualmente. Saindo da área da saúde, a indústria também pode colher frutos com a técnica, permitindo por exemplo mais agilidade e menor custo na substituição de peças em veículos.

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