Geração Z: características e perspectivas dos jovens que conhecem a internet desde a infância Hugo Barbieri/Especial

Foto: Hugo Barbieri / Especial

Ultraconectados, autênticos, adaptáveis, criativos. Palavras não faltam para descrever a geração que vem ganhando espaço nas pesquisas relacionadas a comportamento e consumo, a Geração Z, formada pelos nascidos a partir 1995. Ao contrário dos Millennials (de 1980 até 1994), eles cresceram em um contexto digital e cheio de adversidades. 

Leia Mais:
Eliminar o desnecessário é a receita para descomplicar e ser mais feliz  
Saiba o que é o phubbing, comportamento característico da hiperconexão  
Avó, mães e filhas demonstram a evolução do feminismo dentro da família  

 Essa turma foi criada por pais da geração X durante uma época de tensão econômica e social, guerras internacionais, fazendo com que tenham uma visão menos idealista e mais pragmática do mundo. É o que diz um estudo do Goldman Sachs divulgado em dezembro de 2015 (leia o estudo completo). A pesquisa reflete sobre a importância de entender esse público – nos Estados Unidos eles controlam US$ 44 bilhões em poder de compra. 

No Brasil, atualmente eles têm que lidar com o pessimismo e a piora no mercado de trabalho. Muitos já passaram por uma recessão, viram seus pais precisando cortar gastos, perdendo o emprego e a casa. Um combinado de fatores que resultou em jovens conscientes e engajados, com uma percepção prática do que precisam fazer para atingir seus objetivos. 

Por já terem nascido em um mundo conectado, convivem em harmonia com o turbilhão de informações que são apresentadas a todo instante. Ao invés de se confundirem nesse emaranhado, eles conseguem aproveitar apenas o que acham interessante. Algo que as gerações anteriores ainda têm dificuldade de realizar. 

Outro ponto positivo dos Z's é a facilidade com que produzem conteúdo, a criatividade e o gosto por contar e ouvir histórias. Para eles é normal saber tudo da vida de quem admiram, segui-los nas redes sociais, assistir a filmes e documentários sobre eles. Ter uma história boa para contar, talento com fotografia e não ter medo de ser quem é são pré-requisitos para conquistar respeito e admiração deles. 

Um ótimo exemplo é a blogueira Isa Scherer, 19 anos, de Florianópolis, autora do IsaScherer.com. Ela começou a plataforma aos 15 anos, logo após participar de uma webserie sobre moda realizada pela revista Capricho, a It Girls. Na época, os blogs ainda estavam em ascensão, e não eram tantas meninas que tinham a coragem de compartilhar seus gostos e histórias na web. 

"Levo em consideração a qualidade do produto, às vezes comprar algo caro que vai durar muitos anos vale mais a pena do que algo barato que vai estragar em alguns meses" Isa Scherer Foto: Hugo Barbieri

Isa, que sempre foi apaixonada por moda, aproveitou a convivência extra com o assunto e decidiu criar o próprio espaço. Ela conta que gosta de mostrar a vida como ela é, comentar tendências, dicas de maquiagem, suas experiências com produtos testados, roteiros de viagem. Tudo com uma linguagem acessível, como se estivesse conversando com uma amiga.  Atualmente, soma mais de 100 mil seguidores no Instagram, onde compartilha uma série de produções impecáveis, seguindo o formato ¿look do dia¿. 

Mas quem pensa que ela vive entre araras cheias de roupas e sacolas, consumindo sem pensar, se engana. Para ela, o consumo consciente é muito importante e, por isso, busca sempre se relacionar com marcas ecologicamente corretas e que não façam testes em animais. Boa qualidade, design e durabilidade também estão na lista de itens essenciais para uma boa compra.

– Levo em consideração a qualidade do produto, às vezes comprar algo caro que vai durar muitos anos vale mais a pena do que algo barato que vai estragar em alguns meses. Claro que tudo tem limites – afirma a blogueira. 

Outra história inspiradora é a de Ana Lia Carneiro, 14 anos, do blog Poderosa de Rosa. Aos 11 anos ela costumava sofrer bullying no colégio e resolveu criar o blog como uma válvula de escape. 

Ana Lia Carneiro, 14 anos, do blog Poderosa de Rosa

 – Foi como uma libertação para mim, a forma que encontrei para dizer que as pessoas não me calariam e que eu não me sentiria um patinho feio por não ser magrela ou por usar óculos de grau – explica a adolescente. 

A sinceridade do conteúdo postado começou a atrair cada vez mais leitoras, que se identificavam com os gostos da menina e seu estilo. Muito além de dicas de moda, looks interessantes e fotos bonitas, Ana passa a mensagem de aceitação e respeito pelas diferenças. 

 – Nunca tive a intenção de ser melhor do que ninguém, apenas de ser eu mesma, que as pessoas me respeitem isso e aprendam a conviver. Consegui isso através do blog – diz. 

De excluída da sala de aula, Ana passou a digital influencer. Atualmente, o blog está com quase 104 mil seguidores no Instagram e espaço no site da revista Capricho. O segredo para tanto sucesso? A combinação história inspiradora e transparência – características importantíssimas para a Geração Z. Para eles não é preciso passar a imagem de vida perfeita, sem problemas e preocupações, pelo contrário: eles querem relatos reais. 

Transparência, palavra de ordem

Felipe Anghinoni, um dos sócios fundadores da Escola Criativa Perestroika, faz questão de ressaltar a necessidade que os jovens da Geração Z têm de ser e de se relacionar com marcas transparentes: 

– Para eles, ser transparente é cool. Se estão tendo um dia ruim, se gostaram ou não de determinada coisa, eles postam. Não têm tantos filtros quanto as gerações anteriores – explica Felipe.

Felipe Anghinoni, sócio-fundador da Escola Criativa Perestroika realizou uma extensa pesquisa para entender o comportamento da Geração Z, uma das principais descobertas? Eles procuram transparência e autenticidade Foto: Mauricio Thomsen

 Quando se trata de marcas, a filosofia continua. Essa nova geração não se impressiona com a modelo de cabelo e corpo perfeito na campanha publicitária, eles querem realidade, identificação com aquilo que está sendo apresentado. O que faz diferença é a história por trás do produto e o que ele vai agregar em suas vidas. 

Outra curiosidade apontada na pesquisa realizada pela Perestroika sobre a geração Z é o fato desses jovens mudarem rapidamente de comportamento, característica que recebeu o nome de personalidade elástica. 

– Durante a pesquisa, analisamos o perfil de uma menina por três dias e, em cada um deles, ela postou fotos de estilos muito diferentes, um dia estava mais feliz, outro reflexiva e no outro relax. Quando questionamos sobre isso, ela respondeu que aquela era a fase hippie dela. Isso que a fase durou apenas um dia – conta Felipe. 

Se olharmos essa característica do ponto de vista da comunicação e do mercado, podemos ver que essa geração é um grande desafio para quem anuncia e vende. Quando podem ser o que quiserem e mudam constantemente, como segmentar e posicionar precisamente a mensagem? Antes de tentar responder essa pergunta, vale lembrar que os Z¿s têm uma relação diferente com o consumo e com as marcas, principalmente quando se trata de grandes grifes.

Ao contrário das outras gerações, que tinham nas marcas uma maneira de ganhar status e se destacar no grupo, esses jovens se preocupam com o custo/benefício e não buscam coisas caras. Para eles, a moda é uma maneira de se expressar e não um padrão a ser seguido. Esses jovens investem dinheiro no que realmente gostam, independente da assinatura na etiqueta.

Cidadãs do Mundo

A blogueira Bruna Pratts, 19 anos, residente em Florianópolis, criadora do Blog da Bruna Pratts, apesar de estar sempre pesquisando sobre roupas e tendências, procura fugir dos altos preços e da compra por impulso. Ela conta que busca sempre peças-curinga, que possam ser combinadas de diversas maneiras e que tem certeza que vai usar. Se o item desejado não tiver um valor que considera razoável, nada feito! Ela não leva. 

Apesar de pesquisar constantemente sobre roupas e tendências, Bruna Pratts foge da compra por impulso e busca selecionar peças-curinga, que podem ser facilmente combinadas e ela sabe que vai usar  

 – Para eu comprar tem que ter um preço compatível com o que eu acho aceitável. Muitas marcas têm deixado a desejar nesse sentido. Cada uma quer seu espaço e consequentemente não pensa no bolso do consumidor – diz. 

 No caso de Bruna, cada compra nova vira um post. Ela recomenda – ou não – produtos, lojas, restaurantes. Experiências pessoais tornam-se fonte para outras meninas que, antes de colocar no carrinho, procuram saber tudo sobre o produto almejado. 

Esse comportamento aparece com frequência nos Z¿s: a busca de cada detalhe sobre o que querem comprar. Depois, criam vídeos ou textos contando o resultado. É um ciclo contínuo de informação e ¿propaganda¿ da forma mais autêntica possível. 

Toda essa teia de informação em volta da Geração Z serve também para mudar a noção que eles têm de espaço. Eles não apenas se sentem cidadãos do mundo, como também se relacionam dessa maneira – outra constatação da pesquisa realizada pela Perestroika. 

Muitos dos amigos desses jovens moram em outras cidades ou países, se conectam através da internet e têm laços tão verdadeiros quanto os criados com as pessoas que encontram diariamente. 

A estudante de Administração Aline Humphreys conta que vive grudada no celular. Aline usa a tecnologia para estar sempre em contato com as amigas que moram em outros lugares 

Essa é a realidade da estudante de Administração Aline Humphreys (19). Ela divide o tempo entre a faculdade, o trabalho e os amigos – os que estão por perto e os que moram longe. Duas das melhores amigas dela foram morar em outros lugares, uma em São Paulo e a outra em Londres. As meninas agora utilizam a tecnologia para continuar participando uma da vida da outra. 

 – Estamos sempre conversando pelo Whatsapp ou Facebook, contando as novidades e matando a saudade – conta Aline. 

 Os Z¿s são resultado de um mundo superconectado, sem barreiras geográficas ou de pensamento. É uma geração consciente, realista, criativa e inovadora que promete seguir os passos dos Millennials e quebrar ainda mais paradigmas.

Sobre o futuro? Artigo publicado na Fast Company pelo consultor de inovação Jeremy Finch, após ampla pesquisa com dezenas desses jovens, é certeiro: eles têm inclinação para se envolver em causas sociais, serão eles a acabar com as hierarquias dentro das empresas e reforçar a ideia de fazer do hobbie um trabalho. 

 Uma geração sucessora já começa a aparecer e ganhar espaço nas redes sociais. Um exemplo é a vlogueira (ou vídeoblogueira) Giovana, do canal Gigi Tagarela, que com apenas seis anos já é sucesso no Youtube. Alguns vídeos já contabilizam 11 mil visualizações. Tudo isso em menos de um ano. Alguma dúvida de que essa geração vai longe?  


 Veja também
 
 Comente essa história