Idosos representam 45% das pessoas que moram sozinhas em SC Marco Favero/Agencia RBS

Aos 83 anos, Atanaides não pretende dividir o teto com ninguém

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Ela mora sozinha para ter o próprio canto e poder fazer as coisas do seu jeito. Vaidosa, atravessa a cidade de Florianópolis para pintar as unhas, passa batom todos os dias e vai à academia três vezes por semana. Atanaides Rangel tem como passatempo sair para dançar. Quando não dá, chega a ensaiar uns passos sozinha ao som das músicas que guarda em um dos seus pendrives. É independente, faz a própria comida e arruma a casa. O ponto fraco dela está no WhatsApp, que lhe rouba horas de sono. Atanaides não tem 20 ou 30 anos, e sim 83. Mas ela não pretende dividir o teto com alguém tão cedo, nem com a filha que mora na mesmo município. Assim como ela, tem muito idoso vivendo só em Santa Catarina e a tendência é que aumente nos próximos anos.

O número de pessoas acima de 60 anos nesta situação no Estado cresceu 84,5% entre 2000 e 2010 e, este último dado, mostra que 12,6% da população idosa em SC mora sozinha. Além disso, o grupo já responde por quase metade (44,9%) das pessoas que moram só em Santa Catarina (o último levantamento com este recorte é do IBGE de 2013). Uma das explicações para esse aumento pode estar no sorriso de satisfação de Atanaides ao contar sobre sua rotina e de como se sente feliz e disposta com tamanha autonomia. Outros fatores como longevidade, crescimento populacional dessa faixa etária e nova composição das famílias também influenciam diretamente neste fenômeno. 

Desde que ficou viúva em 1996, a costureira aposentada intercalou períodos morando sozinha ou acompanhada, seja com a única filha ou com um namorado. Mas hoje brinca que homem só incomoda e que prefere ter seu canto sossegado. A rotina, porém, é incansável e inclui jogos no tablet, cruzadinhas numéricas, bailes, passeios de ônibus, além das atividades domésticas.
_ Quando estou na casa da minha filha, ela não deixa eu fazer nada. Se a gente para, a vida para. O corpo da gente se acostuma a ficar mexendo de um lado para o outro, se estou boa não paro em casa _ resume.

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 Conhecimento para driblar o isolamento social

A rotina de Nelson Frederico Seiffert, 74, também é intensa. Morador de Florianópolis, ele preenche os dias com muita literatura estrangeira - é fluente em alemão, inglês e espanhol, além do francês que aprendeu depois de aposentado -, noticiários e programas de gastronomia. Uma de suas paixões é cozinhar e, para garantir os alimentos frescos das receitas, vai quase todos os dias à feira a pé. Nos finais de semana, vai sozinho ao cinema para assistir a filmes alternativos. Como se não bastasse, o engenheiro agrônomo aposentado resolveu se dedicar a uma nova área: a gerontologia, ou estudo do envelhecimento. Ele atua como professor voluntário no Núcleo de Estudos da Terceira Idade (Neti) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mas ainda há os momentos de solidão e adaptação a essa nova rotina, que começou depois da morte da esposa, com quem esteve casado por 48 anos:

— Isolamento é um problema difícil de lidar. Mas os filhos estão tão ocupados com seus próprios problemas que o idoso até prefere morar sozinho, enquanto tiver autonomia. As famílias não estão preparadas para cuidar do idosos — acrescenta.

Nelson Seiffert aproveita o tempo livre para estudar gerontologia Foto: Marco Favero / Agencia RBS


Para driblar a solidão, contratou uma cuidadora que lhe faz companhia todos os dias da semana, além de ajudar nas atividades da casa.

— Muitos têm a visão de contratar cuidador quando idoso já está acamado. O ponto mais importante é que tira você da solidão e também traz qualidade de vida — garante.

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Autonomia e autoestima em alta 
 
Especialistas apontam alguns fatores que explicam esse aumento no número de idosos morando sozinhos. Para a enfermeira e gerontóloga Jordelina Schier, coordenadora do Neti da Universidade Federal de Santa Catarina, a maior longevidade, as mudanças culturais da sociedade brasileira e da composição familiar propicia o surgimento de um novo cidadão idoso. A viuvez, o aumento de divórcios, a redução do número de filhos e a fragmentação das famílias, com filhos morando em outras cidades, assim como a melhora nas condições de saúde dos idosos também influenciam, acrescenta a presidente da Associação Nacional de Gerontologia em Santa Catarina, Inês Amanda Streit.

Além disso, o fato de morar sozinho está longe de significar solidão ou tristeza e pode inclusive auxiliar em manter a autonomia dos idosos:

— Idosos que moram sozinhos e têm possibilidades do autocuidado mantêm a autonomia preservada. Esta é a grande vantagem, pois trata-se de um aspecto muito importante para a qualidade de vida de qualquer pessoa, especialmente aqueles com idade avançada, uma vez que a autonomia para tomar decisões em relação à sua rotina eleva a autoestima — explica Inês. 

Mas ainda há um longo caminho pela frente, principalmente em relação às políticas públicas. Para as especialistas, ainda é preciso avançar para oferecer suporte ao idoso e dar condições para que ele mantenha a autonomia e a independência. 

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— Um serviço simples e eficaz, que está se popularizando, é a teleassistência ao idoso. O usuário carrega uma pulseira ou colar com um botão, pelo qual pode acionar a central de atendimento em situações de emergência. Parentes e vizinhos cadastrados no sistema são avisados para o socorro . Caso a ocorrência seja grave, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) é acionado. Este serviço tornou-se uma política pública na cidade de Santos, em São Paulo — destaca Inês.


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