Casa de retiros que deu nome ao Morro das Pedras, no Sul da Ilha de Santa Catarina, completa 60 anos Diorgenes Pandini/Agencia RBS

José Lino Meurer toca um dos arcos de pedra do casarão que ajudou a construir na década de 1950

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Apoiado em duas bengalas, que o ajudam a manter o equilíbrio nas pernas duramente castigadas por um acidente de trabalho ocorrido há muito tempo, José Lino Meurer, 90 anos, desce do carro e, como sempre acontece quando chega lá em cima, se emociona ao ver a imponente construção, onde trabalhou durante mais de 10 anos e cujas lembranças nunca mais saíram da memória. Ele foi um dos construtores da Casa de Retiros Vila Fátima, que completa neste fim de semana 60 anos de atividade. 

Pela sua privilegiada localização – o alto do Morro das Pedras, entre o mar e a Lagoa do Peri, no Sul da Ilha, em Florianópolis, e pela estreita relação que a Casa sempre manteve com a comunidade à sua volta, o ¿convento¿ ou ¿seminário¿, como é carinhosamente chamado pela população, tornou-se um símbolo e um dos pontos turísticos mais visitados da capital catarinense.

José Lino será um dos homenageados deste sábado, durante a solenidade comemorativa ao 60o aniversário da casa. Caminhando pelos corredores e varandas enfeitadas por arcos, o antigo construtor – que só parou de trabalhar quando sofreu um grave acidente, aos 73 anos – relembra momentos importantes da instituição, que se mistura com a história da vizinhança. 

A casa de retiros foi tão importante para o desenvolvimento da comunidade que o bairro nascido no local recebeu o nome de Morro das Pedras, em alusão ao casarão.


Estrutura inaugurada em 1956 foi construída com pedras do próprio morro e tijolos transportados pelo mar Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Um refúgio para os encontros religiosos no início do século 20

Melhor voltar no tempo e contar esta história desde o princípio. Os padres jesuítas chegaram à Vila de Desterro, por volta de 1748. Eles atuavam como missionários e prestavam conforto espiritual às famílias, além de serem responsáveis pela alfabetização e pela catequização das comunidades. 

No século 18, começaram a dar aulas de latim, francês e filosofia no Colégio de Nossa Senhora do Desterro, primeira instituição de ensino de Santa Catarina e a primeira da Companhia de Jesus no Brasil. Em 1906, o colégio ressurge como Ginásio Catarinense, concretizando o projeto dos jesuítas na Ilha de Santa Catarina. Entre as atividades realizadas pelos alunos e professores estavam os retiros espirituais, que, no começo, eram realizados nas próprias dependências do Catarinense. Mas, além do local ser pequeno, também não era o ideal, pois ficava no Centro, que já começava a crescer.

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Desde 1922, os padres demonstravam interesse em comprar uma nova área, mais adequada a esses encontros de espiritualidade e contemplação da natureza. Somente em 1946, porém, padre Alfredo Rohr, então reitor do colégio, envia carta ao provincial dizendo ter encontrado um local ideal para a construção da casa de retiros:

¿Encontrei um sítio que tem muitas vantagens... Fica entre o mar grosso e a Lagoa do Peri... Abrange parte de planície e parte de morro... Tem estrada, linha de ônibus, água suficiente, porque a Lagoa do Peri é de água doce...¿.

Fechou-se a compra da área de 12 hectares, por 27 mil contos de réis. Começaria, então, um novo capítulo na história da comunidade do Sul da Ilha de Santa Catarina.

Construção da casa atrai pessoas e impulsiona crescimento do bairro

Administradora da Casa de Retiros há 10 anos, Edineia Romão conta que o local foi inaugurado em 1956, mas a construção começou alguns anos antes. Até então, aquela comunidade pertencia à Armação do Pântano do Sul e não passava de um aglomerado de casinhas, sendo que a maioria dos moradores era muito pobre. Plantavam produtos de subsistência, coletavam mariscos e alguns eram pescadores.

Com a construção da enorme casa de pedra no alto do morro, começaram a chegar pedreiros, serventes, mestres de obra, quase todos filhos de italianos vindos de Nova Trento, que dominavam a técnica de edificação. Alguns homens da comunidade também aprenderam o ofício e a pequena vila começou a ficar movimentada e a progredir. Além das pedras do próprio morro (quebradas com o uso de pólvora), mais de 100 mil tijolos foram transportados pelo mar.


Até então, não havia água encanada na comunidade, nem luz elétrica. O ônibus só passava uma vez por semana, as casas eram feitas de taipa e não havia escola. Durante a construção do casarão, os operários abriram a rodovia que passa entre o morro e o costão da praia, utilizada até hoje. Antes, a estradinha rudimentar passava pela Lagoa do Peri.


Na época, José Lino morava em Santo Amaro da Imperatriz, onde já trabalhava na construção civil. Mudou-se com a mulher e cinco filhos para o Sul da Ilha e, durante 10 anos, emprestou não só sua força física como também sua inteligência à obra dos jesuítas. Foi ele, por exemplo, que idealizou o sistema de encanamento de água doce direto da Lagoa do Peri até o alto do morro. Deu tão certo que, seis décadas depois, continua em perfeito funcionamento.


O antigo construtor não quis sair da comunidade – que, com os anos, passou a se chamar bairro Morro das Pedras em homenagem à casa de retiros. Com a mulher, que morreu há alguns anos, José Lino criou nove filhos e um neto. Mora sozinho até hoje e se orgulha em dizer que faz pães e bolos como ninguém. Os 18 netos e 15 bisnetos estão sempre por perto e ele nem pensa em deixar sua casa:
– Já estou fazendo hora extra na Terra, mas, enquanto Deus me permitir, fico por aqui, agora na expectativa do nascimento do primeiro tataraneto.


Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Cenário de novela e multifuncional

O casarão foi construído para abrigar os retiros dos estudantes, professores e padres do Colégio Catarinense, mas pouco tempo depois já abriu suas portas para outros públicos. Ainda hoje tem como atividade principal os retiros espirituais, mas agora aberto a outras religiões e filosofias de vida, especialmente aquelas que pregam um contato mais íntimo com a natureza. 

O monge Budista mestre Genshô, de 67 anos, da Escola Zen Budista, é um dos frequentadores assíduos há vários anos. Atualmente, a Casa também funciona como hotel, nos meses de verão, para férias familiares.

– Diante deste mundo atribulado, onde as pessoas convivem com o estresse diário, a casa oferece um espaço de serenidade, tranquilidade e de contato com a natureza. Todos são recebidos com simplicidade, porém, com grande calor humano. É um espaço de convívio, de harmonia, de retiro interior, de contemplação da natureza – ressalta a administradora Edineia. 

A Vila Fátima também está aberta para receber empresas, que buscam lugares sossegados e aparelhados para cursos e capacitação dos colaboradores. A comunidade, por sua vez, continua tendo acesso às missas dominicais no local.

A casa de retiros também é um importante ponto turístico de Florianópolis. Segundo Edineia, é o local mais visitado pelos turistas no Sul da Ilha. Por localizar-se no alto do morro, tem um mirante de onde é possível avistar o mar. Uma visão encantadora. Não à toa, o casarão e o morro serviram de cenário para a novela Insensato Coração, da Rede Globo.

Irmãs eram referências no bairro

Nas primeiras décadas da Casa de Retiros Vila Fátima, religiosas da Ordem da Divina Providência atendiam tanto o casarão quanto a comunidade. Eram elas, por exemplo, que aplicavam injeções nos doentes, ensinavam as mulheres a usarem chás medicinais e supriam as principais necessidades dos mais carentes. 

Irmã Pulchéria, de 97 anos, era uma das mais ativas e envolvidas com a causa da população. Visitava os casebres da redondeza para ajudar as famílias. Outras vezes, eram os nativos que subiam o morro para buscar conforto físico, material e espiritual junto aos padres e freiras.

– As mulheres faziam renda de bilro, mas, de maneira geral, eram muitos pobres. Em algumas casas, as famílias comiam no chão. Tentávamos ajudá-los como dava. Ensinei muitas mulheres a fazer pão, porque elas só comiam polenta e mariscos que retiravam das pedras quando a maré estava baixa. Não sabiam fazer muita coisa – relembra Irmã Pulchéria.

Ela, segundo o velho amigo José Lino, ¿era uma santa na terra, sempre preocupada em ajudar os outros¿. Irmã Pulchéria vive atualmente na casa das irmãs da Divina Providência no bairro Trindade, na Capital. Passaram também pela casa, ao longo dos anos, religiosas das ordens Franciscanas de São José e Pequenas Missionárias. Elas dividiam com os jesuítas o trabalho de assistência social, cuidavam da casa e ainda prestavam auxílio à comunidade.

Programação de aniversário

As comemorações começaram na sexta-feira, com uma procissão luminosa, da rodovia até a gruta de Nossa Senhora de Fátima, no alto do morro. O Movimento Pólen – grupo de jovens e casais – que há 45 anos faz encontros na casa, fez uma encenação.

Neste sábado, um evento prestará homenagem a personalidades que fizeram parte da história da casa, entre eles trabalhadores, antigos moradores da região, jesuítas e grupos de frequentadores fiéis. Será lançado o livro ¿Um olhar sobre o Sul da Ilha: os 60 anos da Casa de Retiros Vila Fátima¿, que traz também um minidocumentário de oito minuto sobre a casa.

– É resultado de um levantamento que envolveu cerca de 20 entrevistas e pesquisa em arquivos – explica Fernanda Ozório, historiadora responsável pelo projeto. 

Ela e o sócio Juliano Nunes, da Volo Filmes, também são os autores do curta sobre a instituição. As comemorações encerram no domingo, às 8h, com uma missa festiva celebrada pelo Padre Geraldo Kolling.



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