Plataformas conectam cozinheiros de SC a clientes interessados em experiência exclusiva Felipe Carneiro/Agência RBS/

André Apollaro e Rogê Foschi, criadores do Meu Bistrô

Foto: Felipe Carneiro/Agência RBS

Talvez há quase 200 anos, quando o mundo da gastronomia moderna nasceu pelas mãos do gourmet francês Brillat-Savarin com o livro A Fisiologia do Gosto, ninguém pudesse prever tamanho grau de sofisticação. Mas eis que jovens empreendedores, recém-saídos das universidades, ao terem um insight, perceberam um novo filão a ser explorado. Em mais uma investida bem-sucedida do setor com a tecnologia, uma nova tendência, atestada por especialistas de diferentes áreas, parece quebrar o último panteão sagrado da comida requintada: a de que chefs vivem numa redoma hermética chamada cozinha.

Hot list: cinco vinícolas imperdíveis na Serra catarinense
Veja 7 lugares para aproveitar uma bela feijoada em Florianópolis

Cada vez mais com imagem pop e afeitos às plataformas que os inserem em contato direto com o cliente, os donos dos cobiçados dólmãs estão se rendendo, aos poucos, a uma ferramenta bem conhecida por todos nós há algumas décadas. Não que a internet nunca tivesse cooperado com esse setor. Já há alguns anos, experimentamos serviços delivery pela internet e, agora, pelo celular; obtemos descontos em refeições mediante cupons na web; localizamos restaurantes, bares e seus respectivos cardápios com um clique; e já existe até rede social de foodies que trocam receitas entre si. No entanto, o fenômeno, agora, é bem outro. Trata-se das plataformas que conectam chefs aos usuários, um segmento que ganha força em Santa Catarina.

– Percebe-se uma tendência atual muito forte em torno das experiências gastronômicas diferenciadas. Esse é um modelo de negócio que traz ganhos para ambos os lados. Os clientes podem interagir com o chef e assistir à prática da alta cozinha na comodidade da sua casa. E, para o cozinheiro, cortam-se os custos de um restaurante. A diferença, agora, é que esse modelo cresceu e necessita da tecnologia. Um serviço que prescinde de infraestrutura física vê a internet como elemento fundamental para ser divulgado – justifica Alan Claumann, gestor de turismo do Sebrae Santa Catarina em Florianópolis.

Recorrendo às plataformas coletivas, os ¿personal chefs¿ estão se virando para conseguir um extra ali e acolá. É verdade que eles já usavam tal subterfúgio de forma isolada, por meio de sites individuais e anúncios variados. Porém, com o avanço tecnológico das startups, a solução criativa se impôs, reagrupando os profissionais da gastronomia, de diferentes escalas e níveis de experiência, em uma espécie de ¿menu¿ virtual. Além de sites como o Bloochef.com e Welcomechef.com, ambos de São Paulo, surgem experiências novas em Santa Catarina, como o Meu Bistrô e o Heycheff, com o objetivo de aproximar a cozinha de autor a seus consumidores.

Outras plataformas catarinenses também têm se destacado como futuro case de sucesso, porém sob uma proposta diferente. É o caso da ConnectFood, que visa conectar donos de restaurante a fornecedores, tentando resolver um problema interno de outra empresa – e não voltada ao público final. Independente da lacuna que buscam preencher, o desafio, segundo Alexandre Souza, coordenador do StartupSC, na Capital, é se manter no mercado, pois muitas sequer sobrevivem após alguns meses. De acordo com Souza, das 120 startups formadas em um total de seis turmas dentro do programa até agora, ainda são poucas as que pertencem ao ramo da gastronomia – portanto não existem estatísticas oficiais. Por outro lado, ele enxerga um ¿milhão de oportunidades¿ na relação entre a gastrô e a tecnologia. Olheiros do setor também compartilham a opinião de que as recentes plataformas de chefs têm tudo para ficar.

– Eu acho que estas plataformas virtuais vingam. Florianópolis é uma cidade que está se abrindo bastante para a gastronomia, investindo em inovação nesta área, e tem um público em potencial para este mercado. Tenho alguns amigos, por exemplo, que, no verão, complementam sua renda trabalhando em casas de turistas que vêm aqui passar férias e, ao invés de saírem pra comer em restaurantes que não conhecem, contratam chefs e elaboram menus temáticos para cada evento da temporada em que passam aqui – observa Daniel Becher, do site Comideria, de Florianópolis.

Clarissa Volpato (E), Barbara Erkmann e o chef Douglas Pierri, em um dos jantares organizados por Susie Hahn por meio do Meu Bistrô Foto: Arquivo pessoal

Bistrô particular

Imagine a seguinte situação. Você quer fazer uma surpresa para seu marido ou esposa dali a três dias. Um jantar especial de bodas, com a presença dos amigos mais íntimos, não mais que oito deles. Thai food, você pensa, por que não? E tudo isso no ambiente aconchegante de sua casa. Pois, acredite, essa hipótese não é tão absurda quanto lhe parece. Num curto espaço de tempo, você pode dispor de um chef de alta gastronomia ali na sua cozinha. Basta acessar a internet, dizer o que deseja e deixar que os profissionais tomem conta.

É esse tipo de experiência personalizada e totalmente digital a que se propõe o site Meu Bistrô, plataforma lançada oficialmente há apenas quatro meses por dois amigos: o catarinense ¿mané¿ Rogê Foschi e o paulista radicado na Ilha André Apollaro, ambos com 25 anos. Embora gourmets de berço, em função das famílias que amam cozinhar, nenhum deles decidiu se tornar chef – o primeiro cursou engenharia de produção, e o segundo tem a graduação de engenharia mecânica incompleta. Em comum, enxergam uma nova tendência dos personal chefs.

Enquanto rivais focam mais em São Paulo, a plataforma catarinense Meu Bistrô privilegia a diversificação de locais e paladares. Até meados de abril, o site atuava em 29 cidades, três delas no estado natal: além de Florianópolis, possui chefs representantes em Blumenau e Balneário Camboriú. Ao todo, são 35 cozinheiros filiados à iniciativa somente em Santa Catarina. Outros estados com forte presença são Rio de Janeiro e São Paulo. Além dos 150 chefs participantes, já disponíveis on-line, eles contabilizam outros 500 profissionais cadastrados à espera do crivo de avaliação técnica para serem habilitados.

O processo de escolha do chef é simples. Pela plataforma, o usuário escolhe a cidade, a data e o horário em que pretende solicitar o serviço. Em seguida, visualiza os chefs com agenda disponível e os menus propostos. Uma atualização recente no site permite até que o consumidor personalize o cardápio. Hoje existem 372 menus cadastrados, em 25 tipos de especialidades. Diante do sucesso, há quem os chame de ¿Uber da gastronomia¿. 

Outra vantagem do serviço é a chance de optar pelo parcelamento em até três vezes pelo cartão, possibilitando que o usuário fuja do modelo de pagamento antecipado de 50% que costuma vigorar entre os contratos dessa natureza. Para o chef participante Douglas Pierri, a plataforma propicia a troca de experiências. O mesmo pensa o chef Amaury Abbondanza, 34 anos, que já passou pelo El Bulli, do catalão Ferrán Adriá, e por restaurantes de Nova York, e topou aderir ao site.

Dono do Bistrot Mamma Lu, em Joinville, Fábio Espinosa também faz parte do portfólio de chefs do Meu Bistrô Foto: Arquivo pessoal

Natural de Chapecó e residente na Capital há nove anos, o chef Guilherme Schwinn, 29, é outro entusiasta, porém ressalta que vê as plataformas coletivas mais como uma ¿vitrine do que realmente como uma conexão com o cliente¿. Dono do elogiado Bistrot Mamma Lu, de Joinville, especializado em cozinha contemporânea, o chef Fábio Espinosa, 34, acredita que o contato mais próximo com o consumidor permite um conhecimento mais aprofundado. Assim como Schwinn, participantes do time de ¿personal chefs¿ do site Meu Bistrô, Espinosa afirma, ainda, que a internet pode, sim, facilitar, desde que esse tipo de mídia seja organizada.

Na outra margem, o serviço vem ganhando vários adeptos entre os consumidores, a exemplo da estilista Susie Hahn, 53 anos.

– Acho prático, elegante e funcional. É contratar um profissional excelente, que traz tudo, monta os pratos de maneira sofisticada e, no final, ainda limpa a cozinha. Tem coisa melhor para os donos da casa? Assim, é possível dar total atenção aos convidados. Saí realmente encantada – afirma Susie.

A chef Sônia Jendiroba entre André Pollaro e Rogê Foschi, criadores do Meu Bistrô Foto: Kenn Robert/Divulgação

Entrevista: "Ganhamos o apelido de Uber da gastronomia"

Como surgiu a ideia da plataforma?
Rogê - Nos conhecemos desde criança, porque moramos perto. Já naquela época, nós dois vendíamos limonada. Depois, na faculdade, tivemos matérias de empreendedorismo. Daí surgiu a ideia. Começamos a pesquisar e resolvemos montar o negócio.

Observaram essa tendência junto a chefs e público final daqui de Santa Catarina?
André –
Percebemos que era uma tendência lá fora. Havia muito sites parecidos na Europa, nos Estados Unidos. Tem uma plataforma, por exemplo, bem similar à nossa, que começou em Paris, na França, e se chama La Belle Assiette. Hoje ela está em toda a Europa e conta com mais de 1,6 mil chefs cadastrados. Tem outra nos Estados Unidos, a Kitchen Surfing.
Rogê – Fizemos pesquisa de mercado em todo o Brasil, perguntando a algumas pessoas, conversando, falando com chefs também. Todos nos incentivaram. A nossa plataforma ainda tem o diferencial de não cobrar mensalidade, apenas a taxa no ato da contratação, que é de 13%.

Cidades catarinenses ainda não contempladas na plataforma, mas de localização próxima, podem realizar pedidos?
Rogê –
Sim, os chefs podem se deslocar num raio de atendimento de 50km, 100km e até 200km! É o caso de cidades vizinhas, como Itapema. Se houver custo extra de transporte, o chef pode incluir na conta.
André – Geralmente, os pedidos são para oito a 15 pessoas. Mas, no caso de grande eventos, para 200 pessoas, por exemplo, temos um link específico no site, em que nós, como sócios e moderadores, atendemos diretamente. Cotamos o preço, verificamos o chef especializado e também contemplamos cidades vizinhas com essse serviço.

Se o usuário tiver acesso ao celular do chef e combinar o menu à parte, como vocês lidam com essa situação?
André -
O intuito da plataforma é aproximar chefs e clientes, bem como facilitar a contratação entre eles. Até o momento da contratação, é vedado o envio de telefone e e-mail. Todas as dúvidas e troca de mensagens são realizadas pela plataforma. Após a contratação, caso o cliente deseje requisitar algum meio de comunicação com o chef para acertar os detalhes que não foram tratados por mensagem, nós disponibilizamos o contato.

Como vocês enxergam a tendência da internet nas práticas e serviços gastronômicos? Há resistência dos chefs mais tradicionais?
André –
Alguns deles oferecem um pouco de resistência, mas estão começando a ver que esse é o futuro da gastronomia e que terão de se adaptar a ela, senão vão perder espaço no mercado.
Rogê - Fizemos um evento ano passado para apresentar o projeto. E, depois que funciona, eles começaram a despertar para isso. Oferecemos uma praticidade muito grande: em vez de ligar para vários chefs, abrir vários e-mails, adiantamos esse serviço, juntando tudo num só lugar para o cliente escolher o que quer. A gente gosta de chamar o nosso site de o market place de chef de cozinha. Mas já tem gente nos apelidando de o `Uber da gastronomia¿.

E as expectativas agora, após quatro meses de lançamento da startup?
André –
Muito a crescer! Estamos negociando com investidores, porque hoje o nosso marketing ainda é restrito a regiões que possuem mais chefs e apresentam mais resultados. Mas, nos próximos meses, acredito que vai dar um `boom¿ bem grande. Devemos lançar, ainda no segundo semestre, a versão da plataforma para aplicativos de celular.

Lucas Oceano, Guilherme Pacheco, Victor Yudi e Suelen Fenali, criadores do Heycheff, de Florianópolis Foto: Diorgenes Pandini/Agência RBS

Facilidade em um clique

Existem também startups que trafegam entre o serviço de delivery e o de tentar aproximar o trabalho do chef ao usuário final. É o caso da Heycheff, uma iniciativa de cinco jovens universitários de Florianópolis, lançada há oito meses como aplicativo, sob o objetivo de oferecer ¿reservas antecipadas¿. Com a vantagem de encurtar a distância temporal e propiciar uma experiência gastronômica sem filas, levando o consumidor final ao balcão no tempo menor possível, a empresa já acumula uma média de cinco atendimentos/dia.

Hoje a Heycheff possui uma cartela de 22 estabelecimentos, situados entre Florianópolis e Goiânia (GO). A maioria das casas participantes conta com espaços grandes (ou seja, a reserva se fundamenta pela pressa, e não pela contenção física). A ideia, segundo um dos fundadores, Victor Yudi, 21 anos, paulista radicado em Floripa, é expandir para restaurantes de alta gastronomia nos próximos dois meses. Ainda, de acordo com ele, o serviço garante uma economia de tempo de 20 a 30 minutos em relação à espera tradicional. Se depender do esforço deles, ainda pode sobrar um tempinho para uma conversa informal entre chef e usuário.

 Veja também
 
 Comente essa história