Nova masculinidade é possível a partir da paternidade positiva Betina Humeres/Agencia RBS

Sensibilidade é a mudança comportamental mais sentida pelos "pais positivos"

Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Não basta ser pai. Também não é suficiente participar. Na criação de filhos e filhas, o envolvimento integral do homem é tão importante quanto o da mulher. Isso pressupõe desde trocar fraldas até varrer a casa, ou seja, desempenhar funções paternas e domésticas da mesma forma com que a mãe assume.

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Homens e mulheres concordam com tal relação igualitária no desenvolvimento dos pequenos. É o que demonstra uma pesquisa realizada pelo site de relacionamento ParPerfeito, onde os entrevistados disseram que a divisão de tarefas deve ser igual, que as mudanças da sociedade impactam as funções de mães e pais e que há uma "nova masculinidade", em que o homem está mais presente no cuidado com a casa e com os filhos.


Se o discurso é bonito, a realidade nem tanto. Apesar de o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada estimar em levantamento que homens e mulheres se igualem na jornada semanal de trabalho fora de casa — 40 a 44 horas — elas ainda precisam dedicar 25 horas de trabalho semanal em atividades domésticas, enquanto os companheiros despendem dez horas por semana em casa.

Neste dia dos pais, o Diário Catarinense conta a história de Gustavo, Rafael e Fabrício, três pais que experimentam o estilo de paternidade participativo. Os ganhos — para eles próprios, para a criança e para a companheira _ são expressivos. Eles são exemplos dos chamados pais positivos, conceito criado pelo antropólogo espanhol Ritxar Bacete (leia a entrevista aqui) sobre homens contemporâneos que se comprometem ativamente nos cuidados e trabalhos dos filhos.

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Quando ir a feira virou diversão

Enquanto a mãe se arruma para ir trabalhar, Luísa, de 2 anos, e Fabrício Escandiussi, 40, começam o dia. Tomam café da manhã, trocam de roupa, deixam Gisele no escritório e fazem a feira _ atividade preferida da menina. Voltam para casa e brincam até o horário de fazer almoço, comer, tomar banho e ir à creche, que ela só começou a frequentar no início deste ano.

O jornalista assumiu o cuidado integral e diário da filha no fim da licença maternidade — quase oito vezes maior que a do homem — de Gisele. Era um plano com data de validade, porque ninguém acreditava nas habilidades de Fabrício. Também havia uma campanha eleitoral pela frente, que demandaria uma carga de trabalho expressiva ao profissional, mesmo trabalhando de casa e eventualmente levando a menina a tiracolo às entrevistas coletivas. Mas os meses passaram e o pai continuou conciliando funções profissionais, domésticas e paternas.

— É a Luísa quem me ensina diariamente a ser pai. Quem me tornou um ser humano melhor _ confessa Fabrício, que se diz mais paciente, bem-humorado e sensível depois que a pequena chegou ao lar Prado Escandiussi, no Sul da Ilha de Santa Catarina.

A organização da vida do pai no entorno da criança, no entanto, ainda causa estranheza em quem vê somente Fabrício e Luísa juntos no dia a dia.

— Vamos ao posto de saúde e nos perguntam: cadê a mamãe? — diz, decepcionado o pai, que documenta as experiências da paternidade e da adoção no Diário do Papai.

Apesar de apoiar a postura do companheiro e, principalmente, perceber mudanças de comportamento que também beneficiaram a vida em casal, a analista de franchising Gisele reconhece que a relação entre mãe e filha foi difícil no começo.

— Ela me culpava por ir trabalhar. Chegava o fim de semana e a primeira coisa que ela me perguntava era: você vai iaiá (sic) hoje? Foi difícil para ela entender. Agora está melhorando. Ela escova os dentes com o papai e passa o fio dental comigo — exemplifica, rindo, a mãe. 

Luísa e Fabrício tem programa preferido juntos: fazer a feira Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Ideias ultrapassadas de lado e mãos à obra

Gustavo Brazzalle, 31, faz parte de uma época em os homens começam a encarar com mais naturalidade a divisão de tarefas na criação de um filho quando comparada a anos anteriores, quando isso raramente era discutido. A própria história também fez com que o designer de animação adotasse a postura de um pai participativo, pelo menos quando Bernardo está em sua casa. Ele e a ex-companheira se separaram logo no primeiro ano de vida do filho de 4 anos e meio, que passou a viver ora com o pai, ora com a mãe – e também com os avós.

A gravidez inesperada foi um momento turbulento, mas não afugentou Gustavo das obrigações de pai. Trocou fraldas, participou da escolha da escola que o filho frequenta, faz almoço diariamente. Para ele, assumir a criação de Bernardo de maneira intercalada com a mãe foi intrínseco.

— Depois que nasce, parece que a paternidade é uma coisa natural, que estava guardada e pronta para surgir, por mais que o contexto não pedisse isso. É automático. É fazendo que se aprende. 

A socialização do homem — que costuma ser direcionado a brincar de carrinho e não a cuidar de boneca — faz com que muitos pais se digam despreparados para tomar conta das criançasMas Gustavo contesta essa visão, já que considera as tarefas bastante simples.

— Dar banho, trocar fralda, preparar mamadeira... Acho isso mil vezes mais fácil do que consertar uma máquina de lavar, que se espera de um homem. Foi natural pegar ele [Bernardo] novinho e já colocar a fralda. Não existiu nenhum medo de começar. Tem que se livrar dessas ideias, botar a mão e fazer. 

E, fazendo, parece irritar-se com a reação das pessoas quando, por exemplo, sai para passear com o menino no shopping.

— É muito fácil ser pai e ser homem. Basta tu fazer o básico e a sociedade já te aplaude muito. Chega a ser até triste.

Antes de Bernardo, ele se dizia uma pessoa fechada. Raramente abraçava o próprio pai, por exemplo, ou expressava o que sentia pelas pessoas. Tudo mudou depois que trouxe um pedaço de si ao mundo, para quem deseja repassar a mesma ideia de paternidade.

— Ele me mudou como pessoa como um todo. Com certeza despertou sentimentos que eu não tinha noção que existiam. Comecei a ter bem mais afeto. Abriu um horizonte na minha mente, por causa desse sentimento que eu não fazia ideia que existia desse tamanho, o amor. 

Entre trabalho e brincadeira, Gustavo e Bernardo dividem as manhãs juntos Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Orgulho de ser pai especial em tempo integral

Quando Alice ainda não havia sequer experimentado o mergulho que lhe trouxe ao mundo em um parto realizado há dois anos e dez meses em uma banheira, a família Almeida Alves já fazia planos. Seria mimada se ganhasse um carro ao completar 18 anos? Só se ingressasse em uma universidade federal. Caso contrário, o dinheiro do automóvel seria revertido nas mensalidades do ensino superior. Mas logo nos primeiros meses de vida, as expectativas do casal Rafael e Aline em relação à filha tiveram de ser alteradas. A pequena terá outros tipos de conquistas.

Bem antes do diagnóstico de paralisia cerebral da criança, Rafael largou o emprego formal para trabalhar em casa e ser um pai em tempo integral. O designer gráfico não sabia que isso seria tão fundamental na vida de Alice, que depende de cuidado na mesma medida, tendo em vista os prejuízos motores e cognitivos. Superado o período peregrinando em hospitais, Aline voltou ao trabalho e Alice foi apresentada ao novo lar, onde dividiria todas as atividades do dia com Rafael.

— Hoje vejo que ter sido pai em período integral foi uma das melhores coisas que poderia ter acontecido comigo. Não só foi importante pro meu crescimento como pessoa, mas também mudou meu jeito de perceber muitas coisas. Me tornei mais sensível e empático com o mundo — confessa o homem que, quando mais novo, não queria ser pai, mas mudou de ideia e planejou a chegada de Alice.

Da sensibilidade, veio a escrita. O papai de primeira viagem — ou "papissauro", como apelidou-se — passou a contribuir com o blog Roteiro Baby Floripa para compartilhar experiências a respeito da paternidade e da paralisia cerebral da filha. Em um dos posts, aborda a responsabilidade do pai na amamentação, que é para ele um dos poucos momentos em que o homem não pode fazer o que a mãe faz, a exemplo do parto. O companheirismo, no entanto, é defendido. 

Depois, a partir de uma necessidade nutricional de Alice, criou com Aline a Paplim, empresa especializada em mais de 20 receitas diferentes de papinhas congeladas, que custam em média R$ 10, para bebês e crianças de até 5 anos. Não pensa em voltar a trabalhar no mercado de trabalho convencional. Privilegia o próprio negócio, que está conectado à história da filha e ajuda outros pais e mães.

Ele já teve orgulho da postura de "paizão" adotada, mas hoje dispensa o sentimento. 

— É o básico, é o que todo mundo deveria fazer. Saber que algumas pessoas, especialmente mães numa relação desproporcional de cuidado, acham que eu sou um super paizão é só mais uma prova de quão forte o machismo ainda está por aqui.

Rafael viu sua vida ser transformada após a chegada de Alice, que tem paralisia cerebral Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Recomendações para a paternidade no Brasil

Cientes do impacto positivo do envolvimento do homem na criação dos filhos — especialmente para a saúde materno-infantil, desenvolvimento cognitivo da criança, empoderamento da mulher, além da consequência igualmente positiva para a saúde e bem-estar dos próprios homens —, as organizações ProMundo e MenCare elaboraram seis recomendações para estimular a paternidade positiva no Brasil. Os ensinamentos são direcionados ao Estado e à população em geral. Confira: 

1) Licença paternidade: instituição de um grupo de trabalho focado na ampliação da licença no Congresso Nacional. Realização de campanhas de conscientização nacionais sobre a importância do direito, tendo como foco o bem-estar e a saúde de homens, crianças e mães e a promoção da igualdade de gênero. 

2) Lei do Acompanhante: fortalecimento de campanhas nacionais de conscientização de gestores, profissionais de saúde e da população em geral sobre a legislação e fiscalização mais rigorosa, com o estabelecimento de medidas legais, quando o descumprimento for comprovado. 

3) Saúde dos homens: maior visibilidade e atenção do Ministério da Saúde em relação à implementação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem e às ações da Coordenação Nacional de Saúde dos Homens, que apesar da relevância e caráter inovador permanecem sendo pouco reconhecidas e exploradas em todo potencial pelo SUS. Abertura da Frente Parlamentar da Atenção Integral à Saúde dos Homens para especialistas da sociedade civil e academia que atuam no tema da saúde dos homens, gênero e masculinidades, paternidade e cuidado e igualdade de gênero. 

4) Homens, direitos reprodutivos e pré-natal: divulgação e replicação, por parte do Ministério da Saúde, das estratégias Pré-Natal do Parceiro (Coordenação Nacional de Saúde dos Homens/MS) e Unidade de Saúde Parceira do Pai (Prefeitura do Rio de Janeiro; Comitê Vida e Movimento pela Valorização da Paternidade) em toda a rede SUS. Inclusão de um campo para pais, futuros pais ou parceiros na Ficha de Cadastramento da Gestante e Ficha de Registro Diário dos Atendimentos das Gestantes no Sisprenatal e elaboração de metas e indicadores nacionais sobre a participação dos homens no pré-natal. 

5) Permanência e ampliação de campanhas públicas que ressaltem a importância da paternidade e do cuidado na promoção da igualdade de gênero;

6) Fomento e realização de novas pesquisas sobre paternidade e cuidado levadas a cabo pelo governo, pela academia e por organizações da sociedade civil, aprofundando e consolidando o campo.

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