Peças do navio Carl Hoepcke, naufragado em Santos na década de 70, retornam a Santa Catarina Betina Humeres/Agencia RBS

Algumas peças já estão disponíveis para visitação no Instituto Carl Hoepcke, na Avenida Trompowski, em Florianópolis

Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Acostumado a fazer o trajeto entre Florianópolis e Rio de Janeiro com escalas nos portos de Itajaí, São Francisco do Sul, Paranaguá (PR) e Santos (SP) entre os anos 1920 e 1950, parte do navio Carl Hoepcke percorreu recentemente um itinerário distinto. Timão, bússola e escotilhas, além do leme e de uma estrutura que suportava a hélice acabam de retornar por terra a Santa Catarina depois de permanecerem por mais de 60 anos em Santos, no litoral de São Paulo, onde a embarcação mista de cabotagem foi vendida e, posteriormente, naufragada.

As peças menores estão expostas ao público no Instituto Carl Hoepcke (Avenida Trompowski, 355, Centro de Florianópolis, telefone 48 3222-2580, entrada gratuita), enquanto aquelas que pesam 5,5 mil quilos recebem tratamento em Palhoça para, em 2017, também voltarem a encantar a população. 

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A presidente do instituto, Annita Hoepcke da Silva, comemora o retorno das peças da mesma forma com que a sociedade catarinense celebrava no trapiche na praia Rita Maria ou na própria ponte Hercílio Luz as viagens do navio que levava o nome do bisavô.

– Precisamos preservar a memória de algo que emocionou tantas pessoas como esse navio em Santa Catarina.

A morte do fundador da Empresa Nacional de Navegação Hoepcke, Carl Franz Albert Hoepcke, em 8 de janeiro de 1924, motivou a neta de 14 anos na época, Ilse Weineck, a batizar o maior navio da frota com o nome do avô. 

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Ao lado de outros três navios que compunham a frota da Empresa Nacional de Navegação Hoepcke, a embarcação era um ícone no transporte marítimo do Estado e do país, conforme lembra o historiador Max José Müller.

– O Carl Hoepcke é um navio que se recusou a morrer. Também havia as embarcações Max, Meta e Anna. E as chamadas chatas, que permitiram a navegação dentro do Estado, nos rios, como em Joinville e Tubarão. Nesses casos, era transportado o que era produzido pelos catarinenses – lembra o vice-presidente do instituto.

Müller reforça o caráter empreendedor da família de origem alemã que chegou ao Estado em 1863. Além da navegação, os Hoepcke atuavam em empresas de rendas e bordados, fábrica de pontas e de gelo, e em filiais da Casa Hoepcke, com unidades em Blumenau, Curitiba, Joaçaba, Joinville, Lages, Laguna, São Francisco do Sul e Tubarão.

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 Irmãs Annita Hoepcke da Silva (D) e Silvia Hopecke da Silva (E) comemoram chegada dos equipamentos Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

O navio em números

Comprimento: 62,4 metros
Largura: 10,96 metros
Tripulação: um comandante, cinco oficiais e 17 marinheiros
Passageiros: 50 na primeira classe e 60 na segunda classe
Estrutura: dois camarotes de luxo, dois salões, refeitório e sala de fumar, contando com aparelho de radiotelegrafia, frigorífico com máquina para fazer gelo, equipamento de combate a incêndios e aparelho a vapor para desinfecção
Capacidade: 750 toneladas com lastro e calado máximo de 12 pés (3,66 metros)

Itinerário da embarcação

1926
Em 14 de setembro, o navio era construído a pedido da família Carl Hoepcke no estaleiro Schichau-Werft, próximo à Gdansk – atual Polônia, ex-território alemão.

1927

Foto: Divulgação / Divulgação

Em 17 de julho, a embarcação deixa o porto de Hamburgo e, após 27 dias, chega ao porto de Florianópolis, na praia de Rita Maria, próximo à ponte Hercílio Luz, inaugurada um ano antes. O navio é incorporado à frota da Empresa Nacional de Navegação Hoepcke, fundada pelo imigrante alemão em 1865, e passa a transportar pessoas (em duas classes de alto padrão ) e cargas (madeira, erva-mate, manteiga, banha) desde Florianópolis até o Rio de Janeiro, com paradas nos portos catarinenses de Itajaí e São Francisco do Sul. O trajeto durava, em média, três noites.

1950

Foto: Divulgação / Divulgação

O governo federal passa a apostar na matriz rodoviária e faz com que a navegação de cabotagem se torne menos vantajosa economicamente. A partir de então, a família vende Carl Hoepcke ao empresário e armador Wladimir Greaves, de São Paulo, que muda o nome do navio para Recreio e transforma-o em boate ancorada na praia do Góes, à entrada do porto de Santos.

1971
Em 25 de fevereiro, as amarras da embarcação soltam-se devido a fortes ventos e, como não havia mais motores, fica à deriva. Já próximo ao Aquário Santista, o navio encalha. Tornou-se, imediatamente, atração aos moradores e turistas da cidade. O jornal A Tribuna de Santos, em 1º de março, noticiava que ¿o melhor programa do santista foi ir até as imediações do Aquário para ver o navio que a maré jogou na areia¿.

Em 24 de abril, estava marcada a operação para tentar desencalhar o navio. Mas ela foi suspensa devido à apreensão das autoridades em relação à possibilidade de um acidente. O navio, então, teve de ser desmontado. O casco precisou ser recortado a fim de possibilitar a remoção. A parte do meio da embarcação até a popa manteve-se soterrada. O advogado Gastone Righi Cuoghi defende judicialmente Greaves devido à demora da remoção e, de presente, ganha um conjunto de timão, bússola e cinco escotilhas, retirados do navio Carl Hoepcke.

2005
Pesquisador de Santos entra em contato com o Instituto Carl Hoepcke para relatar que destroços do navio voltam a aparecer. A família, então, segue até a Baixada Santista para participar do início dos trabalhos de remoção e consegue a doação de duas peças: leme com a parte final do casco, onde esse componente se apoia, e uma estrutura de suporte do eixo da hélice.

2016
Em julho é oficializada a doação dos objetos. As peças chegam a Florianópolis em 11 de agosto. Timão, bússola e escotilhas ficam expostas ao público no Instituto Carl Hoepcke. Os outros objetos retirados do navio encalhado encontram-se em oficina especializada em Palhoça, onde são preparados para serem expostos em breve, possivelmente em 2017 no casarão ao lado do Mercado Público, em Florianópolis, que também pertence à família Hoepcke.

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