Entenda por que o Jardim Botânico de Florianópolis ainda é apenas um parque, um mês após a abertura Marco Favero/Agencia RBS

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

O nome representa indecisão. O Parque Jardim Botânico de Florianópolis é um jardim botânico ou um parque? O que se espera ser um espaço com grande variedade de plantas nativas e exóticas – naturais de outras regiões – para pesquisa e visitação é ainda uma área de lazer com raros exemplares da flora. 

Dos 19 hectares a serem explorados no futuro, apenas um terço está ocupado com área de exposições, horta comunitária, quadras, pistas de caminhada, um lago, além de construções que já existiam e serão reformadas para abrigar atividades educativas e culturais.

A convite da reportagem, o professor do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), João de Deus Medeiros, visitou o parque e destacou o potencial do espaço para unir pesquisa e lazer no futuro. 

Segundo o especialista, o que ainda afasta a área aberta há um mês ao público de um legítimo jardim botânico é não ter um acervo de plantas, uma equipe técnica consolidada e braços de pesquisa, que permitam associar o lazer com a parte cultural a respeito da flora e dos meios naturais.

– A iniciativa é interessante, mas ainda bastante incipiente. Aqui tem espaço para plantar algo que realmente seja condizente com o jardim botânico. Não é uma área muito grande, mas no contexto da cidade acho que é uma destinação realmente defensável. Um jardim botânico tem que ter amostras e, atualmente, está bastante pobre. Precisa de um planejamento agora para ir em busca das mudas – afirma Medeiros.


Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Patrimônio florístico local sem identificação 

Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente de 2003 determina que um jardim botânico tenha coleção de plantas vivas, catalogadas e identificadas com a finalidade de estudo e documentação do patrimônio florístico local. 

O espaço deve conciliar pesquisa científica para preservação de espécies e atividades educativas. O acervo precisa abrigar espécies silvestres, raras ou ameaçadas de extinção, especialmente locais ou regionais, as chamadas plantas nativas. 

Além disso, são exigidos um quadro de especialistas, serviço de jardinagem, criação de uma área de produção de mudas – preferencialmente de espécies nativas da flora local –, um herbário (coleção de plantas secas) e germoplasma (unidade conservadora de material genético) de plantas exóticas.

Na avaliação do professor Medeiros, o espaço do Itacorubi ainda não atende à maior parte desses requisitos. Além disso, é indispensável que o jardim botânico atue na área de educação e pesquisa. 

A maioria das árvores existentes no espaço da Capital – como as palmeiras-imperiais e as nogueiras – é de espécies exóticas. Poucas delas têm placas de identificação e ainda não há campo para pesquisas.

Vice-presidente da Rede Brasileira de Jardins Botânicos, Ricardo Steck afirma que o espaço de Florianópolis tem características interessantes porque está ligado ao mangue e, ao mesmo tempo, é área um tanto degradada, o que dá oportunidade de planejar e habitá-la com espécies de interesse da preservação. No entanto, o que vai diferenciar o jardim do parque é a atenção aos três pilares: pesquisa, conservação e educação ambiental.

– Um jardim botânico é um museu de plantas vivas, de espécies que você vai distribuir para que as pessoas conheçam a flora. E esse acervo vivo precisa ter todas as informações de onde elas vêm, como foram coletadas. O que diferencia de um parque público seria o trabalho da conservação da diversidade biológica – destaca Steck.

Corrida contra o tempo para garantir o espaço

Desde que foi assinado o termo de cooperação com a Epagri, dona da área, em julho, a Companhia de Melhoramentos da Capital (Comcap) fez um esforço para tornar visitável o espaço em apenas 60 dias. Localizado às margens do mangue do Itacorubi, o local era uma antiga fazenda da Epagri que abrigava extensionistas rurais vindos do interior. Pouco utilizado, há pelo menos 20 anos havia propostas de torná-lo um jardim botânico. 

Presidente da Comcap, Antônio Marius Zuccarelli Bagnati é taxativo ao dizer por que o espaço recebeu o nome de ¿parque¿:

– Para não aparecer ninguém lá e dizer que não é um jardim botânico. Realmente ainda não é um jardim. 

O que nós prometemos era atender o anseio da população, que era abrir aquela área. Não tínhamos uma expectativa muito grande. Na verdade, nós conseguimos fazer muito mais graças ao entusiasmo e ao aporte financeiro de empresas e da comunidade.

Bagnati defende que a intenção de abrir o parque para visitação antes mesmo de ter todas as estruturas instaladas foi uma forma de assegurar que o espaço seja público. Com a cooperação da comunidade, uma horta e um local para redes de descanso, não previstos inicialmente, foram implantados. Um galpão, aos fundos do bosque açoriano – formado pelas nogueiras – será reformado com a ajuda de um empresário da cidade, para receber auditório, cozinha comunitária, espaço para leituras, pesquisa e cursos. O local também vai abrigar a equipe de educação ambiental da prefeitura.


Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Vínculo com o mangue é diferencial

Ainda neste mês, o parque receberá um viveiro de mudas e um canteiro de ervas medicinais. O presidente da Comcap projeta para daqui um ano ter a arborização do parque melhor distribuída, o paisagismo mais consolidado e as obras do galpão concluídas. 

– O nosso é um jardim botânico diferente, tem características particulares, voltadas para a agricultura, para colonização da terra e vai ser o único que vai estar vinculado a um mangue, uma área de 200 hectares. Não será um jardim botânico que terá uma estufa com plantas exóticas, mas árvores frutíferas para atrair pássaros. Talvez seja muito mais rústico do que outros que se conhece, como o do Rio de Janeiro, que tem 200 anos – defende.

Os jardins botânicos são classificados nas categorias A, B e C, segundo resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Quanto mais diverso é o acervo e mais pesquisas ele atrai e fomenta, pode chegar à classe A, explica a coordenadora do Jardim Botânico da Univille, Karin Esemann.  

No dia 31 de agosto, a diretoria da Rede Brasileira de Jardins Botânicos (RBJR) visitou o parque e fez sugestões. O vice-presidente da RBJR, Renato Steck, diz que a implantação dos espaços leva tempo e é feita gradualmente:

– O jardim botânico está devolvendo o verde para a cidade. É importante ter a visão de que ele é diferente de uma unidade de conservação, não é uma coisa pronta a ser preservada, é um processo.

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