Eleita Reserva Mundial de Surfe, Guarda do Embaú deve ter mais ações de preservação ambiental Isadora Neumann/Agencia RBS

Programas de educação ambiental, ações de monitoramento e combate à poluição e institucionalização da representatividade da comunidade nas políticas de desenvolvimento urbano e turístico devem fazer parte da praia de agora em diante

Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

No fim do ano passado, a Guarda do Embaú passou a integrar um grupo seleto de nove praias que têm o título de Reserva Mundial de Surf. Santa Cruz e Malibu (USA), Bahia de Todos Santos (México), Huanchaco (Peru), Punta Lobos (Chile), Manly Beach e Gold Coast (Austrália), e Ericeria (Portugal) completam o time. Ao paraíso catarinense, resta a expectativa de investimento em preservação ambiental.

Para comentar o contexto, o Diário Catarinense entrevistou o professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Marcos Bosquetti, que atuou no reconhecimento obtido pela Guarda do Embaú. Ele é coordenador do grupo de pesquisa SandS, focado em surf e sustentabilidade. Diretamente dos Estados Unidos, onde cursa pós-doutorado no Centro de Pesquisa de Surf da Universidade Estadual da Califórnia, Bosquetti respondeu aos seguintes questionamentos da reportagem:

Quais são os pré-requisitos que uma praia precisa apresentar para ser considerada uma reserva mundial de surfe?
A praia precisa atender quatro pré-requisitos que são criteriosamente analisados pelo Conselho Mundial da Save the Waves Coalition, composto por 18 autoridades do mundo do surf. O primeiro critério é a qualidade e consistência das ondas. A praia precisa ter ondas consideradas de classe mundial em termos de tamanho, forma e consistência. O segundo critério considera as características ambientais, as peculiaridades, complexidade e fragilidade do ecossistema que envolve a praia. O terceiro critério é a cultura e história do surf, sua contribuição para a formação de atletas e o desenvolvimento do surf na região. E o quarto critério é o engajamento e apoio da comunidade local para a preservação daquele ecossistema.

Desses, em quais a Guarda do Embaú se destaca?
A nossa Guarda do Embaú se destaca em todos os quatro critérios. A natureza proporciona nota 10 nos dois primeiros critérios: qualidade da onda e características ambientais. A Guarda está inserida no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, entre um costão que avança mar adentro e uma ponta de areia das dunas recortada pelo Rio da Madre. Essa característica geográfica faz da Guarda uma das praias mais belas do Brasil e faz com que ondas de excelente qualidade quebrem na boca do rio e em sua orla, atraindo surfistas do país e do mundo. Sua onda tubular é considerada a melhor "esquerda" do Brasil (esquerda é a direção da onda que pode quebrar tanto para a direita como para a esquerda de quem está no mar, de frente para a praia). As notas dos outros dois critérios: cultura e história do surf na região e o apoio da comunidade são méritos da própria comunidade pela sua iniciativa de preservação liderada pela Associação de Surf e Preservação da Guarda do Embaú, fundada em 1987 com o objetivo de proteger esta pérola da costa catarinense. 

A Guarda do Embaú é a única praia do Oceano Atlântico tanto na América do Norte, Central e do Sul reconhecida como Reserva Mundial de Surf. Vale destacar também que a Guarda é o berço do grande surfista profissional Ricardo dos Santos (em memória), que representou o Brasil nos campeonatos mundiais de surf. Outro fruto da Guarda do Embaú é a surfista local Tainá Hinckel Santos, que com apenas 13 anos de idade se prepara para entrar no circuito mundial da categoria pro-junior e já é considerada a grande promessa do surf profissional feminino brasileiro. Qual é o desdobramento para uma praia que recebe esse título? 

É correto pensar que haverá maior preocupação ambiental nesse espaço? De que forma isso pode acontecer?
Sim, o reconhecimento pela conquista do título de reserva mundial do surf fortalece o movimento da comunidade local para a preservação da Guarda, uma vez que passa a ter o reconhecimento mundial das autoridades do mundo do surf e maior atenção dos órgãos públicos. Agora, com a conquista do título, o nosso Conselho Gestor Local da Reserva Mundial de Surf Guarda do Embaú — composto por representantes da comunidade local, de institutos de proteção ambiental, do governo local e da universidade — passa a trabalhar em parceria com a Save the Waves Coalition, com sede na Califórnia, desenhando e implementando um plano master de preservação da reserva de surf que envolve desde programas de educação ambiental, ações de monitoramento e combate à poluição até a institucionalização da representatividade da comunidade nas políticas de desenvolvimento urbano e turístico, criando uma camada adicional de proteção do ecossistema e da cultura local.

Como é o trabalho no grupo de pesquisa que você coordena? Qual é o enfoque e como o estudo poderá contribuir com as praias, natureza e sociedade?
O SandS é um grupo interdisciplinar de pesquisa que estuda a transição para a sustentabilidade no mundo do surf e os impactos econômicos, sociais e ambientais do esporte. Temos o propósito de formar uma rede internacional de pesquisadores com foco de estudo na América Latina. O engajamento do SandS com a comunidade e organizações ambientais possibilita a realização de pesquisas de campo gerando conhecimento científico e também contribuição prática, como ocorreu no processo de apontamento da Guarda do Embaú, onde atuei no comitê especial de candidatura e participo como membro do Conselho Gestor Local da Reserva Mundial de Surf, representando a UFSC nesse processo colaborativo de preservação do ecossistema e da cultura local. 

Um dos projetos do nosso grupo de pesquisa é o mapeamento da indústria de surf em Santa Catarina. Nosso Estado é um dos maios importantes destinos de turismo de surf do Brasil. SC é berço da maior marca de surf da América Latina, a Mormaii, com sede em Garopaba. A indústria têxtil catarinense é líder nacional na fabricação de surfwear atendendo as principais marcas globais da moda surf. Mas ainda não temos informações sistemáticas sobre o tamanho do mercado, número de fábricas de pranchas, escolas de surf, turismo de surf no Estado, entre outras informações essenciais para o planejamento estratégico deste setor. O SandS possui três linhas de pesquisas. A primeira é voltada para o desenvolvimento sustentável da indústria de surf, incluindo estudos de inovações em materiais, design e produção de equipamentos de surf. A segunda linha de pesquisa estuda o turismo de surf sustentável e o planejamento e gestão dos destinos turísticos que recebem os surfistas. E a terceira linha estuda a gestão costeira e sua integração com as atividades de surf.

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