Pelo menos cinco entidades que representam o Ensino Superior no Brasil se solidarizaram, por meio de nota, com a professora Marlene de Fáveri, da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Florianópolis. Ela está sendo acusada pela aluna que orientava, Ana Caroline Campagnolo, de perseguição ideológica. As duas divergem em relação ao movimento feminista. 

O Departamento de História da Udesc, o Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) da mesma instituição, o Instituto de Estudos de Gênero da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) e, mais recentemente, a Associação Nacional de História (Anpuh) saíram publicamente em defesa da professora catarinense. 

A pesquisadora é alvo de pedido de indenização por danos morais movido em 2014 pela própria ex-orientanda no mestrado em História. "Discriminação, intimidação e ameaça velada via e-mail; exposição discriminatória em sala de aula; e tentativa de prejuízo acadêmico" são as justificativas presentes no processo a que o Diário Catarinense teve acesso. As acusações são rebatidas na defesa da ré. 

A nota publicada pela Anpuh cita, além do caso em Santa Catarina, que chama de "suposta propaganda feminista", outras duas situações de professores de História que são processados: no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. 

"Todos esses eventos de censura e perseguição a professores são baseados principalmente na 'crença' do 'Escola sem Partido' de que os docentes estariam fazendo 'doutrinação esquerdista dos seus alunos. A Anpuh registra sua indignação com a desvalorização e a criminalização do trabalho dos profissionais da História presentes nesse tipo de ação e chama a atenção para os resultados catastróficos para o futuro da democracia e do pensamento crítico e emancipador na sociedade brasileira", defende. A nota vem sendo amplamente compartilhada nas redes sociais. 

Ana, por sua vez, é amparada pelo movimento Escola Sem Partido, que defende o anteprojeto de lei contra a doutrinação nas escolas. Nas redes sociais, a página da organização mantida por estudantes e pais publicou um vídeo da TV Câmara, em que a autora da ação comenta a perseguição que diz ter sofrido na Udesc. Veja:

O processo ainda está em tramitação. Em maio, está prevista a fase de instrumentação, quando são reunidas as provas apresentadas pelas partes. 

Entenda o caso

A estudante Ana Caroline Campagnolo, que leciona História em escolas da educação básica de Chapecó, foi selecionada pela Udesc no segundo semestre de 2013. O projeto de pesquisa inscrito, intitulado Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em Inquéritos Policiais da Comarca de Chapecó (1970-1988), foi aceito pela professora "por aproximação teórico-metodológica e temática coerente com suas pesquisas", conforme consta no processo. Entre outras disciplinas, Marlene de Fáveri ministra na graduação e na pós-graduação a cátedra História e relações de gênero que, segundo o plano de ensino, pretende "analisar os movimentos e lutas das mulheres e a emergência dos feminismos, estudar temas que atravessam a categoria gênero, como masculinidades, transnacionalismo, experiência, preconceitos, violência, sexualidade e racismos, dentre outros tópicos".

A relação entre a pesquisa proposta pela estudante, que contempla a temática da violência contra a mulher, e a da própria atuação da professora da Udesc não foi suficiente para mantê-las em harmonia no estudo. O desentendimento entre orientadora e orientanda começou em outubro de 2013, quando Marlene diz ter sido alertada por alunos a respeito de um vídeo de 122 minutos feito por Ana e publicado no Youtube. O arquivo não se encontra mais disponível. 

Por considerar que o material continha "teor sexista, homofóbico e racista", Marlene teria questionado se a estudante acreditava naquilo que havia publicado já que, conforme a orientadora, era contraditório, tendo em vista o próprio objeto de pesquisa que ela conduzia. Em uma troca de e-mails exposta nos autos do processo, Ana defendeu-se quando disse que não trazia à sala de aula opiniões emitidas em redes sociais. Autora do canal de vídeos na internet Vlogoteca, a ex-mestranda expõe publicamente os motivos por que não considera o feminismo um movimento legítimo aos cristãos, corrente religiosa que diz ser integrante. 

O imbróglio veio à tona em sala de aula. Quando confrontada por colegas de sala durante uma aula de Marlene, Ana diz ter sofrido "estresse emocional e sofrimento psíquico, situação de humilhação e sensação de cerceamento", como estão nos autos. Marlene, por outro lado, confessa também em processo que, após a divulgação do vídeo, "foi constrangida, em diversos lugares, instituições e grupos, ao ter que responder questionamentos de como estaria ensinando erroneamente os conceitos, uma vez que a autora do dito vídeo era sua orientanda".

Depois do desentendimento, a professora solicitou ao curso o desligamento da orientação da mestranda "devido à incompatibilidade do ponto de vista teórico-metodológico com relação à abordagem do tema quando de seu ingresso". A solicitação foi atendida pelo colegiado. 

A Udesc não se manifesta sobre o tema, mas se colocou à disposição da Justiça para prestar informações e esclarecimentos.

Por telefone, Ana Caroline Campagnolo disse ao DC que "a professora ré está tentando transmitir a imagem de que o processo se deve ao conteúdo pragmático da disciplina". Ela reforça que "o processo por danos morais aceito pelo Tribunal, ou seja, considerado procedente, se deve a uma relação pessoal que ela teve comigo. É uma ação por discriminação religiosa e ideológica, atitude que vai contra o artigo constitucional que diz que o profissional e servidor público deveria ter um tratamento impessoal com quem o procura. O fato de ela me humilhar na sala de aula, me perseguir e tentar podar os meus direitos pela minha religião é o equivalente à discriminação por sexo ou raça. Quem está divulgando os nomes das partes do processo é a própria ré. Eu como autora do processo acredito isso que deve ser resolvido na Justiça". 

DC também procurou a professora Marlene de Fáveri para uma entrevista, mas após reunião com sua advogada na tarde desta quarta-feira, ela optou por não se manifestar. Disse que todas as informações estão no processo. 

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