Estudantes de escolas estaduais de Sombrio e Balneário Gaivota completam 45 dias sem aulas por negligência do Estado Felipe Carneiro/Agencia RBS

Maria Luíza Caetano, 14 anos, diz que é desesperador não saber quando e onde voltará a ter aulas

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Há 45 dias Maria Luíza Caetano, 14 anos, tem aprendido a lidar com a ansiedade e a incerteza. Estudante do 9º ano da Escola Estadual Catulo da Paixão Cearense, em Sombrio, no Sul do Estado, ela é um dos 3,5 mil crianças e adolescentes que estão sem aulas desde o mês passado. As sete escolas estaduais de Sombrio e Balneário Gaivota foram interditadas por não terem alvarás dos Bombeiros, sanitário e de funcionamento e apresentarem riscos a quem estuda ou trabalha nelas. A situação chegou a este ponto por problemas inicialmente pequenos, mas que tomaram grande proporção ao serem empurrados com a barriga durante anos. 

As instituições foram fechadas a pedido do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). Falta de extintores, caixa d¿água sem limpeza, instalações elétricas irregulares, iluminação insuficiente nas salas, cozinhas interditadas, entre outros problemas, culminaram na decisão. 

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

De lá para cá, os dias têm se arrastado para a adolescente, que vê a turma se desfazer a cada mensagem de despedida nas redes sociais. Colegas têm ido para a rede privada, para outras cidades e até Estados, em busca de ensino. A jovem não consegue conter as lágrimas ao explicar o desespero de quem almeja conquistar uma vaga no Instituto Federal de Santa Catarina, campus de Santa Rosa do Sul. É para lá que a maioria dos alunos da região vai em busca de um ensino médio mais qualificado.

— Minha turma resolveu ficar junto para estudar e passar de ano. Mas aí não tem nota, nem prova, nem conteúdo. A gente já está quase no mês cinco, no meio do ano e não temos conteúdo para estudar para a prova (para admissão no instituto) — lamenta. A Catulo foi a primeira escola a ser interditada, em 15 de março, e está há mais de dois anos em um prédio alugado. Isso porque a estrutura que pertence ao Estado também foi interditada, no início de 2015, por um problema na cozinha. Ao invés de uma reforma pontual, foi definido que o prédio passaria por revitalização e ampliação, por se tratar de uma construção de 70 anos. Desde então, problemas com licitações atrasaram o início das obras e nesta sexta deve ser publicado um novo edital para a reforma do prédio. 

Para o promotor de justiça do MP de Sombrio, Daniel Granzotto Nunes, a situação das escolas não é nova e carece de solução imediata, para que os alunos não percam o ano.

— Não existem grandes coisas a serem adequadas, são várias pequenas coisinhas que foram deixadas muito tempo omissas. O que acarretou mais a interdição foi a ausência dos sistemas vitais: extintor, placa de saída e iluminação de segurança, coisas bem simples. No caso da vigilância, as questões da cozinha, dedetização e limpeza da caixa d¿água, não ensejariam, a priori, a interdição — explica.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

As licitações para realização das obras foram lançadas na semana passada, e na tarde de ontem, dois serviços já começaram. A conclusão dos demais processos burocráticos está prevista para hoje e incluem obras na rede elétrica e estrutura dos prédios. Seis escolas serão readequadas conforme as exigências do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária e passarão por limpeza de caixa d¿água e dedetização. A única que está fora do pacote é a Catulo, que aguarda definição sobre o futuro dos 326 alunos que ali estudam. Uma reunião nesta sexta irá definir se os estudantes serão realocados ou distribuídos em outras escolas. 

— Dentro da lei, podemos fazer readequações no prédio, mas algumas mudanças são obrigação do proprietário. A interdição é para ele e para o Estado, então precisamos concluir o estudo do local por ser alugado. Estamos trabalhando para não fechar ali — explica o técnico da secretaria de Educação do Estado, José Hipólito da Silva, deslocado de Florianópolis para comandar a força-tarefa em prol da reabertura das escolas.

Para o secretário-executivo da ADR, Heriberto Afonso Schmidt, o problema está próximo de uma solução. Ele disse que, informalmente, as empresas que venceram as licitações se comprometeram a trabalhar também no sábado para conseguir terminar as adequações o quanto antes. Corpo de Bombeiros e Vigilância Sanitária estão de sobreaviso para visitar os locais e emitir os laudos assim que as melhorias terminaram. MP e Judiciário também já se comprometeram, segundo Schmidt, para que a desinterdição ocorra o mais breve possível.

Os primeiros serviços para reformas nas unidades começam a ser executados na manhã desta sexta, e a previsão da Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Araranguá é que algumas escolas possam ser liberadas até a quinta-feira da semana que vem. 

Sem vagas na rede municipal, pais estão inseguros


Para poder tomar conta de Luiza (E) e Karoline, Miria precisou diminuir o ritmo no trabalho Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Enquanto trabalha em casa, a costureira Miria Caçula de Oliveira Borges, 49 anos, divide a atenção entre a filha de seis anos, Luiza Oliveira Borges, e o mais velho de 26, Maurício, que tem autismo. A pequena mal começou as aulas do primeiro ano do ensino fundamental, na escola Governador Irineu Bornhausen, e já precisou parar. A mãe, que organiza a rotina conforme os horários dos filhos na escola, precisou diminuir o ritmo. O trabalho tem sofrido prejuízos com a falta de tempo, costuras estão atrasadas, e a rotina mudou.

— Minha preocupação é com o aprendizado. Esses dias ela disse que queria voltar pra escola antiga, o pré, mas eu disse que não dava — comenta.

Miria procurou vaga na rede municipal, mas as escolas estão lotadas. Segundo a gerente em educação de Sombrio, Grasiela Caetano, são cerca de 2 mil vagas do primeiro ao quinto ano, mas o que restava já foi preenchido. O professor da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) e pós-doutor em Educação, Antonio Serafim Pereira, explica que a preocupação da mãe é legítima, mas que orientar os filhos em casa pode minimizar o prejuízo dos dias afastados da escola.

— Se tiver em casa um ambiente alfabetizador, os próprios pais fazem esse papel. A aprendizagem se dá nas relações sociais, e não somente na escola. O tempo do processo de aprendizagem é importante, mas não é decisivo, pois vai depender da qualidade do uso desse tempo — analisa o professor.

Enquanto as escolas não são liberadas, a apreensão continua. Karoline de Oliveira Borges, 17 anos, é a filha do meio de Miria, e está no terceiro ano do ensino médio. Mobilizada, ela e um grupo de pais, alunos e professores tem buscado solução para o problema. Preocupada com o vestibular no final do ano, ela deve ter prejuízos no conteúdo. 

Leia mais:

MP-SC vistoria escolas municipais e particulares de Sombrio e Balneário Gaivota, no Sul do Estado

Escola de Balneário Camboriú cria desafio Tainha do Amor para estimular a valorização da vida

Três mil alunos do Sul de SC não têm data para voltar às aulas 

 Veja também
 
 Comente essa história