Universidades de SC criam disciplina para suprir déficit no ensino básico da matemática Betina Humeres/DC

Após a implantação da disciplina de proficiência, a média da primeira avaliação de Cálculo I (a primeira da graduação) foi de 3,2 para 7,0

Foto: Betina Humeres / DC

Saber calcular a inclinação de uma reta, o volume de um recipiente ou a área sob uma curva são pré-requisitos a serem cumpridos por aqueles que escolhem uma graduação voltada às ciências exatas. O primeiro contato com esses conhecimentos acontece — ou pelo menos deveria acontecer — ainda no ensino médio, nas aulas de matemática e física, principalmente. Na chegada à universidade, o conteúdo é ampliado. Contudo, na última década, o índice de reprovação já na primeira matéria dessas carreiras tem aumentado exponencialmente na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que agora criam alternativas para minimizar o déficit de aprendizado no ensino básico.

A criação de uma disciplina de base de cálculo foi a solução encontrada por professores da UFSC neste semestre para compensar o problema que vem das escolas. A matéria Pré-cálculo, que já foi adotada por outras instituições estrangeiras e nacionais, como as federais gaúcha e mineira, surge para melhor preparar os alunos à sequência da graduação. Segundo o coordenador de ensino do departamento de Matemática, Giuliano Boava, todos os calouros de 32 cursos que dependem de noções de cálculo passarão por uma proficiência. Quem não estiver apto, passará pela introdução. Atualmente, são 400 alunos matriculados na nova cadeira. 

— Queremos corrigir quatro falhas na formação dos alunos que consideramos fundamentais: falta de conteúdo de base, dificuldade de leitura, interpretação e compreensão de texto, deficiência no desenvolvimento do raciocínio lógico e falta de dedicação, ritmo, responsabilidade e organização com os estudos. São metas ambiciosas, mas estamos confiantes — diz. 

O estudante da primeira fase da Engenharia Mecânica, Jessé Steinert Barbiaro, 18 anos, optou pela matéria de pré-cálculo sem nem mesmo saber se precisava. O calouro enxerga a disciplina como uma oportunidade, principalmente para quem estudou em escola pública. 

— Após ver o conteúdo da matéria, percebi que não havia aprendido muitas coisas da lista. Não me senti capacitado. Além da falta de investimentos nas escolas, infelizmente os professores faltam muito e se desmotivam em razão dos salários e também porque os estudantes não demonstram muito interesse em aprender as disciplinas — analisa. 

Após a implantação da disciplina de proficiência, a média da primeira avaliação de Cálculo I (a primeira da graduação) foi de 3,2 para 7,0, o que demonstra que os professores estão próximos da meta de somente 5% de repetência. Além de diminuir a reprovação e, consequentemente, a possibilidade de evasão universitária, a proposta também dá conta de aprimorar o ensino na etapa anterior, que é a escola, conforme sugere Boava. 

— Fora essa parte pedagógica, queremos aproveitar a disciplina para criar uma proximidade com as instituições de ensino de base. Podemos usar nosso material para orientar o nível de cobrança com os alunos, contribuir com a formação dos professores ou criar projetos de apoio — diz.

Conhecimento em cálculo é utilizado além das ciências exatas

A importância do cálculo ultrapassa a carreira das engenharias, já que a matéria é igualmente obrigatória em outros cursos. Na Univali, a dificuldade é percebida em todas as áreas que demandam esse conhecimento. Apesar de não estarem intimamente ligadas à matemática, as graduações de tecnologia em construção naval e ciências biológicas, por exemplo, contam com disciplinas de introdução à álgebra e geometria logo na primeira fase.

A responsável pelo apoio pedagógico do Centro de Ciências Tecnológicas da Terra e do Mar da Univali, professora Lourdes Furlanetto, explica que além do currículo que resgata a matemática do ensino médio, os universitários podem sanar esse déficit de outras três maneiras. Ela destaca, no entanto, ser necessária a proatividade do universitário.

— Nós recebemos tanto o aluno que teve dificuldade na educação básica, quanto o aluno que parou de estudar há muito, retomou e precisa relembrar. Aí ficam essas lacunas, muito por causa de professor formado na área, já que a licenciatura é cada vez menos atrativa — explica.

Por isso, explica, a universidade realiza nivelamento e revisão de conteúdos básicos no contraturno ou aos sábados e monitoria de três alunos com a supervisão de professores, que é um momento para tirar dúvidas.  

Estratégia semelhante tem a Escola Superior de Administração e Gerência da Udesc, cujos representantes reconhecem heterogeneidade das turmas quanto ao conhecimento da matemática nos últimos anos. Para compensar, estabeleceram a disciplina de nivelamento na matriz curricular associada a 40 horas de monitoria voltada aos calouros.

Desde 2015, o Centro de Ciências Tecnológicas da mesma universidade também tem uma turma de pré-cálculo para fins de nivelamento. Além da disciplina, há um projeto de intervenção para aprimoramento da inteligência. Durante três horas semanais, os alunos participam de experiências de aprendizagem mediada com o objetivo de aparar as arestas deixadas no ensino pregresso.  

Na UFSC, cerca de 40% dos calouros de engenharia rodavam na cadeira de Cálculo I Foto: Betina Humeres / DC

Pesquisas comprovam queda do desempenho dos catarinenses em matemática 

O diretor do Centro Tecnológico da UFSC, Edson de Pieri, conta que historicamente cerca de 40% dos calouros de engenharia rodavam na cadeira de Cálculo I. Mais recentemente, o professor observou o mesmo número chegar a 65% por diversos fatores, segundo ele, como a precarização do ensino básico e fatores associados ao próprio processo de aprendizagem, que acredita ser alterado assim que se chega à universidade.

— Nos últimos tempos, as turmas estão cada vez mais lotadas. É claro que tem mais alunos entrando, mas também significa mais alunos reprovando. O problema todo está na mudança do ensino médio para o ensino universitário. No ensino médio, além da deficiência em matemática e física, o estudo está muito centrado no ensino do professor. Já no superior, está centrado no aprendizado do aluno. Então quando ele começa uma disciplina que exige dele mesmo uma bagagem alta, se perde um pouco — analisa.

A percepção de Pieri é confirmada por pesquisas recentes, que demonstram queda da qualidade do ensino regular no Brasil e em Santa Catarina. O Estado caiu 17 pontos nas últimas avaliações de matemática do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, na sigla em inglês), que baliza a educação mundial. Quando olhado somente o 3º ano do ensino médio, SC também caiu três pontos percentuais na mesma disciplina, conforme os últimos resultados da Prova Brasil e do Sistema de Avaliação da Educação Básica. 

Pesquisador da história da Educação na Udesc, Norberto Dallabrida diz que a criação da disciplina de Pré-cálculo é um "sintoma flagrante da péssima qualidade do ensino médio, um consenso nacional". Para o professor, a realidade está relacionada à desvalorização da carreira do magistério que, segundo ele, tem como salário médio R$ 2.613 — 39% a menos do que os outros profissionais com formação em nível superior, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, do Ministério da Educação, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2010 a 2014. 

— Essa situação contribui decisivamente para gerar o fracasso do ensino médio e a permanência do círculo vicioso marcado pela baixa remuneração do docente da educação básica e pelo esvaziamento das licenciaturas. A saída estrutural é criar uma carreira docente atrativa como política de Estado, que pague ótimos salários aos professores e os avalie de forma planejada e regular. Os países que têm êxito no campo escolar, como a Finlândia e a Coreia no Sul, que têm modelos pedagógicos diferentes, demonstram isso — diz o especialista em ensino médio. 

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