Um terço do lixo destinado à coleta seletiva de SC não é aproveitado por descarte incorreto Cristiano Estrela/Agencia RBS

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Em média, 31% dos resíduos separados para a coleta seletiva nas cidades polo regionais de Santa Catarina acabam nos aterros sanitários. Isso acontece, principalmente, por equívocos cometidos pelas pessoas na hora de separar o lixo. Materiais como guardanapos sujos, roupas e embalagens com restos de comida prejudicam a reciclagem. Em Lages, o índice de material não aproveitado chega a 50%.

Para Paulo Pinho, gerente da coleta seletiva da Companhia de Melhoramentos da Capital (Comcap), muitas pessoas cometem esses erros por falta de informação.

— Existe uma diferença entre reaproveitar e reciclar. Roupas, calçados e bolsas muitas vezes vem parar na coleta seletiva porque a pessoa não quer jogar fora no lixo comum. Mas o ideal é colocar para doação. Como esses materiais não são recicláveis, isso acaba elevando a quantidade de rejeito que vai para o lixão — explica.

Entre os erros mais comuns, estão a destinação de materiais sujos para a coleta seletiva. Uma tonelada de papel reciclado economiza 10 mil litros de água e evita o corte de 17 árvores adultas, segundo informações do Ministério do Meio Ambiente, mas muitas vezes o papel é inutilizado por estar contaminado por gordura, comida ou muito picado.

Pilha de lixo correspondente a três semanas de material descartado de forma errada para a Comcap Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Para destinar embalagens com alimento, como caixas de leite, e garrafas de forma adequada, Pinho recomenda que o morador sempre coloque um terço de água dentro do recipiente e agite, para tirar o excesso de sujeira. Ele explica que, muitas vezes, o lixo pode levar até três meses para ir da casa até a indústria final, assim o resíduos orgânicos apodrecem e atraem animais como ratos e baratas.

Outra orientação, é que o usuário procure minimizar ao máximo o espaço do lixo reciclável, atitudes como amassar latinhas de alumínio, garrafas pet e dobrar caixas de papelão contribui para que menos recursos sejam utilizados com a coleta seletiva, já que os caminhões usados têm menos espaço do que os da coleta convencional e o material não pode ser compactado.

Em Florianópolis, os moradores também têm outras formas de destinar os materiais de forma correta, como os Ecopontos, localizados em quatro bairros da cidade: Itacorubi, Capoeiras, Morro das Pedras e Monte Cristo. Neles, os moradores podem levar, além dos recicláveis, materiais como pilhas, baterias, pneus, eletrodomésticos, eletrônicos e objetos volumosos. Outra opção para os recicláveis são os 66 pontos de entrega voluntária (Pevs), espalhados pela cidade. O endereço e a quantidade de material autorizado podem ser consultados no site da companhia.

Plásticos laminados não são aproveitados pela coleta seletiva de Florianópolis Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Consequências da destinação incorreta

A falta de conscientização para a separação dos resíduos sólidos contribui para que o espaço no aterro sanitário de Biguaçu, para onde vai o lixo dos 22 municípios da Grande Florianópolis, se esgote em menos tempo. A estimativa da Comcap é que isso aconteça em sete anos. 

Se pegar somente o exemplo do vidro, já é possível mensurar o impacto da destinação indevida do lixo. A companhia estima que somente em Florianópolis cerca de 500 toneladas do material sejam descartadas por mês, mas apenas 200 são enviadas para a coleta seletiva. Ou seja, as 300 restantes acabam no aterro de Biguaçu. Em um ano, somente a separação adequada no material na Capital garantiria redução de 3,6 mil toneladas de resíduos no lixão.   

Sara Meireles, engenheira sanitarista e ambiental, ressalta que além do espaço inutilizado nos aterros por conta do tempo que os materiais levam para se decompor, ainda há o problema ecológico gerado pelo descarte inadequado do lixo reciclável:

— Uma única pilha pode contaminar uma grande área de solo, lençol freático e prejudicar animais. Um tinta de um panfleto que não vai para reciclagem pode conter chumbo na composição, o que, junto com outros materiais, ajuda a gerar um tipo de chorume tóxico que também contamina o meio ambiente. Por meio da cadeia alimentar, esses metais pesados podem, inclusive, serem ingeridos pelos seres humanos.

Sara ainda enfatiza:

— O aterro sanitário é uma desculpa que a gente têm para não fazer a coisa certa. Já que, em média, apenas 16% dos resíduos produzidos são rejeito e deveriam ter esse destino, cerca de 52% são orgânicos, que podem ser utilizados para compostagem e produção de húmus - e 32% recicláveis — esclarece a engenheira.

Das 295 cidades de SC, apenas 64 têm algum tipo de coleta seletiva, segundo pesquisa realizada em 2016 pela associação nacional Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), uma entidade sem fins lucrativos dedicada à promoção da reciclagem. Entre as que reciclam, Chapecó se destaca com mais de mil toneladas recolhidas por mês.

Florianópolis teve queda na quantidade de resíduos recicláveis

Florianópolis foi uma das primeiras cidades brasileiras a implantar o sistema de coleta seletiva por meio do Projeto Beija-Flor, em 1986. O recolhimento era realizado com tratores de pequeno porte que coletavam três tipos de resíduos: orgânico, rejeito e reciclável. Um sistema mais eficiente do que usado hoje, segundo Pinho, já que havia distinção entre o que poderia ser aproveitado em composteiras, servindo de adubo, e o que deveria ir para o lixão. Hoje, cerca de 20% do material enviado à coleta seletiva tem que ser descartado por erros na separação. Há 30 anos, essa taxa variava entre 5% e 10%. 

Também chama a atenção a redução na quantidade de lixo enviado para a coleta seletiva, no ano passado, a média era 1,1 mil toneladas por mês, esse número caiu para 800 toneladas, o que, além de ser um indicativo de que menos resíduos têm sido aproveitados, demonstra a redução na matéria-prima que é doada às associações de catadores de materiais recicláveis. No Brasil, cerca de 100 mil pessoas vivem exclusivamente da coleta de latas de alumínio e recebem em média três salários mínimos mensais, segundo a Associação Brasileira do Alumínio.

Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

Na Capital, a maior parte dos resíduos é doada para a Associação de Catadores de Materiais Recicláveis (ACMR), por meio da qual 75 pessoas tiram a fonte de renda. Entre elas, está Fabiana Rodrigues, 21 anos, que faz parte da ACMR há seis. Todas as manhãs, de segunda a sexta, ela sai do bairro Serraria, em São José, e vai até o galpão da associação, no Itacorubi, junto com outros membros da família, que também trabalham no local.

Cada membro da associação têm uma bancada individual e ganha pela quantidade de resíduos que separa _ caso haja rejeito junto com o material reciclável, eles são descontados pelos atravessadores, que levam o material até a indústria final. Fabiana conta que o principal receio dos trabalhadores são os cacos de vidros soltos, que machucam e prejudicam a separação, além disso, é comum encontrar restos de comida nos sacos enviados para a coleta seletiva.


Clique na imagem para ampliar Foto: Arte / DC

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