Tempos sombrios: comentários destilam ódio contra professora agredida      Lucas Correia/Jornal de Santa Catarina

A professora Márcia Friggi, de Indaial, que foi agredida a socos por um aluno de 15 anos

Foto: Lucas Correia / Jornal de Santa Catarina

Há tempos venho me perguntando o que está acontecendo com a humanidade. Que nunca fomos muito solidários e que a maioria está se lixando para o que acontece com os outros à sua volta, não chega a ser uma novidade. "Se eu estou bem, então, está tudo bem" sempre foi o pensamento da maioria, infelizmente. O mundo está cada vez mais individualista, cada um defendendo o seu. Instinto de sobrevivência? Pode ser, entre várias outras explicações. O que me deixa perplexa, entretanto, não é a indiferença para com o próximo, mas sim o ódio que destilamos contra quem nem conhecemos.

A palavra é essa mesmo: ódio. Segundo o dicionário, significa "sentimento de profunda antipatia, desgosto, aversão, raiva, rancor profundo, horror, inimizade ou repulsa contra uma pessoa ou algo, assim como o desejo de evitar, limitar ou destruir o seu objetivo". Perfeita definição para o que lemos diariamente nas redes sociais nos comentários de posts, especialmente aqueles que geram polêmica.

O caso da professora Márcia Friggi, de Indaial, que foi agredida a socos por um aluno de 15 anos, ilustra bem esta questão. Entre milhares de manifestações a respeito do assunto nas redes sociais e sites, boa parte dos comentários destilava ódio contra ela, por conta de suas posições políticas de esquerda. A questão da violência sofrida —física e emocional — e o que ela representa (a rebeldia de um aluno contra um professor) ficaram em segundo plano. Pior ainda, muita gente deu a entender que a violência se justificava. "Bem feito", "Teve o que mereceu", "Está colhendo o que plantou", e frases do tipo significam, nas entrelinhas, que desferir socos no rosto de alguém não é uma atitude condenável, "porque ela merecia".

Foto: Reprodução / Facebook

Que barbárie é essa? Nada justifica a violência. Uma pessoa, entre as que tive o desprazer de ler no Facebook, disse que era "muito mimimi por pouca coisa". Ela provavelmente não entendeu a seriedade do assunto, e de tudo o que está por trás daquele ato em sala de aula. A polarização política no Brasil chegou ao cúmulo, de ambos os lados, de concordar com a violência física — ou até pior, atiçá-la. É esta a noção de sociedade que queremos deixar para nossos filhos e netos? Um lugar onde as pessoas se odeiam porque são ou de direita ou de esquerda, e onde vale tudo (inclusive agredir fisicamente) para impor nossa vontade? É assustador ver o ódio que se destila nas redes sociais, um lugar onde as pessoas realmente mostram o que são e o que pensam, sem máscaras. E incitam a violência, mesmo sabendo que isso só pode trazer infelicidade e dias piores para todos nós.

Foto: Reprodução / Facebook

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