Grupos da Lagoa da Conceição pedem retirada de Armário Coletivo devido à população em situação de rua Betina Humeres/DC

Há onze armários espalhados em Florianópolis, como esse na Vargem Pequena

Foto: Betina Humeres / DC

Presente em sete bairros de Florianópolis, o Armário Coletivo é um espaço de troca onde a comunidade é convidada a deixar alguma peça de roupa, calçado ou acessório que não utiliza mais e pegar outra ali depositada sem a necessidade de cobrir qualquer custo. Baseado no conceito da economia compartilhada, em que o uso de um item é esgotado por mais de uma pessoa, o projeto está presente na Lagoa da Conceição, no Leste da Ilha de Santa Catarina, há cerca dois meses. Apesar de estimular o consumo consciente e, ao mesmo tempo, ter um viés de solidariedade, desde a metade de setembro a localização da estrutura vem sendo questionada por parte dos moradores. Isso porque comerciantes e entidades locais acusam a população em situação de rua de mau uso do guarda-roupa instalado em frente à Praça Pio XII.

Por estar próximo a um ponto de ônibus e, portanto, em um local bastante movimentado, a organização acredita que cerca de 300 pessoas doam ou recebam roupas diariamente. Entre elas, moradores em situação de rua, já que não é preciso deixar uma peça para pegar outra. Nesse contexto, o presidente da Associação dos Moradores da Lagoa da Conceição, Ari Atanásio dos Santos, argumenta que a proposta do Armário Coletivo corrobora para a manutenção da situação de vulnerabilidade dessa população. 

— A intenção é boa, mas não está funcionando, porque mantêm moradores de rua ali. Ninguém frequenta aquele lugar, a não ser morador de rua que usa a beira da lagoa, atrás do restaurante, para fazer de banheiro. É um problema seríssimo, porque eles poluem a lagoa, sujam o ambiente, estão pegando essas roupas, estão trocando de roupa ali mesmo e jogando o resto fora — conta.

Inicialmente, Ari havia sugerido a região do Canto da Lagoa para abrigar o armário, onde "não tem mendigo", segundo o representante. Ele acrescenta, contudo, que a sugestão foi rechaçada pela organização. 

Por meio do Conselho de Desenvolvimento do Leste da Ilha (Codeli), foi solicitada a remoção do Armário Coletivo da região central da Lagoa da Conceição. O conselho estuda, agora, uma nova localidade para o guarda-roupa de rua, mas diz estar tendo dificuldades nessa busca por um novo espaço. Segundo a presidente Eliane Butin, que acredita que a forma com que a estrutura está sendo utilizada não traz benefícios, a população em situação de rua na região está crescendo e só irá diminuir se houver ações concretas e planejadas, como a que está articulando com o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC). 

— Estamos tentando fazer todo um processo, de acordo com o próprio promotor Daniel Paladino, que fala que dignidade é tirar esse pessoal da rua e dar uma qualidade de vida. Essa qualidade de vida passa por vários processos: identificar o morador, dar a ele condições de se recuperar, ou seja, com tratamento, se é um caso de saúde pública. Uma das bases, para que a gente não mantenha ele ali, é não dar esmola de nenhuma maneira, e sim trazer para ele o entendimento de que a gente pode ajudá-lo da melhor maneira possível — pontua. 

O assunto será debatido nesta terça-feira, 26, às 18h em frente ao armário e, na sequência, em uma reunião da entidade, que acontece na sede da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif) no bairro às 19h30min. 

Pessoas em situação de rua e organização do Armário Coletivo contestam

O impasse com o Armário Coletivo na Lagoa da Conceição foi publicado em uma postagem nas redes sociais, que já tem dezenas de compartilhamentos. Em um dos comentários, José Fernandes escreveu: "Me ajudou muito esse armário. Já estive em situação de rua. Muito obrigado e Deus abençoe. Espero que continue na Lagoa". 

Movida por esse tipo de depoimento, que demonstra o papel social da iniciativa, é que a responsável pelo Armário Coletivo, Carina Zagonel, diz estar disposta a brigar pela causa. Antes de implantar o guarda-roupa, ela conta que conversou com representantes da comunidade e propôs uma renovação daquele espaço, que sabia ser povoado por moradores em situação de rua. 

— Com a nossa ideia, a gente propôs uma mudança de ambiente ali, incluindo eles. A chegada do armário, a limpeza da praça, a customização do banco da praça, as plaquinhas. E a gente conversou muito com eles ali. Esse armário está ali não faz dois meses. Sempre foi o armário mais organizado. Porque a gente simplesmente disse para eles: esse armário é para todo mundo e é para vocês também. E eles disseram que não precisavam de nada, porque nem têm onde guardar, mas disseram que gostavam de livros. Então, disseram que leriam e deixariam ali — detalha. 

A respeito das situações relatadas pelos comerciantes, Carina diz estar ciente, mas reforça que são momentos pontuais e, portanto, não acontecem todos os dias. 

— O que acontece é que são pessoas vulneráveis, que têm acesso a drogas e também a álcool, porque os comerciantes não deixam de vender bebida, né? Às vezes, eles estão fora de si. Vão ali e trocam de roupa na frente do armário, usaram algumas roupas para fazer tipo um colchãozinho para dormir, usaram para se limpar. É um assunto muito complexo para a gente que nunca viveu isso, por mais que haja empatia.

Carina ainda rejeita a postura que chama de intransigente por parte do empresariado local. Para ela, as pessoas que querem a mudança de local do Armário Coletivo rejeitam até mesmo a ideia de conversar com a população em situação de rua. 

— Podemos testar em vários lugares, porque os armários são móveis. Se precisar migrar, nós vamos migrar. Mas, para isso, precisamos conversar. Não são 20 pessoas que vão mandar numa comunidade — finaliza. 

Tanto Carina quanto Soraya Camargo, moradora do bairro Rio Tavares, onde o Armário Coletivo também está presente, acreditam que a iniciativa exige um tempo de adaptação. Superados os primeiros meses, elas dizem que os resultados possíveis por meio do compartilhamento podem ser bastante positivos à comunidade. 

— O Armário Coletivo no Rio Tavares teve problema parecido, com alguns usuários de drogas da região. Cogitamos até em mudá-lo de local. Mas preferimos acreditar que era problema momentâneo... e foi. Armário continua no mesmo local, e todos usufruindo, sem censura, fazendo seu lindo trabalho de compartilhamento.  

O que diz a prefeitura

Procurada, a Secretaria Municipal de Assistência Social informou que desconhecia o imbróglio envolvendo comunidade, população em situação de rua e Armário Coletivo na Lagoa, mas que vê de forma positiva a iniciativa.

— Acreditamos nos conceitos desenvolvidos na sociedade por meio do projeto social Armário Coletivo. A iniciativa tem cunho solidário e sustentável bem importantes no cenário em que vivemos. Lamentamos que as pessoas em situação de rua estejam usando de maneira inadequada o espaço. Realizamos abordagens sociais no local no intuito de resolver essa problemática — pontuou a secretária Katherine Schreiner.

Sobre a situação de vulnerabilidade social das pessoas que estão desabrigadas, informa ter fortalecido o programa de atenção na região. 

— Intensificamos as abordagens sociais nos diversos bairros de Florianópolis. A ação conscientiza as pessoas sobre a situação em que estão vivendo e identifica o motivo que as levaram estar nesses locais. Desta forma, caso ela aceite ajuda, fazemos os devidos encaminhamos como tratamento de problemas químicos, passagens gratuitas para a cidade natal etc — continua.  

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