Foto: Divulgação

Eu vivia implicando com meu filho, quando ele era adolescente, porque o guri estudava ou lia sempre com a TV ou o som ligado, fazendo várias coisas ao mesmo tempo. Eu achava que era impossível alguém se concentrar fazendo duas ou três coisas simultaneamente. Ele tentava me explicar que só conseguia estudar assim, era o seu método de presta atenção sem ficar entediado ou com sono e abandonar os estudos. O tempo passou, ele está fazendo doutorado e continua igual: enquanto estuda ou escreve, ouve música no celular, assiste TV, de vez em quando fala no WhatsAPP e ainda dá umas paradinhas para tocar um pouco de violão. Tudo junto e misturado. Como que consegue, não sei. Eu tenho facilidade de concentração mesmo em lugares barulhentos _ quem trabalhou a vida inteira numa redação de jornal precisa aprender a fazer isso _ mas prestar atenção em duas coisas ao mesmo tempo não dá. Aí, não faço nada direito.

A multifuncionalidade dos jovens é um assunto que vem sendo muito falado nos dias de hoje. A maioria deles realiza mais de uma tarefa simultaneamente, mas quanto de atenção eles realmente dispensam a cada uma delas? Essa é o problema. Os aparelhos eletrônicos são, em geral, considerados distração para os adolescentes, tanto na questão educacional quanto nas relações sociais cotidianas. Tem se discutido muito a presença dos celulares na sala de aula, por exemplo. Eu defendo que, se o celular não estiver sendo usado para alguma atividade educativa, ele deve ficar desligado na aula, porque com certeza a conversa com os amigos ou um jogo  vai se tornar, para alguns estudantes, muito mais atrativo do que o professor  explicando a matéria lá na frente da classe. 

A psicopedagoga Quezia Bombonatto, presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia, diz que somente uma minoria das pessoas possui a capacidade de realizar, de forma eficiente, várias tarefas ao mesmo tempo. Isso significa que aqueles que costumam fazer várias coisas simultaneamente não as desenvolvem de forma eficaz e com qualidade, tendo prejuízo na produção, por perder o foco na tarefa principal. E não é somente a rapidez na execução das tarefas que fica comprometida, mas principalmente o grau de entendimento. A informação fica dispersa e o conhecimento difícil de reter; a educação torna-se superficial. 

Com as crianças, dizem os especialistas, o melhor a fazer é ensiná-las desde cedo a ter um horário específico para realizar os deveres de casa, sem outras distrações. Escutar música enquanto estuda não chega a ser um problema, muita gente faz isso de forma eficaz. Mas competir com a televisão ou com o celular já é bem mais complicado. Na adolescência fica mais difícil controlar os filhos, até porque não passamos o dia perto deles. Então, se criarmos desde o início o hábito de oferecer às crianças um ambiente tranquilo para estudar, é bem mais provável que elas sigam assim o resto da vida. 



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