O tema diversidade de gênero, escolhido por uma turma do segundo ano do ensino médio da Escola Estadual Dite Freitas, de Tubarão, no Sul do Estado, para a mostra de trabalhos chamada Cidadania, Ética e Ciência, foi alvo de polêmica. Os estudantes abordaram o assunto e ao final da apresentação, o assessor da mesa diretora da Câmara de Vereadores da cidade, Diego Goulart, 30 anos, que disse estar no evento como "pai, aluno e cidadão" questionou a temática, que estaria em desacordo com as regras do município. O Plano Municipal de Educação, lei 4.268/2015, prevê que "materiais de ensino que incluam a ideologia de gênero, o termo gênero ou orientação sexual ou sinônimos" não podem ser discutidos em sala de aula.  

A apresentação ocorreu na última terça-feira. Após fazer os questionamentos sobre os motivos do assunto, proibido por lei municipal, estar sendo abordado na escola, Goulart disse que começou uma aglomeração de pessoas, até que a discussão de tornou acalorada. Não houve ameaça de agressão por nenhuma das partes, explica ele, mas por se sentir intimidado ele resolveu deixar o local.

— Eu não tenho nada contra, tenho amigos e parentes que são homossexuais, respeito e amo eles. Agora, eu dei essa opinião dentro da sala pois não entendo que seja assunto a ser tratado, é parte da educação moral e são os pais quem têm que falar sobre isso — explicou Goulart.

A representante do Coletivo Pró-Educação de Tubarão, Andreia Daltoé, disse que a cidade é uma das sete do país que têm lei municipal que proíbe a discussão de gênero na escola. Este ano, a Procuradoria-Geral da República entrou com uma ação para rever esses casos, e a análise sobre a cidade catarinense está nas mãos da ministra do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral, Rosa Weber. Para Andreia, é irresponsabilidade não discutir gênero no quinto país do mundo que mais mata mulheres.

— Essa discussão é urgente. A questão de gênero envolve não somente a homossexualidade, que é o grande medo, mas não discutir gênero é não discutir  violência contra a mulher, abuso sexual, onde 80% dos casos começam dentro de casa. O Brasil está em ranking muito grave, além do que mata de homossexuais todos os anos. Se a escola não promover um debate sobre as diferenças, qual o ambiente que fará essa discussão? — questiona.

A diretora de Gestão da Rede Estadual, Marilene Pacheco, esclareceu que as escolas estaduais não precisam seguir os planos municipais de ensino. Na proposta curricular da Secretaria de Estado da Educação, existe a discussão de gênero, portanto as escolas estão aptas a trabalhar este assunto.

Em nota, escola comenta ocorrido

Depois da discussão ganhar visibilidade nas redes sociais, a direção  da escola emitiu uma nota, através da Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Tubarão. No texto, a diretora Rosália de Souza explica que o trabalho dos alunos, com idades entre 15 e 16 anos, tinha como objetivo "esclarecer as pessoas sobre os sujeitos LGBT e incentivar o respeito à diversidade sexual, um dos princípios da Proposta Curricular de Santa Catarina, sob o slogan Somos Todos Iguais".

Ela reforçou que, ao final da apresentação, as alunas enfatizaram aos presentes que eles "não precisavam gostar ou concordar com o que estava sendo apresentado, mas que era fundamental respeitar a todos em sua diversidade". No trabalho, os alunos apresentaram material sobre a cantora e drag queen Pablo Vittar, e sobre a personagem Ivana, da novela A Força do Querer, que é transgênero.

Segundo a nota, Goulart teria se manifestado de maneira alterada e por vezes agressiva, intimidando e gerando temor aos alunos, e isso iniciou o desentendimento. A diretora reforça que foram convidados somente alunos a partir do nono ano para visitar a mostra, que tinha 22 trabalhos sobre diferentes temas.

Assessor diz que vai processar o Estado

Depois do acontecimento na escola, Diego Goulart disse que uma imagem dele, retirada do circuito interno de vídeo da escola, começou a circular nas redes sociais. O texto identifica o assessor e diz que ele depreciou o trabalho, constrangeu e humilhou alunos e professores, defendendo publicamente a violência contra a mulher. Goulart disse que a publicação expôs ele e a família, e que vai processar o Estado.

— Isso me indignou. Como uma escola cede a minha imagem? Alguém liberou essa imagem, aluno não tem poder de invadir e pegar, agora vou até o fim. Estou processando a escola, fui caluniado, difamado, recebi algumas ameaças nas redes sociais, eu e minha família estamos passando constrangimento só por que eu dei a minha opinião? — questionou.

A direção da escola não quer comentar o assunto além do que foi explicado por nota, mas disse que vai investigar como a imagem do circuito interno saiu da escola. Somente pessoas autorizadas têm acesso à rede de câmeras, com o uso de senha. A assessoria da Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Tubarão informou que, no primeiro momento, a escola e ADR estão preocupados com a segurança e bem-estar dos alunos, pelo constrangimento e mal-estar causado pelo cidadão, mas que a direção da escola está atenta e vai investigar para saber como a imagem vazou.

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