Evento em Florianópolis aborda o ayurveda, sistema tradicional de saúde da Índia, que ganha espaço em Santa Catarina Marco Favero/Diário Catarinense

A terapia Hridi Basti, por meio da aplicação de manteiga purificada ou óleos, ajuda a aliviar processos emocionais de angústias, apegos e perdas

Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

A profissional de tecnologia da informação Anna Carolina Possebon, 37 anos, vivia uma rotina desgastante e de muitas cobranças. Até que assistiu a uma palestra sobre ayurveda, sistema de saúde milenar da Índia, e percebeu a importância de dar uma parada no ritmo frenético, olhar para si e finalmente relaxar. A partir daí começou o tratamento com uma terapeuta e, depois de um ano, mudou o estilo de vida. As alterações passaram por alguns hábitos simples, como consumir menos café e carne, aplicar óleo nos pés e mãos, diariamente praticar ioga e priorizar o autocuidado:

O sistema de saúde mais antigo do mundo ainda em uso será o tema do Encontro Latino Americano de Ayurveda em Florianópolis, que começa hoje e vai até domingo. Margarete Mota, terapeuta ayurveda, naturóloga e uma das idealizadoras do evento, explica que um dos princípios desta ciência está na prevenção, focada principalmente em três pilares: a alimentação, com destaque para produtos frescos da estação do ano, e especiarias; o sono, dormir o suficiente para que os reparos do corpo físico aconteçam; e atividade física:

— Prevenir o adoecimento é muito mais inteligente, faz muito mais lógica, do que ficar doente e correr atrás do prejuízo. É um sistema de cuidados muito barato, porque usa recursos da natureza, basicamente plantas, como óleos vegetais, seja em comprimidos, pó ou aplicação no corpo.

Além da prevenção, a ciência engloba a cura para doenças. Mas não espere encontrar tal medicamento para diabetes ou hipertensão, por exemplo, porque a filosofia indiana enxerga cada paciente como ser único.

— O ayurveda nunca vai tratar a doença, os sintomas, sempre vai tratar a pessoa que está doente. O que aquela pessoa com diabetes precisa? Aí vão ver o que muda na alimentação dela, quais tipos de atividade física, como está o sono e a digestão, que é importantíssima. Porque quando a pessoa não digere o que consome, gera toxinas. E esse acúmulo de toxinas pode desenvolver doenças — explica.

A terapeuta ayurvédica Juliana Pereira de Souza, que atua em Florianópolis, reforça que não precisa estar doente para buscar a mudança de hábitos e equilibrar pequenas desarmonias, que podem levar a doenças mais tarde. Para isso, é fundamental um diagnóstico completo, que leva os planos social, físico, mental e emocional que estão interligados. 

Nessa análise são verificados todos os aspectos do ser humano, desde fluxo de pensamentos, temperatura corporal, que tipo de alimentos consome mais, condição da pele e urina. Aí são indicados ajustes na nutrição, horários e posição de sono, por exemplo, além de uso de óleos ou outras terapias. Ela cita que algumas mudanças simples podem resolver questões como cansaço extremo, constipação e enxaqueca:

— O objetivo é manter a pessoa bem, com equilíbrio dinâmico, além de dar ferramentas de autocura, ensinar a se observar e eliminar alguns hábitos. 

A beleza do ayurveda é esta: ela é possível para qualquer pessoa, leva em conta recursos naturais e a observação integral das pessoas. 

Prática começa a despontar no SUS

Uma portaria do Ministério da Saúde, publicada em março, acrescenta 14 novas terapias alternativas, incluindo o ayurveda, na Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares. Essas terapias podem ser oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mas dependem da decisão dos municípios. A medicina ayurvédica ainda é incipiente nos postos de saúde em Santa Catarina, mas algumas iniciativas começam a despontar.

O médico da família Marcos Edelweiss, que atua no Centro de Saúde da Armação, em Florianópolis, conta que começou a estudar a ciência em 2001 e chegou a fazer estágios na Índia. Não chegou a se formar na área, mas incorporou algumas orientações valiosas no consultório, como consumir determinados tipos de alimentos e orientações de estilo de vida, como acordar cedo.

Ele também usa recursos como massagens com óleos no consultório, mas procedimentos complexos, como sudação (terapia do suor que ajuda a regular temperatura e resíduos) ainda são inviáveis diante da falta de estrutura e elevado fluxo de pacientes.

— São muitas potencialidades que podem ser incorporadas ao cuidados em saúde no SUS — sugere.

A geriatra Rosana Takako, com formação em ayurveda, explica que a prática ganhou força no Brasil nos últimos anos. A especialista acredita que esse conhecimento deve se disseminar ainda mais daqui para frente:

— Os pacientes estão procurando, eles não querem mais só o tratamento dos sintomas, mas como um todo, de forma integral. 

E esse é o caminho da medicina. A tendência é de crescimento e vai abrir possibilidades para as pessoas aprenderem a se cuidar. Ela enfatiza que é um sistema barato e que pode ser "uma luz" na saúde pública brasileira. Mas para isso ainda precisa ultrapassar alguns obstáculos. O principal é a profissionalização. Ela defende, por exemplo, que deveriam ser contratados terapeutas ayurvedas para atuar em unidades de saúde:

— Esse profissional atuaria principalmente em níveis preventivos, para complementar o que já temos na medicina. Se precisa de antibiótico ou cirurgia, tudo bem, mas o ayurveda vem antes disso. Economizaria muito na saúde.

Por dentro da  ciência

Ayurveda é uma filosofia médica oriental desenvolvida há 6 mil anos na Índia. A palavra vem do sânscrito e significa ciência da vida. São dois objetivos principais: preservar e promover a saúde das pessoas saudáveis e curar doenças. O sistema acredita que tudo no universo, inclusive o corpo, é composto pelos cinco elementos: espaço, ar, fogo, água e terra. Por meio de diversas técnicas, o objetivo é harmonizar os elementos para manutenção do bem-estar e rejuvenescimento.

As ferramentas terapêuticas são medicamentos naturais a partir de diagnóstico integral. Após diagnóstico, pode utilizar diversos métodos naturais: oleação, massagens, medicamentos ayurvédicos, incluindo as plantas medicinais, dieta com alimentos da região e estação do ano, desintoxicação, atividade física moderada, rotina diária saudável com ioga e meditação.

Fonte: Associação Brasileira de Ayurveda 

SERVIÇO

Encontro Latino Americano de Ayurveda
Data: 6, 7 e 8 de outubro
Local: Sesc Cacupé
Inscrições: podem ser feitas no local
Valor: R$ 350
Informações: www.elaayurveda.com.br

Foto: Arte / Diário Catarinense


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