Com a morte do reitor afastado Luiz Carlos Cancellier de Olivo  e diante do cenário preocupante em Santa Catarina - que tem uma das maiores taxas de suicídio do país - especialistas reforçam a importância de ficar atento a alguns sinais de alerta que podem auxiliar na prevenção. Cerca de 90% dos casos estão relacionados a algum transtorno mental e,  com diagnóstico e tratamento adequados, podem ser evitados. 

A psiquiatra Deisy Mendes Porto, coordenadora estadual de Saúde Mental da Secretaria de Saúde de Santa Catarina, explica que familiares e amigos podem ficar atentos a alguns sinais de alerta, como mudanças de comportamento, isolamento e até frases mais objetivas verbalizando que a vida não faz mais sentido ou planos de suicídio. A pessoa também pode começar a resolver questões práticas, como testamento e acerto de pendências, após período de angústia. Vale então conversar sobre o assunto, perguntar como a pessoa está se sentindo sem julgamentos e oferecer-se para auxiliar a procurar ajuda.

Porém em alguns casos não há planejamento com tantos sinais e o ato é impulsivo, por isso é importante pensar em outras formas de prevenção - desde o treinamento de pessoas que trabalham em locais com conhecidas tentativas até o planejamento de construções mais seguras. 

— A atitude pode ser mais impulsiva, sem ser planejada. A pessoa pode estar sofrendo estresse muito grande, que para pessoa parece não ter solução. Ela sente-se desesperada e desamparada. Então nem todos os casos têm sinais evidentes, mas são fatores de risco que devemos atentar: perdas recentes, como de familiares ou emprego, situação traumáticas, ter doença ou dor crônica, viver sozinho.  

Nestes casos, o estresse pode contribuir para atos suicidas. Ela cita como exemplo casos de exposição pública ou moral, como quando imagens de pessoas em situações íntimas são expostas na internet: 

— Esses casos podem desencadear transtorno depressivo ou de ansiedade agudos.. 

O vice-coordenador nacional da Campanha Setembro Amarelo (de prevenção ao suicídio) da Associação Brasileira de Psiquiatria, Alexandre Paim, reforça que eventos estressantes fazem parte dos vários fatores de risco conhecidos para casos em que a pessoa atenta contra a própria vida. Porém, destaca que esses fatores podem incluir aspectos sociais, ambientais e individuais. Dentre os principais, estão os transtornos psiquiátricos, como depressão e histórico de tentativa prévia de suicídio. Por isso, a prevenção é abrangente:

Inclui, por exemplo, a identificação e tratamento dos transtornos psiquiátricos e evitar o isolamento social. A mídia tem um papel fundamental na prevenção, por meio da disseminação de informações relacionadas aos principais sinais de alerta, fatores de risco e de proteção  — destaca. 

A presidente da Associação Catarinense de Psiquiatria, Lilian Schwanz Lucas, reforça que a maioria dos casos está relacionada a transtornos mentais, principalmente depressão:

— Em pelo menos 70% dos casos têm um quadro depressivo por trás. 

Casos em Santa Catarina

Um relatório do Ministério da Saúde divulgado em setembro apontou que as maiores taxas de suicídio estão concentradas na região Sul. Entre 2011 e 2015, os maiores índices foram registrados nos Estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul que apresentaram, respectivamente, 10,3, 8,8 e 8,5 mortes por 100 mil habitantes. 

 Segundo dados divulgados pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive-SC), em 2016, 2.990 catarinenses tentaram o suicídio e 603 foram a óbito. Em 2015, foram registradas 2.909 tentativas de suicídio e 598 mortes.  Deisy considera esses índices preocupantes: 

— A gente tem que rever o alcance da nossa rede de atenção em saúde para facilitar que as pessoas que precisam tenham acesso ao tratamento. Isso é uma forma de intervenção que vai diminuir esses números. 

A psiquiatra diz que o trabalho de conscientização e redução do estigma em relação às doenças mentais também é importante neste processo. 

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