"Não acho que o fotojornalismo esteja morto", diz finalista do World Press Photo RONALDO SCHEMIDT/AFP

Foto: RONALDO SCHEMIDT / AFP

Um dos concursos de fotografia mais importantes do mundo, o World Press Photo, divulgou nesta quarta-feira, dia 14, os finalistas da competição deste ano. Dentre os seis fotógrafos que concorrem ao prêmio de foto do ano, o único latino americano é o venezuelano Ronaldo Schemidt. Apesar de trabalhar na sucursal da Agence France Press (AFP) no México desde 2006, o profissional nasceu na Venezuela e concorre com uma foto de um manifestantes com o corpo incendiado durante as manifestações contra o presidente Nicolás Maduro, em Caracas.

Confira a entrevista do Diário Catarinense com o fotógrafo finalista:

Como foi a decisão de te enviarem à Caracas para cobrir as manifestações? Durante quanto tempo você ficou lá?
Me mandam a Caracas porque sou venezuelano e para mim é mais fácil entrar no país e, claro, o conheço bem. Fui muitas vezes, ano passado estive quase dois meses trabalhando na cidade.

Como foi o dia em que você tirou a foto finalista?
Foi um dia de muitos enfrentamentos, manifestações fortes e violentas e que duraram muitas horas. Já de tarde as coisas ficaram pior e os manifestantes conseguiram pegar uma moto da Guarda Nacional. A moto se incendiou por um molotov e depois alguém o golpeou, produzindo a explosão que queimou o manifestante. Isso aconteceu justamente atrás de mim, peguei a minha câmera, me virei e comecei a disparar sem saber o que acontecia. Ao final me dei conta que havia uma pessoa queimada.

Uma vez que o campo de batalha era muito grande, como você escolheu o lugar onde ficar e fotografar?
Sempre escolho estar onde estão acontecendo as coisas, no lugar da ação. Busco um ponto de saída para qualquer emergência e me ponho a trabalhar.

 CARACAS, VENEZUELA - 06/05/2017Ronaldo Shemidt, fotógrafo finalista do WordPress Photo 2018Indexador: Cristian Hernandez
Fotógrafo Foto: Cristian Hernandez / Divulgação

Que riscos você correu naquele momento?
Tinha risco de me incendiar, de tomar um tiro ou ser atropelado por um veículo blindado da Guarda Nacional

Já sentiu medo enquanto trabalha? Por quê?
Não senti medo, as coisas foram tão rápidas que não deu nem tempo de me dar conta do perigo.

Qual foi a repercussão quando você enviou a foto?
A foto foi muito publicada, e muito rapidamente. Meus companheiros, assim como eu, estavam impressionados.

Como foi o processo se inscrever na competição com uma só fotografia? Você e seu colega de trabalho, Juan Barretto, correspondente da AFP em Caracas (que também é finalista), tiveram algum tipo de conversa sobre isso?
Ao ver a foto feita eu saiba que a usaria para estes concursos, porém a decisão foi tomada com várias pessoas. Meus chefes na agência e outros companheiros fotógrafos. Juan e eu sabíamos desde o princípio que eram fotos importantes.

Qual é a importância de ter uma fotografia finalista em uma competição como a da World Press Photo?
Sempre é importante porque é um reconhecimento ao trabalho. Foram muitos dias lá, e este é o resultado.

Para você, qual é a importância de ter um repórter de imagens em situações como essa em Caracas?
Serve para que o mundo se interesse pelo que está acontecendo. Para que a situação não passe despercebida e talvez possa trazer alguma mudança.

E o que você pensa quando te dizem que o fotojornalismo morreu? Como você vê a crise do jornalismo em geral?
Eu não creio que o fotojornalismo esteja morto, talvez evoluindo, porém não morrendo. Há uma crise de credibilidade, isso afeta a todos que fazem jornalismo de uma ou outra maneira. Eu acho que o jornalismo será mais orientado para a pesquisa, questões mais profundas.

Tem alguma foto que sonha em fazer e ainda não a fez? Qual?
Suponho que venham muitas fotos pela frente, porém não sei o que me espera no futuro. O que tenho claro é que gosto muito de fotografia de natureza. Isso poderia ser algo que me falta, dedicar mais tempo a isso.

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