"Parto não é um procedimento, é uma experiência profunda da alma", defende parteira contemporânea Felipe Carneiro/Diário Catarinense

Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Desde pequena, Mayra Calvette adorava ouvir as histórias sobre seu nascimento. Ela veio ao mundo em um parto domiciliar planejado, em Gravatal, Sul do Estado, pois os pais dela queriam escapar da violência de métodos usados em alguns hospitais. O interesse de Mayra se transformou em profissão: enfermeira obstetra, já assistiu a cerca de 700 partos ao longo de 12 anos de atuação e é uma das defensoras do parto humanizado em SC. 

A parteira contemporânea auxiliou no nascimento dos dois filhos da modelo Gisele Bündchen e pesquisou sobre parto em outros países e culturas – que virou inclusive um programa televisivo, o Parto pelo Mundo. Para ela, parto humanizado é aquele que respeita a natureza, a individualidade, o protagonismo e as necessidades da mulher e o recém-nascido, com assistência amorosa e segura. A enfermeira obstetra acompanha em média cinco nascimentos por mês, mas não tem dúvidas ao dizer qual foi o mais especial: o de sua filha, Ayla, há quatro anos, em sua casa no Rio Tavares, na Capital. 

Em sua trajetória, Mayra já percebe mudanças na assistência ao parto, mas ainda vê muitos desafios pela frente, o principal deles é a naturalização da cesárea e das intervenções.

Como começou o seu envolvimento nesta área?
Quando criança eu adorava olhar as fotos do dia que vim ao mundo. Minha mãe é superdefensora do parto humanizado, que respeita a natureza, a fisiologia, a mulher e o recém-nascido. Então, ela contava a história do meu nascimento e eu amava escutar. Desde criança tinha vontade de ver um parto, tinha muita curiosidade. Na época de escolher um curso na faculdade, eu só sabia que queria ajudar bebês a nascerem de forma natural, então fiz enfermagem para ir para área de obstetrícia. Em 2006, comecei a acompanhar partos e fiz estágios em hospitais. Eu via essa realidade, essa falta de apoio, de autonomia da mulher para decidir a posição que ficará, e muita intervenção, com o uso de medicamento como a ocitocina, episiotomia e separação mãe-bebê. Essa violência me chocou muito. 

A visão negativa do parto tem muito a ver com a falta de apoio, de carinho, violências naturalizadas que traumatizam a mulher e o bebê. Imagina estar passando pelo momento mais importante da sua vida sozinha, apavorada, sem saber o que está acontecendo. Era e ainda é uma violência muito naturalizada, tanto para profissionais como para mulheres. Elas já chegavam e ficavam deitadas, achando que não podiam gritar, porque podia ser pior.
Então, no hospital, comecei a fazer com alguns colegas um trabalho lindo de apoio, cuidado e que transformava a experiência de forma muito positiva, e senti mais forte ainda que esse era o meu caminho. Comecei a acompanhar pré-natal, grupos de gestantes, partos no hospital e em casa, pós- parto, amamentação. E sigo aprendendo sempre, e me aprofundado cada vez mais.

A assistência ao parto mudou desde que você começou a atuar?
Sim, a gente vê que já mudou bastante de 2006 para cá até pela quantidade de profissionais existentes, como doulas e parteiras. Todo mundo pelo menos já sabe ou já ouviu falar do parto humanizado, então não tem mais como fugir, como fechar os olhos.
Tem uma pressão social para haver uma mudança. A mulher que quer já sabe dos seus direitos, ela pode buscar hospitais públicos que seguem mais essa linha, uma doula ou profissionais que proporcionem uma experiência positiva. Estão cada vez mais disseminada a informação e as possibilidades. A gente ainda precisa avançar muito, e devagar os caminhos estão se abrindo, precisamos, por exemplo, de um centro de parto normal em Florianópolis. 

Veja o trabalho da parteira Mayra Calvette

Com o projeto Parto pelo Mundo, você visitou 25 países entre 2011 e 2012. Como avalia a situação do país em relação ao parto?
O Brasil segue muito o modelo tecnocrático, americano, um modelo onde o corpo é visto como uma máquina que precisa de muitos reparos. O parto como um procedimento, que precisa que alguém faça e esteja no controle, com muitas intervenções e baseado no profissional médico. Isso é diferente nos países europeus em geral. 

O que é gritante na nossa realidade é o número de cesarianas, que passa de 50%. Existe uma naturalização dessa cirurgia. Pelo medo, falta informação, pela cultura que estamos inseridos, as mulheres acabam optando ou sendo induzidas para fazer uma cesárea, por mais que no começo da gestação a maioria das mulheres tenha escolhido o parto normal. Tem dois lados, tanto de praticidade para o profissional, e as mulheres estarem buscando algo que se encaixa muito na vida que vivemos hoje. Com a cirurgia é possível planejar, saber o dia, e dá uma falsa sensação de controle e segurança, pois os riscos são maiores para mãe e bebê e ela deveria ser realizada com uma indicação real. O parto é ainda um tabu, é muito desconhecido, tem que confiar na sua natureza, no seu corpo e se entregar para o dia que for e quanto durar. E na sociedade em que vivemos, é um desafio sair do controle e se entregar a um processo involuntário, natural da vida, e viver essa experiência de tanta intensidade e transformação. 

A dor existe, mas a dor não é sofrimento. Eu digo que é a melhor dor do mundo, a dor de dar à luz, de se abrir para amar e ser amada visceralmente e verdadeiramente. Uma grande oportunidade e presente que nós, mulheres, temos na vida! Eu brinco que eu gostaria de parir várias vezes para experienciar essa transformação profunda. Na Europa tem uma profissional que corresponde às enfermeiras obstetras ou obstetrizes. Lá a gravidez não é vista como uma doença. A gestante vai no médico obstetra quando existe necessidade ou alguma doença associada. A própria princesa Kate pariu com, as midwives e depois de algumas horas já estava indo para casa. Então precisamos cada vez mais trabalhar juntos aqui no Brasil, esse é o caminho.

Como reverter esse cenário de tantas cesáreas?
Existe essa cultura de cesáreas, dos profissionais, das mulheres e da sociedade. Os profissionais que está à frente são os médicos, e existem poucas enfermeiras obstetras atuando. E todos profissionais precisam trabalhar juntos, todos são muito importantes para mudar essa realidade, porque o nosso corpo foi feito para parir dessa forma. A gente não faz uma cirurgia sem uma real necessidade. Em termos de saúde pública, a cesariana tem mais riscos que o parto normal. Mas esse parto normal nem sempre é o natural também, porque o parto normal às vezes é cheio de intervenções, que também apresentam mais risco. A cesariana salva vidas, mas se for necessária. Essa mudança de paradigmas é obrigatória.
O ideal seria a presença de enfermeiras obstetras, assistindo partos, médicos atuando em uma parceria construtiva, doulas e acompanhantes. 

E as mulheres precisam reivindicar por seus direitos, estando cada vez mais informadas e empoderadas. Seria perfeito se todos os ambientes fossem seguros e confortáveis para fazer essa abertura tão grande que é parir. Ter casas de parto é superimportante para ter mais opções para as mulheres, que são ambientes mais aconchegantes, onde atuam enfermeiras obstetras, com hospitais de referência. Não tem um protocolo fechado para parto humanizado, porque só na hora que a mulher vai saber o que ela vai querer, precisar. O profissional tem que ter humildade de saber que naquele momento a deusa é a mulher. 

O que seria essencial para um parto considerado ideal?
Ter um pré-natal de qualidade, com profissional que possa informar e acolher. Poder participar de grupo de gestante e escolher onde ela quer parir. Conhecer esse lugar que ela vai parir. O Ministério da Saúde preconiza isso, mas a gente sabe que nem sempre é uma realidade. Enfim, ser acolhida em suas necessidades. E nos hospitais, os profissionais estarem treinados e preparados para agir dessa forma. 

O parto não é um procedimento, é uma experiência profunda da alma. É um momento de muita vulnerabilidade, a necessidade básica da mulher é se sentir segura, não observada ou pressionada. Ser acolhida em suas necessidades. 

 Mayra Calvette, parteira contemporârea e enfermeira obstetra.
Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

Como é o trabalho de uma parteira contemporânea?
As parteiras contemporâneas prezam pelo conhecimento milenar e unem com o saber científico, com a maior segurança possível, mas honrando as raízes. Eu gosto de acompanhar a gestação desde o começo, falar com a mulher, saber quem ela é, de onde vem, o que traz. Porque o parto é muito emocional também e tem que ter confiança dos dois lados, ter empatia. 

No parto domiciliar planejado, no grupo que faço parte, acompanhamos o parto em duas profissionais. Levamos todo material necessário, caso tenha alguma emergência, como oxigênio, medicações e soro, e sempre estamos fazendo treinamentos, nos aperfeiçoando e aprendendo.

Como é a relação com a modelo Gisele Bündchen?
A gente se conheceu em Floripa em 2006. Mantemos contato, ficamos próximas e eu já acompanhava parto naquela época. Quando ela engravidou, ela me convidou para estar no parto dela. Eu fui para lá [nos Estados Unidos] e ficamos mais próximas ainda. Depois fiquei morando nos Estados Unidos por um ano e meio, ajudando ela em algumas coisas, antes da viagem do projeto Parto pelo Mundo. Fui também no parto da segunda filha dela, Vivi. A gente mantém contato. É uma amiga muito querida.

Qual foi o parto mais especial?
O meu (risos). Foi um pouco do que imaginava, mas é diferente sentir visceralmente tudo aquilo. Eu mesma sentia a dilatação, o corpo se abrindo e tinha muita confiança na natureza. Foi muito legal sentir esta entrega e conexão com o meu corpo. Sentir a minha filha saindo de dentro de mim, eu trazendo ela para o mundo, para meu colo, reconhecer a minha filha, é muito profundo, mágico. Muitos profissionais estão só preocupados com os protocolos, e a rotina acaba com a beleza e o sagrado do momento. A minha filha adora parto também, para ela é muito natural. Ela escuta desde sempre que é algo intenso, mas maravilhoso, e gosta de fingir que está parindo, que está grávida.
Então já é uma transformação na sociedade, as crianças terem esta informação positiva desde a infância. As mulheres que estão engravidando hoje, muitas vezes receberam informações muito negativas dos partos de suas mães. Então temos que falar isso nas escolas também, para plantar a semente nas crianças e adolescentes, para essas futuras gerações de mães e pais saberem que existem opções, e opções transformadoras! 

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