Família que faz ação da "Cão Terapia" fala sobre relação de afeto com os animais Cristiano Estrela/Diário Catarinense

Apaixonada por cães, Jaina é voluntária em ONG que dá visibilidade para animais em abrigos

Foto: Cristiano Estrela / Diário Catarinense

A relação de Jaina Sabel Bosfield com os cães não se limita ao hábito de ter um animal de estimação. Há um lugar cativo até mesmo para os que já se foram e "viraram estrelinhas" conforme ela mesma se refere. Na sala, duas pequenas caixinhas com as cinzas de cada um deles formam um santuário ornamentado com uma imagem de São Francisco de Assis — o santo protetor dos animais — feito por Sophia, a filha de seis anos de idade, que herdou o mesmo amor pelos pets. Na área de lazer, um vaso com flores em cima da bancada carrega as cinzas de outro amigo que também deixou saudade. Tamis, Zezinho e Husky, companheiros que até hoje deixam os olhos de Jaina marejados ao falar do afeto com a família.

A servidora pública recorda que a empatia desenvolvida pelos animais foi herdada da mãe, que, quando jovem, monitorava as casinhas de joão-de-barro no sítio onde morava para garantir que nenhum pássaro morresse sufocado lá dentro.

— Ela ouvia falar que o macho poderia trancar a fêmea dentro da casinha e, por isso, ficava observando. Depois, junto com meu tio, saia abrindo as "portinhas" pra libertar os passarinhos.

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A história de cada um dos sete fieis escudeiros que passaram pela vida de Jaina e do esposo, Marco Aurélio Gonçalves, ao longo dos 27 anos de companheirismo é recordado sem hesitação. Ela faz questão de relembrar o primeiro encontro que teve com Jaque, Tamis, Husky, Zezinho, Nicko, Tob e Skull. Mas ela não é a única da família a declarar o seu amor pelos bichos. A sensibilidade e o afeto pelos cães são compartilhados também por Gonçalves.
A preocupação pela vida do ser humano que o fez seguir carreira no Corpo de Bombeiros Militar do Estado se estendeu também aos animais. Foi em quartéis que o Tenente Coronel conheceu duas das atuais paixões da família.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL, 14/11/2018: NÓS Pets - Família tem 5 cachorros.(Foto: CRISTIANO ESTRELA / DIÁRIO CATARINENSE)
Thamys, Zezinho e Husky, os cães que já se foram, continuam tendo lugar cativo na casa e na vida da famíliaFoto: Cristiano Estrela / Diário Catarinense

Há 13 anos, Jaque, a cadelinha mais velha do quinteto, apareceu no quartel dos bombeiros e passou a ser cuidada por quem frequentava a corporação.

— Toda pessoa que chegava ao quartel sem estar fardado, ela mordia. Mordeu meu pai, meu irmão, meu sobrinho... a única pessoa sem farda que ela não atacava era eu — lembra Jaina.

A partir disso nasceu o amor entre as duas. As visitas incluíam uma parada no meio do caminho para comprar kibe de carne, que Jaque adorava. Com o tempo, os encontros esporádicos se tornaram insuficientes e o casal, que na época morava em um apartamento, decidiu estreitar ainda mais a relação com a nova amiga.

— Estávamos para comprar essa casa que vivemos hoje. Resolvemos fazer o pacto. No momento em que a gente colocasse o pé aqui dentro, a Jaque viria junto. Dito e feito: a gente fez a mudança em uma sexta-feira e no domingo ela estava aqui.

Foi também em um quartel dos bombeiros, desta vez em São José, que Marco conheceu o grande amor da vida do casal. Tamis, hoje a maior saudade de Jaina. Ele soube que no local havia um filhote bem "atacadinho", uma mistura das raças Doberman e Labrador. Na época, havia até a intenção de treiná-la para se tornar uma cadela de busca. Mas ficou só no desejo, porque Tamis acabou sendo adotada pelo casal.

— Ela era ímpar, falava com a gente com os olhos. O nosso amor foi tão grande que ela foi crescendo ao ponto de chegar a pesar 48 quilos, parecia um boi — lembra emocionada ao falar da companheira que morreu em dezembro de 2017 após um câncer.

A matilha da Udesc

Foi no local de trabalho que Jaina conheceu o terceiro cão a chegar na casa da família: o Husky. Integrante de uma matilha que aparecia de vez em quando na Udesc, onde a servidora pública trabalha, o cão vira-latas já adulto, que parecia um Husky Siberiano
legítimo, foi o primeiro cachorro macho adotado
pelo casal.

— A gente brincava que ele era doutor em Artes, porque uivava muito. Era um guerrilheirão, tinha um pedaço da orelha arrancada — lembra.

O quarto cão a ser adotado, Zezinho, conquistou Jaina pela insistência. Sempre que ia ao salão de beleza, ficava parado atrás do carro de servidora pública. Foi depois de um momento difícil, ao ser atropelado por um ônibus, que ele finalmente ganhou um lar. Outras famílias tentaram adotá-lo, mas o apego do casal se sobressaiu e Zezinho acabou permanecendo na família até outubro deste ano, quando morreu por causas naturais.
Nicko foi a quinta adoção da família — o nome é uma referência a Nicko McBrain, baterista da banda britânica Iron Maiden. Companheiro leal e melhor amigo de Marco, ele é considerado o relações públicas da família por conseguir "se comunicar" muito bem e sempre denunciar a bagunça dos outros cães. Apesar de intimidar pelo porte grande — ele mede 70 centímetros com as patas no chão, 1,6 metro em pé e pesa 38 quilos —, o cão é extremamente carinhoso e senta no sofá feito gente. Mas nem sempre ele aparentou ser tão imponente. Jaina conta que Nicko foi abandonado faminto em um terreno baldio no Santinho, norte da Ilha, com duas patas quebradas, o rabo entortado e ferimentos pelo corpo, agressões que até hoje são lembradas em visíveis cicatrizes. Após ser resgatado por Marco e receber os primeiros cuidados, ganhou uma campanha de divulgação que visava encontrar um lar para ele. No entanto, mais uma vez, o casal se apegou a tal ponto que o cão acabou sendo adotado por eles.

— Doze famílias entraram em contato para adotar o Nicko. No dia em que eu ia levá-lo para uma experiência com uma delas, ele estava no colo do Marco e os dois ficaram me olhando como se estivessem dizendo "sai daqui sua monstra", nunca vou me esquecer disso. Aí eu não resisti e disse "o Nicko fica" — conta lembrando o momento em que conquistou de vez o coração da família.

O segundo mais velho da matilha, o experiente Tob, tinha como tutora a irmã de Jaina. Chegou como hóspede temporário e em pouco tempo adquiriu status de membro efetivo. Jaina conta que ele é o único que foi comprado, pois a adoção sempre foi uma bandeira levantada por ela. Essa condição, no entanto, prejudicou a saúde do animal durante toda sua vida em razão da violência envolvida no comércio de animais.

— Minha irmã o deixou lá em casa quando foi fazer uma viagem, e ele se apegou muito ao Skull e a mim. Quando voltou para casa, ficou dois dias sem comer de saudade. Hoje ele é completamente apaixonado por mim — conta, acariciando o cãozinho já idoso que colecionada idas ao veterinário: tem problemas renais, no coração, ficou cego de catarata e já precisou até de transfusão de sangue.

Se Nicko é considerado o Relações Públicas da família, Skull, a adoção mais recente, é o fiel escudeiro. Nem mesmo a bagunça que costuma fazer na casa ofusca a parceria.

— Hoje ele é tudo que tu possas imaginar pra essa família. Ele representa tudo o que a gente é.

A primeira conquistada por ele foi Sophia, a filha do casal, que avistou o cãozinho ainda filhote com outros dois irmãos em uma festa de aniversário. Skull acabou sendo o escolhido por ser o mais bagunceiro do trio. O cão, que chegou andando meio torto, com barriga de vermes, conforme lembra a servidora pública, tornou-se tão xodó da família que sua imagem será eternizada em Marco por meio de uma tatuagem.

Atenção compartilhada

A inquietação em ver animais em condições críticas foi o que motivou Jaina a dedicar sua vida aos peludos. Atualmente é voluntária na Organização Bem Animal (OBA).

— Nós passeamos com cães (disponíveis para adoção) para dar visibilidade a eles. Para que comprar se tem quase 100 cachorros no abrigo municipal? Se não tiver ninguém para comprar, não vai ter quem venda.

Jaina, Sofia e Cristovão durante a Cão Terapia
Jaina, Sofia e Cristovão, a paixão de Jaina, durante passeio da Cão TerapiaFoto: Egberto Dutra / Divulgação

Uma das ações permanentes da OBA é a Cão Terapia, ação aberta ao público e que aceita a presença de novos voluntários. Para participar, basta ir até a Diretoria de Bem-Estar Animal de Florianópolis (Dibea), localizada ao lado do cemitério do Itacorubi, na Capital, aos sábados, por volta das 15h30min. O voluntário pode passear e interagir com alguns dos quase cem cãezinhos que hoje estão no abrigo. O visitante pode adotá-lo ou apenas fazer companhia para eles. É permitida a presença de crianças desde que acompanhadas de um adulto. 

Leia mais matérias publicadas no caderno Nós, da Superedição do fim de semana

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