Após se descobrir transgênero, Magali entendeu o significado de liberdade Cristiano Estrela/Diário Catarinense

Foto: Cristiano Estrela / Diário Catarinense

Quando conseguiu entender que era uma mulher transgênero, há três anos, Magali Gregório Cacciari teve uma conversa sincera com a filha, que hoje tem 10 anos. Explicou de uma forma que ela entendesse que agora o pai seria uma mulher e iria mudar a aparência, mas que o amor continuaria o mesmo. A menina, que já estava habituada a morar com a mãe e a namorada dela, compreendeu. 

— Procurei as palavras mais delicadas para explicar a mudança. Minha filha nasceu na tolerância — explica a artista visual, VJ e DJ de 39 anos.

 No Dia do Orgulho LGBTI+,  conheça histórias de aceitação e respeito 

Para a artista, os avanços na sociedade permitiram que ela se descobrisse e pudesse dizer quem é. Quando criança e adolescente, ouvia muito como deveria se portar como menino e foi se guiando por aquele modelo para não decepcionar quem convivia com ela. Acredita que hoje os jovens pensam e refletem mais, não agem  tanto pelos sentimentos. 

Maga cresceu num mundo muito diferente. Tanto que levou anos para se autodescobrir e aceitar que era transgênero. Ainda criança, veio para Florianópolis com a família. Ela tinha seis anos quando chegou aqui como menino. Passou toda a infância, adolescência e parte da vida adulta se autorreprimimindo. Formada em Ciências da Computação, dava aulas e trabalhava com tecnologia, inclusive no exterior, em países como a Alemanha. Conheceu a mulher aos 18 anos, apresentada pela irmã. Com ela, teve a filha.

 Bissexual, Fabio conta como é ser feliz do jeito que é

Mulher e drag queen, Shitara fala sobre aceitação 

Nascida homem, viveu como tal durante cerca de 36 anos. E a mudança mesmo só aconteceu após o fim do casamento, que estava desgastado. Além disso, a esposa se apaixonou por outra mulher, o que fez ela abrir os olhos para outras possibilidades.

Em uma primeira análise, pensou que era gay. Ainda assim, não parecia confortável. Durante um ano viveu desta forma até que, um dia, encarou que era mulher.

— Era como se estivesse interpretando um papel desde pequena. Me vestia como homem e até os trejeitos eu cuidava — conta.

A adolescência passou sem satisfação sexual. Ela sempre namorou meninas, escondia qualquer desejo por homens. 

— Eu me questionava muito. Como sempre estudei, precisava de  argumentos sólidos e fui atrás disso. Analisei as questões biológicas, sociais e psicológicas. Foi assim que descobri que era mulher. 

Apoio da família é fundamental para o respeito à sexualidade dos jovens, dizem especialistas 

Falta de diálogo se reflete no desuso da camisinha e aumento de DSTs, afirmam especialistas

Passados três anos, a família a aceita e a protege. Ela se sente completa, que agora dá aulas de DJ para crianças e adolescentes, toca em festas e cria artes e quadrinhos, que assina como novamaga.  

— A gente pode dizer que diversidade sempre existiu. Depende da educação e do amadurecimento de cada povo. Da capacidade ou não de absorver conceitos controversos em uma velocidade lenta ou mais rápida. Acredito que falta ao nosso país um pouco de velocidade de pensamento, de progresso. Esses assuntos, que têm importância na vida das pessoas, não são tratados de maneira adequada. Isso faz com que cada assunto seja vagarosamente discutido. Eu nasci em 1978, mas lembro dos temas que se falavam. Eu ouvia coisas relacionadas a preconceito, à rejeição de homossexuais. E comecei a me policiar da forma como agia. Agia como homem, mas sabia que não era — conta.

Foto: Caderno Nós

 Acesse todas as reportagens da série do Caderno Nós "Vamos falar de amor" 

Leia também:

A transição de gênero documentada mês a mês

Pessoas trans enfrentam dificuldades no mercado de trabalho em SC

Crescem as denúncias de violação dos direitos humanos em SC


 Veja também
 
 Comente essa história