Cadernos Nós: a transição de gênero documentada mês a mês Betina Humeres / DC/DC

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 Fernando Maldonado de Melo é um nome social, mas por pouco tempo. Em breve estará estampado nos novos documentos do jovem de 24 anos, uma vez que o Supremo Tribunal Federal aprovou por unanimidade em março deste ano que as pessoas transgêneros possam trocar de nome e de gênero no registro civil, mesmo que não se submetam à cirurgia de redesignação sexual. O princípio do respeito à dignidade humana foi o mais invocado pelos ministros para decidir pela autorização. Um avanço e tanto, especialmente em um dos países considerado o mais homofóbico do mundo. 

A história de Fernando, que mora em Florianópolis, estuda psicologia e recebe da família apoio e amor incondicionais é ao mesmo tempo comum e singular. Comum porque são milhares de pessoas transgêneras que estão em busca de sua identidade e afirmação. 

E singular porque cada uma dessas histórias é única e muito particular. Fernando completou um ano do processo de transição de mulher para homem no último 1º de maio. Também no mesmo mês passou pela mastectomia radical, cirurgia para retirada das mamas.

Esse ainda é o início de uma longa caminhada, que ele sabe que não é tranquila. Mas a felicidade de estar pela primeira vez na vida se reconhecendo no espelho é tanta que ele se diz preparado para enfrentar o que vier.

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A NSC Comunicação acompanhou esta transição desde o início e revela as batalhas diárias de uma pessoa que, como todas as outras, só quer ser feliz e respeitada. Nando, que é como todos o chamam, nunca se sentiu confortável sendo menina, só que, antes de se reconhecer como transgênero, não sabia explicar o porquê.

 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 12/06/2018 - Nando Maldonado - homem trans - Viviane Bevilacqua acompanhou or quase um ano a trasicao de genero de Nando Maldonado.Local: FlorianopolisIndexador: Betina HumeresFonte: Diario CatarinenseFotógrafo: Fotografa
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— Sempre tive dificuldade de me reconhecer menina, apesar de um esforço grande (e doloroso). Sempre me imaginei menino. Na adolescência, tive conflito com meu corpo, mas pensava que o meu interesse só estava atrasado em relação ao das minhas amiguinhas. Mas não. Ele nunca veio. Os meninos cresciam e desenvolviam o corpo que eu queria ter, com o qual eu me imaginava, mas que por algum motivo eu não tinha. Eles tinham barba, que sonho! Lembro que na maioria das vezes que eu transei eu me imaginei sendo homem. Meus amigos nunca me trataram como amiga, e sim como amigo, e aquilo me deixava extremamente confortável. Lembro de todos os vestidos que usei para as festas de 15 anos e de como eu me sentia horrível dentro deles. Quando minha mãe dizia que tinha comprado roupas para mim, eu só conseguia chorar. Lembro de muitas coisas que para os outros pode não fazer nenhum sentido, mas que para mim fazem. Das muitas vezes que não estava bem e não sabia dizer o que estava sentindo. De querer gritar, mas não saber o porquê nem o quê.

Quando adolescente, Nando começou a se interessar por meninas. A conclusão lógica a que chegou era a de que só podia ser uma mulher lésbica.

— Me assumi lésbica aos 18 anos, depois de muita briga comigo mesmo. Comecei a usar roupas largas e parar de me obrigar a usar maquiagem e brincos. Biquíni, só a parte de cima, embaixo uma bermuda. Me aceitei uma ‘lésbica masculina’. Depois, mudei meu armário para peças masculinas. Sempre odiei fazer compras, mas fiquei muito feliz com sacolas de roupas de homem na mão, e pensei que todo o meu conflito interno tinha acabado. Eu errei. Meu corpo não estava se encaixando nas minhas roupas novas, meu cabelo comprido (mesmo achando ele lindo) parecia que não fazia parte de mim. Comecei a me incomodar com as pessoas me chamando de ‘moça’. Eu ficava esperando elas me confundirem com um menino, e isso nunca acontecia. Foi então que percebi: sou um menino, num corpo de menina. 

Fernando começou a ler e pesquisar tudo o que podia sobre transexualidade – termo que se refere à condição do indivíduo cuja identidade de gênero difere daquela designada no nascimento e que procura fazer a transição para o gênero oposto, através de intervenção médica.

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— Foi muito difícil eu me descobrir trans para mim mesmo. É horrível, é confuso, dói, dá medo e o pior de tudo é você não conseguir fugir. Eu tentei até, mas só estava me torturando. Cada banho, cada roupa, cada saída de casa, cada passada de mão no meu cabelo comprido... Tudo isso me machucava muito. Sentia inveja dos meus amigos homens, brigava com outros em festas e fui entendendo de onde saía aquela raiva toda, aquela agonia. Por que
eu não podia ser como eles? Por que eu tinha nascido assim? Antes de iniciar a terapia hormonal, pesquisei muito sobre homens trans e fui feliz só de ver que, sim, eu podia ter o meu corpo, a minha barba, o meu cabelo curto, a minha voz grossa e ser referido no masculino. E assim é. Meu novo nome – Fernando Maldonado de Melo – homenageia o cara mais incrível que eu conheci e que eu tenho certeza que me aceitaria de qualquer jeito, Luiz Fernando de Melo, meu pai.

O processo de hormonoterapia de Nando se iniciou dia 1º de maio de 2017, não por acaso a data em que completou quatro anos do falecimento do pai.

— O 1º de maio é muito significativo para mim. Primeiro, porque meu pai morreu neste dia. Depois, foi a data em que iniciei minha transição de mulher para homem. E terceiro porque foi em 1º de maio deste ano que saí no quintal de casa, pela primeira vez, sem camisa, e já sem os seios. Isso era um sonho, e a sensação foi maravilhosa.

As pessoas que pretendem iniciar a transição, seja homem-mulher ou mulher-homem, devem começar procurando um médico para conversar e tirar todas as dúvidas sobre o processo e seus efeitos colaterais, físicos e psicológicos. Se o especialista consultado não tiver condições de ajudar, ele certamente saberá indicar outro profissional. 

O médico pedirá então uma série de exames e, se estiver tudo bem e for este o caso, fornecerá a receita do hormônio para o início das injeções, que deverão ser aplicadas regularmente. Caso a pessoa deixe de fazer uso do hormônio, as características do sexo original aos poucos começam a voltar. Por exemplo: quem está transicionando do sexo feminino para o masculino, se parar de usar testosterona acabará voltando a ter voz de mulher, irá perder os pelos, a musculatura desincha. Ou vice-versa. Mas isso raramente acontece, porque a decisão de iniciar o processo é tomada, 99% das vezes, quando o indivíduo já tem certeza do que quer. Por isso é tão importante o aconselhamento e acompanhamento médico e psicológico.

Nando decidiu iniciar a transição no ambulatório do Centro de Saúde do bairro Saco Grande, localizado na comunidade de mesmo nome, em Florianópolis. É o único posto do SUS da Capital que tem um dia e horário especial para atender transexuais e travestis. O projeto se iniciou no Centro de Saúde da Lagoa da Conceição, mas ano passado o atendimento, instituído por residentes de Medicina de Família e Comunidade, mudou de lugar. 

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As consultas são sempre nas segundas-feiras, das 18h às 22h, e para agendá-las é preciso enviar um e-mail para ambulatório.mfc.trans@gmail.com. O procedimento visa a proteção das pessoas trans de possíveis casos de discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, respeitando o uso do nome social do paciente e oferecendo as receitas para a hormonoterapia.

Ensaio: a transição de gênero mês a mês 

Era início de 2017, quando Nando procurou o ambulatório do centro de saúde para a primeira consulta.

— Somente nesta primeira vez, a gente precisa dar o nome de registro. Depois, sempre me trataram por Nando, e com todo o respeito. Fui atendido por dois médicos, e contei um pouco sobre a minha vida. Eles me pediram um batalhão de exames clínicos, me explicaram todos os efeitos colaterais que a aplicação de hormônios poderia causar e, por fim, me pediram para assinar um papel, assegurando que eu estava ciente de tudo o que haviam me explicado.

Com os exames completos e a anuência dos médicos, Nando pôde, enfim, começar esta fase tão esperada por todos os transexuais, que é a de ir adquirindo, aos poucos, algumas das características mais marcantes do gênero no qual se reconhece. Os médicos do ambulatório fornecem a receita do hormônio, mas a aplicação da injeção deve ser feita em uma farmácia. Um mês depois, é preciso voltar ao consultório, para conversar com os médicos sobre possíveis reações do hormônio. A partir daí, as consultas passam a ser agendadas de três em três meses, quando os exames são repetidos para ver se está tudo bem. Fora isso, sempre que precisar tirar qualquer dúvida, necessitar de ajuda psicológica (dois psicólogos residentes promovem rodas de conversa) ou estiver com algum problema de saúde, a pessoa trans também será atendida pela equipe do ambulatório.

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O Ministério da Saúde estabelece, por meio de portaria, que a idade mínima para procedimentos ambulatoriais é 18 anos. Já para cirurgias, 21 anos. A recomendação é de que a pessoa transexual faça o acompanhamento clínico e a terapia hormonal por dois anos pelo menos, para só depois se submeter a cirurgias. Na transformação de feminino para masculino, as cirurgias podem incluir remoção dos seios, reconstrução dos genitais e lipoaspiração. 

Já na redesignação de masculino para feminino, pode incluir a amputação do pênis e a construção da neovagina (nome dado ao novo órgão), implante de próteses de silicone nas mamas e redução do pomo de adão para tornar a voz mais aguda. No entanto, isso é muito variável. Cada indivíduo decide até onde quer ir.

Existem hoje no Brasil nove serviços ambulatoriais para procedimentos transexualizadores, entre eles a terapia hormonal e o acompanhamento psicológico dos usuários em consultas antes e depois da cirurgia de redesignação de sexo. Cinco deles oferecem a cirurgia de mudança de sexo. Embora tenha havido um crescente aumento na procura por este tipo de atendimento, ainda há uma grande limitação na oferta de profissionais e hospitais credenciados, gerando profundas críticas de grupos de defesa dos direitos humanos e da própria população de transexuais.

Nando estava fazendo o seu processo de hormonização pelo SUS. Após muitas conversas e conselhos de sua mãe, a médica anestesista Heidi Comine Maldonado, ele aceitou consultar com um psiquiatra especializado em questões de gênero, em São Paulo.

— Eu fui, embora tivesse trauma de psiquiatras, que sempre me trataram como se eu fosse um doente. E foi muito bom, continuo indo todos os meses para sessões de psicoterapia. O psiquiatra, Daniel Augusto Mori, assinou o laudo necessário para que Nando realizasse a tão sonhada mastectomia. Depois, ele passou pela avaliação de uma endocrinologista, que também atestou que ele estava apto para a operação de retirada das mamas.

Sempre acompanhado da mãe, Nando procurou o cirurgião plástico Luiz Augusto Gonzaga, que nunca havia realizado uma mastectomia em um homem trans.

— Marcamos para a semana seguinte, e eu estava eufórico. Fui a primeira pessoa trans a operar no Hospital Baía Sul, em Florianópolis. Eles me trataram com todo o respeito, me chamando pelo meu nome social, tudo direitinho. Deu tudo certo na cirurgia. Internei de manhã e voltei para casa à noite. Não sei nem explicar a alegria que eu sentia, só sei que era imensa.

A família pagou pela cirurgia de Nando, que foi particular, assim como toda a equipe multidisciplinar que o acompanha. 

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O jovem explica que o SUS é uma ótima “porta de entrada” para as pessoas trans que não sabem onde buscar ajuda.

— Eles acolhem muito bem, os médicos são bons, é o único serviço público gratuito que temos em Florianópolis, mas eles ainda são muito deficientes nesta área. 

Não existem equipes multidisciplinares para atender os pacientes, nem médicos especialistas, e as filas de espera para fazer as cirurgias são imensas. As pessoas aguardam muitos anos. Infelizmente, nem todos têm as mesmas condições que eu tive de procurar atendimento particular e contar com o serviço de ótimos médicos, além do apoio irrestrito da família, como foi o meu caso. Nando, assim como a maioria dos transgêneros masculinos, tinha pressa de livrar o corpo, agora masculinizado, desta característica tão feminina que são as mamas. Esse tipo de cirurgia na rede particular de saúde tem um custo que varia de R$ 8 mil a R$ 20 mil.

— Posso dizer com toda a certeza que é muito difícil ser uma pessoa trans. Quem vê de fora, mesmo sendo da família, não sabe o que é passar pelo que estamos passando e nunca vão saber, nunca vão sentir o que estamos sentindo, apesar de que seria muito bom se isso acontecesse.  As coisas seriam mais fáceis, e as pessoas não resistiriam tanto a nos aceitar como somos. 

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Nando trabalhou alguns meses como auxiliar de cozinha, para uma pessoa que fazia comida para fora. Ganhava salário mínimo, sem direito a carteira assinada nem qualquer benefício, e sentia-se muito explorado. A empregadora, por achar que estava fazendo “caridade”, mandava o jovem trabalhar além do horário e fazer serviços que extrapolavam sua responsabilidade. Aguentou até chegar no limite.

— O mercado de trabalho é muito complicado para a pessoa trans. É muito difícil conseguir um emprego. Depois que me reconheci como um homem trans, mandei vários currículos, fiz várias entrevistas, mas nenhum me chamou para uma segunda conversa. Teve um inclusive que disse: ‘Você é o Fernando? Eu respondi sim, ele disse: Ah tá, pode ir. Só queria saber como você era.’  As empresas, as lojas, ninguém aceita uma pessoa trans, só por ser assim, independente da capacidade intelectual, dos conhecimentos e da experiência que ela tenha. É triste isto. Tudo o que eu queria agora era estar trabalhando, em um bom emprego, e não estou inventando desculpas quando digo que eles não contratam pessoas trans. É horrível chegar em um lugar para fazer uma entrevista e ser rejeitado sem nem ter falado nada além do seu nome. Ser rejeitado por ser simplesmente como eu sou. E eu não vou viver fingindo ser quem não sou para conseguir ter um emprego.

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 FLORIANOPOLIS, SC, BRASIL, 11/06/2018 - Nando Maldonado - homem trans - Viviane Bevilacqua acompanhou or quase um ano a trasicao de genero de Nando Maldonado.Foto: (E-D) Bê (namorada), Nando Maldonado, Heidi Maldonado (mãe) e Tomás Maldonado (irmão)Local: FlorianopolisIndexador: Betina HumeresFonte: Diario CatarinenseFotógrafo: Fotografa
Nando conta com o apoio da família e da namoradaFoto: Betina Humeres / Diario Catarinense

Nando pode contar com o suporte emocional e financeiro de sua família, mora com a mãe Heidi em Jurerê Internacional, norte da Ilha de Santa Catarina, e conta com o apoio dos dois irmãos, Tomás e Rafael. Infelizmente, essa não é a realidade da maioria dos transexuais.
No ambiente escolar não é muito diferente. Ele conta:

— Somos excluídos, tachados de esquisitos. Aí, a criança ou adolescente trans cresce sem ter vontade de continuar indo para a escola. Você não se enxerga no seu amiguinho ou amiguinha. Todos são diferentes de você. Depois, na universidade também é assim. Comecei a cursar Pedagogia, mas tinha medo de ir para a faculdade, não me sentia bem lá. Porém, se não temos uma graduação, o mercado de trabalho fica ainda mais difícil. Comecei, neste semestre, a cursar Psicologia. Nas primeiras semanas, foi complicado. Um dia na aula, estávamos debatendo transexualidade e acabei contando que sou um homem trans. Depois do espanto geral, veio a curiosidade. Todos queriam saber com quem eu transo e o que tenho no meio das pernas. Ninguém me perguntava se eu estava bem, como tinha sido meu final de semana, coisas que se falam com um colega. Então, tivemos uma conversa muito aberta e franca, e a partir daquele dia comecei a ser respeitado como um ser humano, e é só isso o que eu desejo.

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Nando tem recebido convites para dar palestras em escolas e entidades, sobre a sua experiência. Somente no mês de maio, foram seis encontros com alunos do ensino médio na Escola de Educação Básica Irmã Maria Teresa, em Palhoça, durante a Semana da Diversidade.

— Recebi, depois, muitas mensagens dos alunos. A maioria delas elogiando a minha coragem de lutar pela minha felicidade e, também, de me expor contando a minha história. A mensagem que quero passar para eles é essa: "seja você mesmo, porque só assim a vida tem sentido."

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