Agricultor multiplica cultura orgânica após ter sido intoxicado por pesticidas Felipe Carneiro / Diário Catarinense/Diário Catarinense

Amilton Voges trouxe um novo modelo de cultura à Serra do Tabuleiro, em Santo Amaro da Imperatriz

Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense / Diário Catarinense

Uma intoxicação por agrotóxicos levou Amilton Voges, 52 anos, a precisar de transfusões de sangue, na década de 1990. O agricultor, que trabalhava com pesticidas há mais de uma década, decidiu mudar o modelo de cultivo. Hoje, ele ensina as técnicas de plantação orgânica e criou uma nova opção de vida para a comunidade da Serra do Tabuleiro, em Santo Amaro da Imperatriz.  Para ele, os agrotóxicos são sinônimo de mal-estar.

- Nos anos 80, quando começamos a produção de hortifrúti na Serra do Taboleiro, entrou muito forte o veneno. Comecei a sentir muita fraqueza, o sangue escorria fácil, parecia que estava virando água. Até hoje, quando sinto o cheiro do agrotóxico, minha boca saliva - diz.

A cultura de orgânicos foi incentivada pela Epagri, e multiplicada por Vogel. Hoje são 40 famílias envolvidas no projeto e 100 espécies diferentes de produtos cultivados, que abastecem desde supermercados até a merenda escolar em cidades como Palhoça, Bombinhas, Tijucas e Ilhota.

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Foto: Arte DC

Na comunidade, Vogel acompanhou pelo menos cinco casos de intoxicação com agrotóxicos ao longo dos anos. Boa parte das famílias acabou optando por trocar o cultivo convencional pelo orgânico, mas não são todas. O trabalho é lento e difícil - dependendo do tipo de cultura, são necessários cinco anos para "limpar" o solo e atestar o produto como orgânico. No período de transição os agricultores fazem a chamada agroecologia, com produtos sem agrotóxicos, mas ainda não certificados.

- O agricultor convencional quer colher quantidade, não qualidade. Eu também pensava assim. Vemos que muitos querem mudar para o orgânico, mas desistem porque não é fácil vender o produto - comenta.

Os preços, em média três vezes mais caros do que os alimentos cultivados com agrotóxicos, tornam o mercado restrito. Quando não conseguem escoar com rapidez, os produtores optam por vender o produto como se fosse convencional, mas aí não consegue competir com a aparência do alimento que recebeu pesticidas.

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Foto: Felipe Carneiro / Diário Catarinense

No centro da polêmica

Uma proposta do deputado estadual Edinho Bez (PMDB), aprovada pela Comissão de Agricultura da Câmara, reacendeu o debate em torno dos orgânicos. O projeto restringe a comercialização dos alimentos sem agrotóxicos, exigindo filiação dos produtores a associações, por exemplo, como forma de evitar fraudes - venda de produtos com pesticidas como se fossem orgânicos

Ocorre que o texto leva a entender que não se permitiria mais a comercialização dos orgânicos em supermercados, o que gerou uma avalanche de críticas. Em entrevista à CBN Diário, esta semana, o deputado disse que foi mal interpretado. Ele aceitou sugestão da Associação Catarinense de Supermercados para alterar o texto.

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O que torna um alimento orgânico?

Para que um alimento seja considerado orgânico é necessário que ele tenha sido produzido sem agrotóxico, adubos químicos ou hormônios que estimulem crescimento - no caso das carnes. Frutas e verduras são tratadas naturalmente e adubadas com compostos orgânicos, que garantem que não haja nenhum produto artificial no processo. 

Os produtos orgânicos vendidos em supermercados possuem um selo de certificação, emitido por um Organismo da Conformidade Orgânica (OAC) que esteja autorizado pelo Ministério da Agricultura. Também há possibilidade de venda direta ao consumidor sem certificação, como nas feiras. Nesse caso, o produtor faz um credenciamento junto ao Ministério.

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