"Famílias podem ser a melhor proteção", diz psiquiatra sobre a saúde mental de crianças Ricardo Wolffenbüttel/Diário Catarinense

Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Diário Catarinense

A médica Maria Cristina Marcondes Brincas, do Departamento de Psiquiatria da Infância e da ada Associação Catarinense de Psiquiatria, tem se debruçado a estudar e refletir muito nos últimos anos sobre a influência da família na saúde mental das crianças e adolescentes. No mundo moderno, com os avanços tecnológicos e as agendas cada vez mais cheias de compromissos, pais e filhos muitas vezes não encontram tempo para compartilhar de uma vida familiar saudável de prazerosa. Nesta entrevista, a especialista conta como este comportamento pode afetar a saúde mental das crianças e jovens.

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Meninos e meninas estão ficando adultos mais cedo?

Meninos e meninas têm acesso a quantidades absurdas de informação hoje em dia. Muita coisa interessante, sem dúvida, mas muita coisa inapropriada. Conteúdos que pelo estágio do desenvolvimento em que se encontram, não têm maturidade para compreender. Violência, consumo excessivo, sexo, preconceito, são alguns exemplos. Mas isso não os torna adultos. A maturidade vem com o tempo, e é resultante da interação dos processos biológicos com aspectos emocionais e as vivências na relação com os pais. O que observamos atualmente é uma pseudomaturidade. Comportamentos precoces com encurtamento de algumas fases do desenvolvimento psicológico, podendo resultar em atitudes impulsivas, muitas vezes de risco e sem a possibilidade de pensar e elaborar sobre o que o que fazem ou presenciam.

Os pais devem supervisionar as atividades dos filhos, com o objetivo de protegê-los?

No início da vida, os pais funcionam como um filtro que amortece e traduz os impactos que vem de fora, protegendo os filhos e capacitando-os ao longo do tempo a pensarem por si mesmos. A medida que a criança cresce, passa a ser mais capaz de lidar com as exigências da vida e a supervisão parental vai se modificando gradativamente, dando mais espaço para adquirir autonomia. No universo eletrônico, muitas vezes não há filtro, nem proteção. É muito difícil supervisionar a informação que vem por via eletrônica, a velocidade é incrível. Mesmo assim cabe aos pais essa supervisão, é uma questão de responsabilidade. Mas há algo que é ainda mais básico, e muito simples: o tamanho do efeito protetor de uma estrutura familiar saudável. Famílias podem ser o melhor fator de proteção para os problemas emocionais. Necessitam manter comunicação clara, coesão parental, hierarquia, limites e diálogo. Mas é preciso investir nisso, o que exige tempo e dedicação.

Há a percepção geral de que os casos de problemas psiquiátricos entre as crianças e jovens vêm aumentando. Isso é real?

Os transtornos psiquiátricos têm tido mais espaço na mídia nos últimos tempos, o que possibilita a redução do preconceito e a possibilidade de identificação precoce e do tratamento. Pais informados, atentos e próximos aos filhos são capazes de identificar mais rapidamente quando algo não vai bem, assim como procurar ajuda especializada.

A escola também pode ajudar na saúde mental das crianças e adolescentes?

Considero que a parceria entre escola e família é imprescindível, porém uma não substitui a outra. A escola precisa ensinar aos alunos a prática da reflexão crítica e constante sobre seus comportamentos e de como processar as informações recebidas. Necessita também de atualização e supervisão específica na área de comportamento da infância e adolescência para poder intervir adequadamente nas situações que ocorrem no ambiente escolar. Os pais devem apoiar a escola nesse sentido. O bullying, muito recorrente nas escolas, é considerado um dos estressores mais graves, que podem levar a criança ou o adolescente a quadros graves de depressão. Além disso, pode servir também de gatilho para casos de suicídio.

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