Veja como identificar sinais de transtorno emocional em crianças e adolescentes  Ricardo Wolffenbüttel/Diário Catarinense

Foto: Ricardo Wolffenbüttel / Diário Catarinense

Um mal cada vez presente entre as crianças é a depressão. O distúrbio acomete 1% a 2% das crianças antes da puberdade, e 5% dos adolescentes. Com a idade de 16 anos, 12 % das meninas e 7% dos meninos já terão apresentado depressão em algum momento de suas vidas. A informação é da psiquiatra Maria Cristina Marcondes Brincas, especialista em Infância e Adolescência, e membro da Associação Catarinense de Psiquiatria. Segundo ela, a depressão pode ocorrer em crianças e adolescentes que apresentem os chamados fatores de risco. A vulnerabilidade genética — quando há história familiar de depressão — é um deles. Ela explica: os filhos de pais com depressão têm risco aumentado de 2 a 4 vezes de apresentar o mesmo problema. 

— Ainda mais, se existirem duas gerações com depressão, ou seja, se em uma família existirem, por exemplo, o pai e o avô com histórico de depressão. Isso aumenta bastante o risco para ansiedade e depressão precoce na geração seguinte — diz.

 Leia a série de reportagens sobre transtorno emocional em crianças e adolescentes 

Há outras características que também estão associadas a uma maior predisposição à depressão. Entre eles, a psiquiatra cita os estilos cognitivos particulares (tendência a ruminação e maior valorização das emoções negativas), dificuldades para regular as emoções, presença de ansiedade social e medos, dificuldades para dormir, irritabilidade e a presença de outros problemas de comportamento.

— Quando estas crianças são expostas a estressores ambientais como discórdia parental, doença psiquiátrica dos pais, maus tratos, violência ou bullying, aumenta ainda mais as chances de ocorrência de depressão, e com maior gravidade — explica Maria Cristina.

A psiquiatra alerta que a depressão é uma doença que precisa ser diagnosticada e tratada, pois pode levar a consequências sérias como abuso de substâncias perigosas e tentativas de suicídio. Os pais devem estar atentos às modificações de comportamento dos filhos e buscar ajuda antes que o quadro se agrave. Nem sempre é fácil notar características de depressão em adolescentes, muitas vezes alterações de comportamento são observadas na escola e também pelos colegas e amigos. 

— Em caso de dúvida é importante buscar esclarecimento junto a um especialista — sugere a psiquiatra.

Autismo Infantil

Esse grupo de transtornos é caracterizado por severas anormalidades nas interações sociais recíprocas, nos padrões de comunicação estereotipados e repetitivos, além de um estreitamento nos interesses e atividades da criança. Costumam se manifestar nos primeiros cinco anos de vida. A forma mais conhecida é o Autismo Infantil, definido por um desenvolvimento anormal que se manifesta antes dos três anos de vida. As crianças com transtorno autista podem ter alto ou baixo nível de funcionamento, dependendo do QI, da capacidade de comunicação e do grau de severidade. O tratamento visa principalmente uma educação especial com estimulação precoce da criança. A terapia de apoio familiar é muito importante: os pais devem saber que a doença não resulta de uma criação incorreta e necessitam de orientações para aprender a lidar com a criança e seus irmãos.

Em geral, os autistas apresentam, em maior ou menor grau os seguintes itens:

  • Prejuízo acentuado no contato visual direto, na expressão facial, posturas corporais e outros gestos necessários para comunicar-se com outras pessoas.
  • Fracasso para desenvolver relacionamentos com outras crianças, ou até mesmo com seus pais.
  • Falta de tentativa espontânea de compartilhar prazer, interesses ou realizações com outras pessoas (por exemplo: não mostrar, trazer ou apontar objetos de interesse).
  • Atraso ou ausência total da fala (não acompanhado por uma tentativa para compensar através de modos alternativos de comunicação, tais como gestos ou mímicas).
  • Em crianças com fala adequada, acentuado prejuízo na capacidade de iniciar ou manter uma conversa.
  • Uso repetitivo de mesmas palavras ou sons
  • A criança parece adotar uma rotina ou ritual específico em seu ambiente, com extrema dificuldade e sofrimento quando tem que abrir mão da mesma
  • Faz movimentos repetitivos ou complexos do corpo
  • Preocupação persistente com partes de objetos

Transtorno do déficit de atenção-hiperatividade (TDAH)

As crianças com esse transtorno são consideradas, com frequência, crianças com um temperamento difícil. Elas prestam atenção a vários estímulos, não conseguindo se concentrar em uma tarefa única e, assim, cometendo erros muitas vezes grosseiros. É comum terem dificuldade para manter a atenção, mesmo em atividades lúdicas e com frequência parecem não escutar quando chamadas. Muitas vezes não conseguem terminar seus deveres escolares, tarefas domésticas ou deveres profissionais. Têm dificuldade para organizar tarefas, evitando, antipatizando ou relutando em se envolver em tarefas que exijam esforço mental constante. Costumam perder facilmente objetos de uso pessoal. Esquecem facilmente atividades diárias.

A hiperatividade aparece como uma inquietação, manifesta por agitação de mãos ou pés e não conseguir permanecer parado na cadeira. São crianças que quase sempre saem de seus lugares em momentos não apropriados, correm em demasia, têm dificuldade de permanecer em silêncio, estando frequentemente "a mil". Outra característica desse transtorno é a impulsividade, que aparece em respostas precipitadas mesmo antes de as perguntas terem sido completadas. São crianças que têm dificuldade de aguardar sua vez, interrompendo ou se intrometendo em assuntos alheios.

O transtorno deve ser diagnosticado e tratado ainda na infância para não causar maiores prejuízos ao desenvolvimento interpessoal e escolar da criança. O tratamento inclui psicoterapia individual e, às vezes, terapia familiar. Quase sempre se faz necessário o uso de medicação.

Onde procurar apoio para a saúde emocional de crianças e adolescentes

Foto:

Ansiedade: Angústias generalizadas que a criança manifesta por situações que não deveriam merecer tanta preocupação. Os transtornos podem se manifestar no medo irracional de eventos da natureza (chuva), do escuro (mesmo com a luz do abajur acesa) ou de ficar sozinho, por exemplo. 

Retardo mental: Atraso cognitivo, dificuldades em elaborar frases e dependência dos pais para atividades cotidianas são alguns sintomas do retardo mental. Quanto mais cedo o indivíduo for estimulado, maiores são as chances de diminuir os efeitos do transtorno.

Transtornos obsessivo-compulsivos (TOC): Aparecem por volta dos 10 anos  e se parecem com as formas adultas dessa doença. As obsessões se relacionam com a limpeza, o medo de catástrofes, os temas sexuais ou religiosos. E as compulsões se manifestam  pela repetição anormal e exagerada dos mesmos gestos — rituais de lavagem e de verificação — sobretudo em certos períodos do dia (ao se deitar, no banho, nas refeições etc.). Os especialistas explicam o diagnóstico tardio desses transtornos, em primeiro lugar pela dificuldade em distinguir os comportamentos obsessivo — compulsivos dos rituais de desenvolvimento, frequentes na criança; em seguida, pelo caráter muito pouco específico dos sinais de apelo, tais como a lentidão ou as dificuldades escolares.

Esquizofrenia: É caracterizada por transtornos do curso do pensamento, por ideias delirantes, por alucinações, uma discordância afetiva. Muito rara na criança, ela começa geralmente no final da adolescência ou no início da idade adulta, como se a doença ficasse silenciosa no plano clínico antes desse período.

Ansiedade de separação: é o mais frequente: ele começa por volta dos 6 anos aos 7 anos e se traduz por um desespero intenso da criança quando ela é separada das pessoas às quais está ligada.

Hiperansiedade: começa por volta dos 8 anos aos 9 anos. Ela se manifesta por preocupações excessivas relativas aos resultados escolares, com sintomas de agitação, de fadiga, perturbações do sono e da memória.

Ataques de pânico: eles podem levar, se se repetirem, ao transtorno de pânico por volta dos 15 anos aos 19 anos. Em geral, entre os 6 anos e 12 anos se exprimem as fobias simples — medo de um objeto ou de uma situação — depois, entre 12 e 15 anos, as fobias sociais — medo do contato com o outro, inclusive com outras crianças — gerando um sentimento de sofrimento intenso.

Estresse pós-traumático: transtorno ansioso, foi durante muito tempo ignorado na criança, mesmo pelos profissionais de saúde. No entanto, suas consequências (transtornos do sono, acessos de raiva, alterações do desempenho escolar, autoagressividade, hipervigilância) sobre a vida da criança são importantes: em 50% dos casos, o transtorno persiste para além de 12 meses após o acontecimento; ele pode inclusive se perenizar.

Transtornos do humor (distimia, transtorno depressivo maior, transtorno maníaco-depressivo): de acordo com especialistas, eles aparecem mais frequentemente nos adolescentes, principalmente nas meninas, precedidos por transtornos ansiosos e do comportamento (hiperatividade). Requerem o diagnóstico precoce e um tratamento adequado

Transtornos do comportamento alimentar: atingem sobretudo as adolescentes que têm tendência a focalizar a imagem de seus corpos. As futuras anoréxicas ou bulímicas vivem com maiores dificuldades do que outras adolescentes o período pubertário, momento-chave da maturação física e psíquica. O diagnóstico e o tratamento intervêm tardiamente, sobretudo para as anoréxicas, porque as famílias não veem imediatamente a gravidade da situação. Bruscas variações de peso (uma perda de peso de pelo menos 10%), uma amenorreia (ausência de menstruação), preocupações excessivas em torno da imagem do corpo, da alimentação e uma baixa autoestima devem, segundo os especialistas, ser considerados sinais de um comportamento anoréxico ou bulímico.

Fonte: Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental

"Famílias podem ser a melhor proteção", diz psiquiatra sobre a saúde emocional de crianças

Foto:
  • Dificuldade para dormir
  • Agressividade
  • Irritabilidade
  • Apatia
  • Falta de prazer em brincar
  • Excesso ou falta de fome
  • Recusa em interagir
  • Atraso na comunicação
  •  Pesadelos recorrentes
  • Problemas repetidos de escape de xixi ou cocô após já ter aprendido
Foto:

Tempo de tela: estudos mostram que o excesso de tempo de tela prejudica o sono, altera o humor, reduz a capacidade cognitiva e contribui para o sedentarismo. Entram aqui celular, televisão, tablet e computador.

Rotina: crianças precisam de rotina para aprender a colocar ordem no mundo. Instaure hora certa para acordar, comer, tomar banho e dormir.

Sono: dormir é essencial na primeira infância. Durante o sono, o cérebro concretiza as memórias do dia

  • De quatro a 12 meses: de 12 a 16 horas, incluindo sonecas
  • De um a dois anos: de 11 a 14 horas, incluindo sonecas
  • De três a cinco anos: de 10 a 13 horas, incluindo sonecas

Leitura: Leia para seu filho. O hábito fortalece o vínculo afetivo, ajuda a lidar com as emoções e colabora para o raciocínio, o aprendizado da linguagem, o estímulo à atenção e à memória.
 

Foto:

 Leia também:

Atenção à saúde emocional das crianças exige apoio incondicional da família 

"Famílias podem ser a melhor proteção", diz psiquiatra sobre a saúde emocional de crianças 

Onde procurar apoio para a saúde emocional de crianças e adolescentes


 Veja também
 
 Comente essa história