Professor dá aulas de tênis como voluntário para crianças em Itajaí Diorgenes Pandini/Diário Catarinense

Foto: Diorgenes Pandini / Diário Catarinense

Osvaldo Cipriano, o Badeco, não exagera ao dizer que o tênis mudou sua vida. Empregado como "boleiro" num clube de Florianópolis, aos 9 anos, descobriu-se atleta. Negro, morador do morro, ele usou o talento para quebrar preconceitos quando ainda era um menino. Adulto, jogador profissional, achou que poderia proporcionar a mesma chance para outras crianças que estavam em condições semelhantes. Em 30 anos de trabalho voluntário, coleciona histórias de vida que, com um "empurrãozinho" seu, também foram transformadas pelo esporte.

Perto de 8 mil crianças já passaram pelo Projeto Saque Essa Ideia, criado por Badeco, nas últimas três décadas. São meninas e meninos dos bairros de Itajaí, muitos deles em situação de vulnerabilidade, que encontram nas raquetes e no vaivém das bolinhas uma oportunidade. Ao longo dos anos, muitos atletas que começaram a treinar nas quadras improvisadas do projeto se tornaram profissionais do tênis.

Card com fala do nós - Osvaldo cipriano, o Badeco,idealizador do projeto saque essa ideia
Foto: Arte / DC

No início, a ideia era incentivar meninos que, como Badeco, trabalhavam como boleiros nos clubes de tênis. Ele conta que chegou ao esporte por acaso, depois de ter trabalhado como vendedor de picolés e entregador de jornais na Capital. O emprego era bom: tinha salário fixo e, quando chovia, os boleiros eram dispensados do trabalho – os meninos podiam ficar em casa.

O tênis encantou Badeco. Quando não havia sócios no clube – na hora do almoço, ou aos domingos – o treinador dava aulas para ele e outros colegas. Dedicado e talentoso, o menino se destacou.

– O tênis era muito fechado naquela época. A gente treinava no paredão, boleiro não podia jogar na quadra – lembra.

Aos 16 anos, já atleta de tênis profissional, Badeco foi contratado por um clube de Chapecó. Pouco tempo depois, transferiu-se para o tradicional Clube Itamirim, em Itajaí, onde passou a dar aulas do esporte, em paralelo ao treinamento. Foi nesta época que ele percebeu que poderia ajudar alguém.

– Criamos o "boleirinho nota 10". Os boleiros que tiravam 10 na escola, em qualquer matéria, ganhavam uma aula de tênis. A cobrança para ter uma boa nota fez com que eles desenvolvessem o hábito da leitura, se preocupassem em estar num ambiente legal – diz o professor.

Os bons resultados levaram Badeco a estender o projeto para os bairros de Itajaí. No começo, cordas amarradas em árvores ou cercas faziam as vezes da rede nas comunidades carentes. Com o tempo, o projeto ganhou apoio e incentivo. Hoje, ele concilia o trabalho como treinador no clube com o voluntariado em uma entidade assistencial e na quadra pública de tênis – uma conquista do projeto.

Bolas e raquetes vêm de tenistas de Itajaí, Brusque e Blumenau, que doam materiais usados. No momento, 12 atletas que passaram pelo projeto Saque Essa Ideia fazem parte da equipe de alto rendimento do Clube Itamirim, para orgulho de Badeco. Mas ele diz que esse não é o objetivo principal.

– Queremos primeiro formar o cidadão. Nem todos conseguimos salvar, mas o esporte, assim como a música e a dança, muda a mentalidade, a forma de pensar. Para termos um país melhor precisamos disso – avalia.

Hoje, toda a família de Badeco está envolvida no projeto. Uma das filhas, que é
nutricionista, ajuda a formular os cardápios dos atletas carentes. Muitas vezes, as famílias pedem auxílio para comprar cesta básica ou pagar as contas de casa. Uma
realidade muito diferente da maioria dos atletas do tênis, esporte considerado de
elite – um estereótipo que Badeco faz questão de quebrar.

– Aqui todo mundo é igual. O que vale é o desempenho na quadra.
Em 30 anos de projeto social, ele diz que o segredo é "acreditar":

– Chega uma época em que você não tem apoio, e o mais fácil é desistir. O resultado é muito lento. Mas se eu tivesse desistido, esses meninos não estariam onde estão hoje. 


Como ajudar

O Projeto Saque Essa Ideia aceita doações de material esportivo: contato: ( 47) 99977- 5094 ( whatsapp)

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