SC tem maior queda da mortalidade infantil em 26 anos Marco Favero/Diário Catarinense

Anna com a filha Alice, que nasceu com 34 semanas

Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

O celular da enfermeira Daniela da Silva avisa a chegada de uma nova mensagem às 7h30min na sexta-feira, 20 de julho. A profissional da rede municipal de saúde de Lages acaba de receber uma foto da recém-nascida Alice, duas horas depois do parto. Daniela costuma estreitar relação com as gestantes das quais faz o acompanhamento pré-natal e mostra orgulhosa a foto da pequena. No caso de Anna Caroline Fernandes, mãe de Alice, esse vínculo foi fundamental. Ao sentir algumas dores, ela procurou Daniela, que percebeu o início do trabalho de parto e a encaminhou para a maternidade. 

— Se Daniela não tivesse visto a dilatação não sei o que teria acontecido com a bebê e comigo — diz Anna, de 32 anos, enquanto segura Alice, terceira filha, com sete dias de vida. 

 
Mais da metade das mortes em  bebês em SC poderia ser evitada

A criança nasceu de 34 semanas, com apenas 2,2 quilos e 43 centímetros. Prematura, veio ao mundo em uma cesárea de emergência, após enfrentar problemas de oxigenação. Além disso, a mãe sofreu de hipertensão arterial durante a gravidez, outro fator de risco para o bebê. Porém, com o acompanhamento pré-natal, Alice escapou de fazer parte de uma triste estatística: a da mortandade infantil. Em 2016, último ano com dados tabulados, o Estado teve a maior queda da taxa de mortalidade de crianças até um ano de idade desde 1990. O índice, que era de 9,9 mortes a cada mil nascidos vivos em 2015, passou para 8,8, uma redução de 11%. Na contramão do país, que em 2016 teve o primeiro aumento no indicador (5,2%) em um período de 26 anos, alcançando uma taxa de 14 mortes a cada mil nascidos vivos.

A redução gradativa destes indicadores em SC – em 1990, a taxa era de 33 mortes – está relacionada a diversos fatores, como maior acesso ao pré-natal e serviços de saúde, com postos e atendimento mais próximos da população. Além do estímulo ao aleitamento materno – que ajuda na alimentação e na imunidade dos bebês – e maior cobertura vacinal, o que diminuiu mortes por sarampo, por exemplo, destaca Carmem Regina Delziovo, coordenadora da Rede Cegonha e gerente de Coordenação da Atenção Básica do Estado. 

O presidente da Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP), Edson Carvalho de Souza, acrescenta a melhoria das condições socioeconômicas da população e da situação sanitária como avanços que levaram a este cenário de menos mortes de crianças no Estado. 

 Programa para redução de mortalidade infantil na Serra é destaque nacional 


Impacto do zika vírus

Em nota, o Ministério da Saúde confirma que a queda da mortalidade infantil nas últimas décadas está vinculada à implantação do SUS, redução na fecundidade e o aumento do emprego, renda e escolaridade.

A pasta afirma, no entanto, que a ampliação do número de mortes em 2016 no país reflete as consequências da epidemia do zika vírus, que causou microcefalia em bebês. "É também necessário esclarecer que as crianças são as que mais sofrem com as mudanças socioeconômicas", diz ainda a nota. No final de agosto, está agendada uma reunião com os secretários de Saúde dos Estados e municípios "para discutir a situação e estudar formas de ação mais urgentes".

Mesmo sem casos de zika vírus em SC, a doença também teve consequências, porém, na redução da mortalidade infantil do Estado. É o que aponta Carmem, que diz que, diante da epidemia no país, mulheres optaram por adiar a gravidez – em SC, a redução foi de praticamente 2 mil nascimentos, segundo dados do Datasus – e houve maior cuidado no pré-natal, o que reduziu o número de mortes de 965 para 834 entre 2015 e 2016:

— Mas não é algo que se mantém, porque nos dados preliminares de 2017 a gente volta ao patamar de 2015. Nós acreditamos que foi um comportamento dos casais com relação à preocupação com a doença, com isso houve uma busca maior pelo serviço de saúde e redução no número de filhos. 

Por mais que Santa Catarina apresente uma taxa de mortalidade considerada baixa pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e bem abaixo da média nacional, é necessário superar desafios para manter o índice nestes patamares. Desafio ainda maior para a serra catarinense, que tem mais óbitos infantis do que a taxa brasileira. Porém, se depender das iniciativas que despontam na região, mais Alices devem nascer saudáveis e contribuir para a melhora dos indicadores.

Foco no pré-natal e na capacitação

Para a coordenadora estadual da Rede Cegonha, Carmem Delziovo, SC precisa apostar ainda mais em treinamento dos profissionais da rede de atenção básica para reduzir o índice de mortalidade infantil. 

— O Estado já tem um número menor do que o Brasil de mortalidade. Agora, precisamos refinar nossa atenção, intensificar processos de capacitação e monitoramento — reforça.

O presidente da Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP), Edson Carvalho de Souza, defende que esse acompanhamento dos recém-nascidos, inclusive nas salas de parto, deveria ser feito por pediatras, que são profissionais habilitados. Por isso, teria que ser incluída essa especialidade no atendimento nas unidades de saúde – atualmente, o cuidado no pré-natal e das crianças é feito principalmente por enfermeiros e médicos de família. 

Além disso, defende que são necessárias mais UTIs neonatais no Estado. A presidente do Departamento Científico de Neonatologia da SCP, Leila Cesário Pereira, diz que são 226 leitos atualmente no Estado. O recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria são quatro leitos de UTI Neonatal por mil nascidos vivos. Assim, seriam necessárias 385 vagas, o que leva a um déficit atual de 159 leitos. Leila destaca ainda que a principal causa de internação é a prematuridade:

— Em 2016, 11% dos nascidos vivos em Santa Catarina eram prematuros, o que significa que nasceram por dia 30 bebês antes de completar as 40 semanas de gestação.
É fundamental investir em melhor qualidade da assistência pré-natal, na identificação e no tratamento das gestantes de alto risco. É necessário um alto investimento para adequar
o número e a distribuição dos leitos de UTI neonatal no Estado — defende Leila. 

Mas Carmem acredita que mais importante do que aumentar o número desses leitos é avançar na atenção do pré-natal:

— As duas coisas que podem diminuir ocupação de leito em UTI é qualidade de pré-
natal e atenção ao parto. Se quiser reduzir a mortalidade no Estado, não chega só investir em leito, tem que atuar na causa, que é a prematuridade e baixo peso. Então é preciso um pré-natal adequado, com identificação de infecção urinária, hipertensão, anemia e sífilis na gestação. Essas coisas a gente precisa tratar no pré-natal. 

Além disso, seria importante recorrer à cesariana apenas com indicação e reduzir
as intervenções desnecessárias na hora do parto, defende Carmem. O presidente da Associação Catarinense de Medicina de Família e Comunidade, Thiago Cherem Morelli, acredita que o caminho para melhorar os indicadores passa por investimentos em saúde, além de mais recursos destinados para educação e saneamento:

— Santa Catarina apresentou um processo importante de expansão da cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF) nos últimos anos, com uma taxa maior do que a média nacional, e esse, com certeza, foi um dos motivos da redução da taxa de mortalidade infantil no Estado. O maior desafio para o Estado será o de continuar esse processo de ampliação de suas equipes de saúde da família. 

Em nota, o Ministério da Saúde afirma que a atuação da ESF, que realiza atendimentos principalmente domiciliares em 98,6% do território nacional, é fundamental para reduzir os indicadores de mortes em crianças. São 42.855 equipes, em 5.497 municípios, que fazem acompanhamento das crianças e são capazes de solucionar até 80% dos problemas de saúde. 

Nascidos vivos em Santa CatarinaFoto:
Dados em Santa CatarinaFoto:


 Veja também
 
 Comente essa história