Cartas espanholas falam de condições sub-humanas em "campos de concentração" de SC Reprodução/Reprodução

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Documentos recém-descobertos no continente europeu mostram a relação estreita entre a Espanha e os alemães que viviam em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, o que coloca em xeque a neutralidade espanhola no conflito. O material está sob análise de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ajudará a resgatar uma parte da história brasileira marcada pelas perseguições aos imigrantes e pelo medo.

A partir de 1942, quando o Brasil declarou guerra ao Eixo - Alemanha, Itália e Japão - na Segunda Guerra Mundial, os imigrantes tornam-se oficialmente inimigos do Estado. O período é relatado nas cartas e comunicações diplomáticas da Espanha, que estão em análise por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). São a língua e os costumes que ditarão as prisões, e não apenas o apoio ao nazismo e ao fascismo. 

Os relatos de memória oral colhidos pela historiadora Marlene de Fáveri mostram que o medo e os castigos se espalhavam por delegacias em toda Santa Catarina. Uma das punições mais cruéis e temidas era ser “xaropeado”, obrigado a ingerir óleo diesel ou óleo de rícino, reservado aos rebeldes que insistiam em falar alemão.

Os que eram considerados subversivos ou perigosos eram afastados de suas cidades, obrigados a deixar o Estado – o que ocorria principalmente com membros do clero – ou presos. Dois “campos de concentração”, como ironicamente eram chamadas as prisões para os alemães nazistas, funcionavam em Santa Catarina, na Trindade, em Florianópolis, e no antigo manicômio Oscar Schneider, em Joinville. Outras prisões se espalhavam por todo o Estado, com características de trabalho forçado, falta de comunicação com a família e, em muitos casos, desconhecimento dos presos sobre as acusações que lhes pesavam. 

 Matéria especial para o  Nós sobre o envolvimento do governo espanhol na perseguição aos Alemães que viviam no Brasil na Segunda Guerra.
Armas recolhidas com imigrantes, especialmente em clubes de tiros de Santa CatarinaFoto: reprodução / Reprodução

Foi nesse cenário que a diplomacia espanhola, encarregada dos interesses da Alemanha no Brasil, passou a receber pedidos e informações dos imigrantes e descendentes de alemães. As relações estreitas entre os dois países vêm do período da Guerra Civil Espanhola, quando os nazistas apoiaram o governo franquista (de Francisco Franco) – uma parceria eternizada na obra Guernica, de Pablo Picasso, que retratou o horror de um bombardeio da força aérea nazista promovido por Franco, que deixou 7 mil mortos em 1937.

A Guerra Civil Espanhola serviu como um “laboratório” à Segunda Guerra Mundial para os alemães. Mas quando a guerra eclode, contrariando expectativas, Franco se coloca em posição de neutralidade.

– Os questionamentos sobre a neutralidade da Espanha têm uma força muito grande nos primeiros anos de conflito, entre 1941 e 1942. Quando a Alemanha não estava mais nas mesmas condições do início da guerra, há tendência do governo espanhol de relativizar essa aproximação. Só que são justamente os anos que coincidem com essa participação no Brasil – comenta Manoel dos Santos.

Documentos falam em torturas

13 ¿ carta de médico de Jaraguá do Sul pede ajuda para presos: ¿sexagenários e sem contato com a família¿Reprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
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A Espanha recebeu cartas como as que foram assinadas pelo médico Godofredo Luce, de Jaraguá do Sul, em 1942, relatando casos que envolviam seus conterrâneos. Em uma delas, ele pede apoio a um idoso, doente de tuberculose, que já vivia no Brasil há 20 anos, movimentava-se com a ajuda de uma muleta, e virou alvo da polícia. “Agora ele não somente foi saqueado pela soldadesca policial, mas também judiado”.

Em outra comunicação, Luce relata que os presos, “a maioria sexagenários, se encontram incomunicáveis”, e que os parentes dos detidos foram assustados pela polícia, por “torturas e ameaças”. As condições das prisões, aliás, são motivo para outras tantas cartas. Uma delas, escrita em alemão por um dos detentos, acompanhada da tradução para a língua portuguesa, diz que ele permaneceu 11 dias em uma cela em “condição de latrina”.

O preso afirma que não sabe o motivo pelo qual havia sido detido. Da casa dele, relata, foram levados pelos policiais “duas bíblias, três livros de cânticos luteranos, três coleções escolares de cartas geográficas e uma revista de jardinagem de 1883”.

Campos de Concentração em SC

Mais de 5 mil documentos inéditos e oficiais sobre a repressão aos alemães no Sul do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial estão expostos na Biblioteca Pública do Estado. Foram obtidos junto ao Arquivo do Governo da Espanha e enviados a Florianópolis pelo Instituto Carl Hoepcke, onde serão processados e disponíveis para pesquisas. Entre elas, a relação de alemães perseguidos e presos nos campos de concentração de Florianópolis (foto) e Joinville.
Instituto Carl Hoepcke mantém acervo que pertenceu a presos do campo de concentração da Trindade, em FlorianópolisFoto: Moacir Pereira / Reprodução

- Em todo o país, de 1942 a 1945, o governo de Getúlio Vargas perseguiu e prendeu mais de 3 mil alemães, italianos e japoneses em espaços que ganharam o nome de “campos de concentração”, em sete Estados. O período de funcionamento das prisões políticas corresponde aos anos em que o Brasil esteve declaradamente em guerra contra Alemanha, Itália e Japão.

- Em SC, estima-se que mais de 200 pessoas foram detidas no presídio da Trindade, em Florianópolis – espaço que deu lugar a prédios da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – e no antigo manicômio Oscar Schneider, em Joinville. O edifício ficava no Bairro Atiradores, no terreno onde hoje está o Cemitério Municipal de Joinville. 

- Documentos da época, aos quais os pesquisadores só tiveram acesso depois de 1996, relatam trabalho forçado e episódios de tortura nos campos de concentração brasileiros. O Oscar Schneider era, aparentemente, a prisão com melhores condições no país. Na Trindade, há registros de um tratamento mais hostil aos prisioneiros. As comunicações diplomáticas espanholas falam, por exemplo, em confinamento e risco de epidemias.

- Além dos “campos de concentração”, imigrantes foram levados a delegacias, onde eram, interrogados e, muitos deles, torturados por agentes da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS).

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