Documentos revelam que a Espanha ajudou alemães em SC durante a Segunda Guerra Reprodução/Reprodução

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Quarenta mil documentos, encaixotados e esquecidos por mais de 70 anos no Arquivo Geral da Administração da Espanha, na cidade de Alcalá de Henares, trazem agora à luz detalhes sobre um período, senão obscuro, pouco conhecido da história brasileira e dos alemães em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que tiveram acesso ao arquivo, analisam recibos, correspondências e recortes de jornais cuidadosamente guardados, mas nunca antes catalogados, que detalham as relações da diplomacia espanhola com os alemães no Brasil – e colocam em xeque a já questionada neutralidade da Espanha durante o conflito.

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Governada pelo general Francisco Franco, um ditador com inclinações fascistas, e recém saída de uma violenta guerra civil, a neutralidade parece ter sido uma escolha econômica e estratégica para a Espanha. A história, no entanto, aponta para um papel dúbio, em que o país se posiciona de um lado ou outro do conflito em diferentes momentos. Ao menos no Brasil, longe dos holofotes da guerra, a papelada mostra que a Espanha assumiu apoio e suporte ao Reich alemão.

08 ¿ o cônsul Federico Gabaldón escreve ao delegado do DOPS, Lara Ribas, alertando para o risco de uma epidemia no campo de concentração da Trindade, em FlorianópolisReprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
Cônsul espanhol em Porto Alegre alerta o delegado de Ordem Política e Social sobre o risco de epidemias na prisão da CapitalFoto: Reprodução / Reprodução

Os documentos datam do período entre 1942 e 1945, época em que os espanhóis responderam oficialmente pelos interesses diplomáticos da Alemanha no Brasil. Getúlio Vargas havia colocado o país em guerra contra o Eixo – Alemanha, Japão e Itália –, em apoio aos Aliados. Os países, agora inimigos, tiveram seus diplomatas expulsos. E os imigrantes, do dia para a noite, passaram a ser inimigos em potencial.

– Ser alemão, naquele momento, colocava o indivíduo sob os holofotes. Era ser nazista, embora muitos, se questionados, não tivessem a menor ideia do que era o nazismo – diz o historiador João Klug, pesquisador da UFSC e um dos coordenadores do projeto História Repatriada, que resgata a história do conflito pelas lentes da documentação espanhola.

Registros do apoio não existiam até agora

Era de praxe que um país declaradamente neutro representasse os interesses de imigrantes de países envolvidos na guerra. Portugal, por exemplo, passou a atender os brasileiros que viviam na Alemanha. A Suíça assumiu os interesses dos italianos no Brasil, e a Espanha passou a responder pela diplomacia alemã e japonesa. É o que conta a história. O que não se sabia, até então, é que o papel dos espanhóis foi muito além.

Às nações neutras cabia cuidar de questões burocráticas e da emissão de passaportes para os cidadãos dos países em guerra. Mas os alemães que estavam no Brasil também contavam com a Espanha para o acompanhamento dos presos políticos, considerados partidários do nazismo, e para diversos tipos de auxílio financeiro – desde o pagamento de aluguéis e ajuda na alimentação das famílias dos detentos, até pensões de ex-combatentes alemães da 1ª Guerra Mundial que viviam no país. Estranhamente, esse tipo de apoio até então não tinha registro na historiografia oficial brasileira ou espanhola.

Período sombrio

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Livros escritos em alemão ou italiano, apreendidos pela polícia política da era Vargas em SCFoto: reprodução / Reprodução

A pesquisadora argentina Elda Gonzalez Martinez, que integra o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, foi a primeira a ter acesso aos documentos, encaixotados desde a época da ditadura espanhola do general Franco. Em 2015, durante um congresso sobre imigração na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, ela comentou sobre o achado, que instigou pesquisadores gaúchos e catarinenses. Coube a Manoel Teixeira dos Santos, pesquisador da UFSC, viajar à Espanha para avaliar de perto a documentação.

Foram três meses mergulhado entre as caixas, separando e digitalizando documentos em meio ao rigoroso sistema de identificação de pesquisadores no arquivo espanhol. Parte dos papéis escolhidos voltou com ele ao Brasil. Outros ainda têm chegado periodicamente da Espanha pelos Correios, já digitalizados e reunidos em CDs. A papelada digital passa pela análise e seleção de alunos de graduação e mestrado do Departamento de História da UFSC.

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São documentos oficiais e cartas escritas à mão, em português, espanhol e alemão que, entre pedidos de ajuda e comprovantes de auxílio financeiro, retratam as dificuldades que os imigrantes enfrentaram durante os anos em que o Brasil esteve declaradamente em guerra contra o Eixo. Era um período sombrio.

A política do governo Vargas durante o Estado Novo, a partir de 1937, já adotava medidas nacionalistas que incluíam a repressão às comunidades de imigrantes. Os alemães formavam grupos fechados onde mantinham vivo o idioma e os costumes da pátria-mãe, o que não combinava com o esforço do governo de “abrasileirar” o país.

Do lado dos imigrantes, era em parte uma maneira de manter a “germanidade” em solo brasileiro. Mas era também a vida possível, diante da falta de políticas públicas. Nesse período, escolas e a circulação de jornais em alemão foram proibidos – o que se agravou com a guerra.

– Desde 1857 os imigrantes reivindicavam escolas para ensinar aos filhos a língua portuguesa, mas o governo se omitiu. Eles passaram então a criar as próprias escolas, em alemão. Nesse período (do Estado Novo), o governo fechou de uma só vez mais de 200 escolas alemãs. O Estado, que era ausente, passa a estar presente, mas de forma truculenta – avalia Klug.

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