Governo abriu mais de 6 mil processos contra catarinenses durante a Segunda Guerra reprodução/Diário Catarinense

Em Itajaí, imigrantes presos carregam seus rádios _ ouvir programas em alemão era crime

Foto: reprodução / Diário Catarinense

Documentos que revelam as relações entre a Espanha e os alemães no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, e que estão sob análise de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ajudarão a resgatar uma parte da história brasileira marcada pelas perseguições aos imigrantes e pelo medo.  Ao declarar guerra aos países do Eixo – Alemanha, Itália e Japão – o Brasil reforçou as medidas de nacionalização forçada que já vinham desde o início do período do Estado Novo, em 1937. A consequência foram prisões e  processos contra milhares de alemães em Santa Catarina. 

Na obra “Memórias de uma (outra) guerra”, de 2004, a historiadora Marlene de Fáveri fala sobre as tensões que existiam nas cidades catarinenses. A convivência entre brasileiros e imigrantes já era marcada por desentendimentos e desconfiança mútua quando, em 28 de janeiro de 1942, um edital da Segurança Pública de Santa Catarina proíbe, por ordem federal, os colonos de falar, cantar ou cumprimentar em japonês, italiano e alemão. Era parte da estratégia de combate aos “inimigos”, que tinha como principal meta enfraquecer o apoio ao nazismo e ao fascismo no Estado.

A política do governo Vargas para reforçar a figura do inimigo era, no mínimo, curiosa. Marlene cita um ofício enviado pela 5ª Região Militar a Nereu Ramos, o interventor – cargo que substituiu o do governador em Santa Catarina – alertando para a necessidade de uma “preparação psicológica” da população. Ataques aéreos simulados, quando sirenes tocavam e todos tinham que se esconder, e boatos sobre submarinos nazistas que rondavam a costa de Santa Catarina ajudaram a criar o clima de guerra. A historiadora relata que, mesmo tão distantes, os catarinenses tinham a sensação de participarem do conflito.

– O Estado, pelo Getúlio Vargas, Nereu Ramos e a polícia política, trabalhava na produção do imaginário do medo. A polícia alertava a população de que os nazistas estariam na costa com submarinos, que jogariam bombas, obrigavam as pessoas a ficar no escuro, para que o avião não as percebesse. O povo acreditava nisso, e tinha medo – diz.

 Matéria especial para o  Nós sobre o envolvimento do governo espanhol na perseguição aos Alemães que viviam no Brasil na Segunda Guerra.
O sobrevoo de zepelins em cidades catarinenses fazia parte da estratégia de progaganda nazista pré-guerraFoto: reprodução / Reprodução

Em cidades como Florianópolis, Joinville e Blumenau, atos públicos contra os “traidores”, “alienígenas” ou “quinta-coluna”, como passaram a serem denominados os imigrantes, resultaram no apedrejamento de casas, pichações em muros e quebra-quebra de placas de ruas e lojas que ostentavam nomes alemães.

Membros de grupos simpatizantes ou declaradamente nazistas foram presos neste período, em diversas cidades catarinenses. Mas também muitos imigrantes que, por descuido ou desconhecimento, escorregavam na fala, ouviam rádio em língua estrangeira ou mantinham livros, jornais e revistas escritos em “língua inimiga”.

Os números são incertos, porque muitos dos registros se perderam, ou não foram catalogados. Mas a estimativa é que, somente no primeiro ano de perseguição, entre 1942 e 1943, mais de 6 mil processos tenham sido instaurados em Santa Catarina contra os imigrantes pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Adotou-se a lógica da suspeição, em que falar alemão ou italiano era um atentado à soberania nacional.

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Multidão acompanha a bandeira nazista em parada festiva no interior do Vale do Itajaí. A partir da instituição do Estado Novo, em 1937, os partidos políticos são proibidos, e manifestações como essa tambémFoto: reprodução / Reprodução

Sueli Petry, diretora de Patrimônio Histórico e Museológico da Fundação Cultural de Blumenau, diz que as pessoas acreditavam que Santa Catarina estivesse nos planos de expansão do Reich alemão. Uma crença reforçada pela ampla propaganda nazista que se multiplicava nas colônias de imigrantes desde antes da guerra. Em 1934 e 1936, por exemplo, dois balões zepelins enfeitados com a suástica sobrevoaram cidades catarinenses – era uma maneira de mostrar ao povo alemão que vivia na América que o país era forte novamente.

– Aqueles que vieram de uma Alemanha decadente viraram os maiores simpatizantes do nazismo em Santa Catarina – analisa Sueli.

Favoráveis a Hitler eram minoria, diz pesquisador

Matéria especial para o  Nós sobre o envolvimento do governo espanhol na perseguição aos Alemães que viviam no Brasil na Segunda Guerra.
A bandeira do partido nazista fazia parte do cotidiano de parte dos imigrantes alemães. Na foto, trabalhadores rurais acompanhados do símbolo que, para muitos deles, representava a retomada de crescimento na Alemanha e o ideal nacionalista _ que culminou com o holocaustoFoto: Reprodução / Reprodução

Empresários e outras figuras importantes da sociedade da época abraçaram as ideias nazistas e integralistas (movimento com ideias fascistas) em Santa Catarina. Oficialmente, o Partido Nazista tinha mais de 500 inscritos no Estado, entre eles intelectuais da época. Numa tentativa de enfraquecê-los economicamente, o governo publicou a “lista negra”, uma relação de empresas que mantinham relações comerciais ou políticas com a Alemanha. Funcionários e industriais foram afastados e presos, sob a acusação de colaborar com os alemães. Mas nem todos os imigrantes compactuavam das mesmas ideias. Para o superintendente do Instituto Carl Hoepcke, em Florianópolis, Max Müller, os simpatizantes de Hitler eram minoria.

– Colocaram-se injustamente todos na mesma panela. Houve reações violentas, inclusive de alemães que não aceitavam o regime que estava vigente na Alemanha. No Clube Germânia (na Capital), todos os sócios declarados do nazismo foram expulsos.

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