Judeus que perdiam cidadania alemã durante a guerra recorriam aos espanhóis em SC Reprodução/Reprodução

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Documentos recém-descobertos no continente europeu mostram a relação estreita entre a Espanha e os alemães que viviam em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, o que coloca em xeque a neutralidade espanhola no conflito. O material está sob análise de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ajudará a resgatar uma parte da história brasileira marcada pelas perseguições aos imigrantes e pelo medo. 

Cartas recebidas pela diplomacia espanhola no Brasil, que relatam más condições nas prisões políticas de SC durante a Segunda Guerra Mundial - chamadas de "campos de concentração" - levaram a questionamentos da Embaixada da Espanha ao governo brasileiro – e a visitas de inspeção do próprio cônsul da Espanha em Porto Alegre, Federico Gabaldón, aos campos de concentração. Os documentos fazem parte do acervo do projeto História Repatriada, que trouxe a papelada do Arquivo Nacional Espanhol para pesquisas, na Univeridade Federal de Santa Catarina.

Os documentos mostram que, em fevereiro de 1944, o cônsul escreve a Antônio de Lara Ribas, delegado do DOPS em Florianópolis, intercedendo pelos presos que, naquela ocasião, estavam em confinamento, e alertando para o risco de alguma epidemia.

Do consulado de Porto Alegre saíram diversas listas com os nomes e profissões de todos os presos políticos em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul, que eram enviadas ao Ministério das Relações Exteriores na Espanha e, de lá, de alguma forma chegavam à Alemanha. A documentação mostra que os espanhóis forneciam consultas médicas, dentaduras, carteiras de cigarro, leite condensado e chocolate para os presos.

– Tudo isso reforça as dúvidas sobre a neutralidade da Espanha, e também pode nos apontar que (essa assistência) talvez dependesse de quem estava envolvido. Durante todo o período em que se concentram esses documentos, o cônsul espanhol em Porto Alegre é Federico Gabaldón – comenta Manoel.

 Matéria especial para o  Nós sobre o envolvimento do governo espanhol na perseguição aos Alemães que viviam no Brasil na Segunda Guerra.
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É de Gabaldón uma comunicação oficial, em 1943, ao vice-cônsul de São Francisco do Sul comentando uma nota do jornal A Notícia, em Joinville. A reportagem dizia que as autoridades locais não reconheciam as ações da Espanha como representante dos alemães. Galbadón pede que o vice-cônsul desconsidere a notícia e que acate as decisões tomadas pelo Consulado. Um recorte dessa nota, assim como muitas outras reportagens de jornal, fazem parte do acervo de documentação espanhola.

 03 ¿ pedido de homem judeu para que fosse declarada a perda de cidadania alemã. Desta forma, poderia requisitar nacionalidade brasileira.Reprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
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Coube à Espanha, também, atender pedidos de alemães judeus que haviam imigrado para o Brasil. Hitler determinou que todos os judeus perdessem a nacionalidade, e eles precisavam de uma declaração oficial de que não eram mais cidadãos alemães para requisitar nacionalidade brasileira. São documentos que transcrevem as cruéis políticas nacionalistas alemãs, mesmo no Brasil.

Saudações de Natal para prisioneiros de Joinville

09 ¿ Gabaldón avisa o vice-consulado da Espanha em Florianópolis que deve emitir as felicitações de Natal aos prisioneiros do ¿campo de concentração¿ Oscar Schneider, em Joinville, e entregar a cada um deles 30 cruzeiros.Reprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
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As comunicações trazem um curioso retrato da relação estreita entre os dois países, ainda que extraoficial. Como no ofício enviado pelo cônsul Federico Gabaldón pedindo que fossem entregues felicitações de Natal aos prisioneiros do Oscar Schneider, em Joinville, em nome do Reich alemão.

Em outra carta, o Ministério das Relações Exteriores da Espanha determina que sejam pagos oito marcos a cada descendente de alemães, com menos de 18 anos, cujos pais tenham prestado serviço militar. A Embaixada espanhola também questiona o consulado sobre 11 catarinenses processados por comemorar o aniversário de Hitler – o embaixador queria saber se todos tinham condição de pagar um advogado.

 06 ¿ a Embaixada espanhola avisa o consulado de Porto Alegre que, por ordem do Ministério de Relações Exteriores da Espanha, serão pagos oito marcos (o equivalente a 48 cruzeiros) a todos os menores de 18 anos cujos pais prestaram serviço militar na Alemanha, como subsídio à família.Reprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
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Ainda não é claro para os pesquisadores quais eram os reais interesses dos espanhóis ao atuar em favor da Alemanha, e que acordos estavam em jogo. É possível que se tratasse de uma “aposta” a longo prazo, uma garantia de parceria caso o Eixo vencesse o conflito. Mas também pode ser que esse apoio tivesse cunho pessoal. Embora as ideias de Franco se aproximassem do nazismo, houve setores do governo espanhol que apoiaram a Inglaterra – e, portanto, o bloco dos Aliados – durante a guerra. A hipótese é de que a diplomacia espanhola no Brasil tivesse uma maior proximidade do Reich.

Chama atenção dos pesquisadores que, até assumir os interesses alemães, o papel da diplomacia espanhola no Brasil, especialmente no Sul do país, era pequeno. Mas, quando passa a representar a Alemanha, a Espanha revoluciona seus serviços consulares. Contrata tradutores e começa a emitir um grande volume de documentos – quase todos eles, provenientes do Consulado Espanhol em Porto Alegre, no Rio Grande de Sul, que atendia Santa Catarina. Curiosamente, o mesmo não ocorre com os imigrantes japoneses, que também eram representados pela Espanha neste período.

 12 ¿ bilhete de Edith Gaertner cobrando o pagamento do aluguel pelo prédio da embaixada alemã em Blumenau.Reprodução de documentos que provam que a Espanha estava do lado dos Alemães na segunda guerra mundial
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Os papéis mostram que o consulado espanhol contratou advogados caros, do Rio de Janeiro, para defender presos políticos acusados de nazismo. Uma das comunicações mostra a cobrança dos honorários por parte de um deles, em 1945. A resposta foi que, terminada a guerra, a Espanha já não tinha responsabilidade pelo pagamento.

Naquele período, todas as contas bancárias que pertenciam à diplomacia alemã no Brasil passaram a ser gerenciadas pela diplomacia espanhola. É a Espanha que assume, por exemplo, os aluguéis dos prédios que eram ocupados pelos diplomatas alemães – o que 

fica claro em um bilhete de cobrança, assinado em 1944 por Edith Gaertner, dona do imóvel onde funcionava o Consulado Alemão em Blumenau. Dias depois de enviado o bilhete, uma comunicação oficial dá conta de que foi feito o pagamento.

O inesperado fluxo de dinheiro, aliás, é algo que tem chamado atenção dos pesquisadores. São recibos de uma série de serviços, desde o pagamento de consultas e tratamentos médicos para os presos políticos, honorários de advogados e até pensões para famílias alemãs. Nesses casos, a Embaixada muitas vezes reconhecia que o pagamento era devido, mas informava que não havia dinheiro. De uma hora para outra, o recurso aparecia.

– Há uma hipótese de que o dinheiro alemão continuava chegando ao Brasil. Fica claro, a partir desses documentos, que há uma rede de conexão, mas ainda precisamos analisar isso de forma mais cuidadosa – diz Manoel.

Medo ficou vivo

A falta de referências na história oficial de Santa Catarina sobre a relação com os espanhóis prova que há muito a se descobrir, ainda, em meio aos documentos. Para a historiadora Marlene de Fáveri, é possível que esses fatos tenham permanecido às escuras porque muitos papéis sumiram no Brasil após a guerra.

– Sabemos que muitos foram queimados, inutilizados, principalmente os que mostravam mais ligação com o nazismo e que comprometiam pessoas de alto escalão – diz.

Além disso, falar sobre as relações com a Alemanha era “tabu”. Embora o período sombrio de perseguições tenha terminado com a guerra, no imaginário dos imigrantes o medo permaneceu vivo – o que pode ajudar a explicar por que essas cartas trocadas com os espanhóis desapareceram, inclusive, da memória oral catarinense.

– É de um ineditismo fantástico. Os documentos levantam aspectos interessantes, polêmicos, que ficaram num certo limbo. Nos fazem lembrar que a história tem seus traumas – comenta Anita Hoepcke da Silva, presidente do Instituto Carlos Hoepcke, que se dedica à pesquisa e preservação da história da imigração alemã no Estado.

Até o próximo sábado, 8 de setembro, parte dos documentos está em exposição na Biblioteca Pública de Santa Catarina, em Florianópolis. Depois, serão disponibilizados para pesquisas presenciais no Instituto Carl Hoepcke, também na Capital.

Dos documentos, é possível fazer novas leituras sobre a vida dos imigrantes em SC, sobre a neutralidade da Espanha, sobre a guerra e – por que não? – até mesmo sobre a atuação brasileira no conflito. Embora declaradamente ao lado dos Aliados, de alguma maneira o governo brasileiro permitiu que os alemães continuassem a ser assistidos, inclusive economicamente. E essa história ainda espera para ser contada.

Documentos recém-descobertos no continente europeu mostram a relação estreita entre a Espanha e os alemães que viviam em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial, o que coloca em xeque a neutralidade espanhola no conflito. O material está sob análise de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ajudará a resgatar uma parte da história brasileira marcada pelas perseguições aos imigrantes e pelo medo. 03 09 2018
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