"Eu não sabia do tráfico de bebês", afirma mulher condenada por envolvimento no esquema de adoções ilegais Guto Kuerten/Agencia RBS

Arlete narra os dramas que viveu em função do episódio no qual ela esteve no epicentro

Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS

Palmas da calçada e os cachorros latem. O endereço em Balneário Piçarras é de Arlete Hilu, e ela mesma se dirige ao portão. A reportagem do Diário Catarinense está diante da mulher presa por dois anos, condenada por formação de quadrilha e envolvimento no tráfico de bebês nos anos 1980.

De saída, diz que não deseja dar entrevista, mas por 40 minutos fala sobre o episódio que manchou a história do Brasil. Diz que todas as crianças passaram pelo Juizado de Menores e as mães biológicas assinaram a desistência do pátrio poder. "Tudo uma coisa amarrada a outra. Não é bem assim como eles estão pensando. Os pais que estavam adotando estavam bem cientes." Leia trechos da conversa:

Diário Catarinense — Esses jovens em Israel têm uma vontade grande de encontrar as famílias.

Arlete Hilu — Pois é... Muitos deles passam e-mail pra mim, mas eu não quero mexer com isso. (Na época) me pegaram como Cristo. Fui pega como bode expiatório porque eu fiz e assumi. Disse pro juiz que fiz e sabe o que ele me disse: sabe por que estou lhe condenando? Pra sua segurança. Se a senhora for amanhã ali na rua vão lhe linchar. Ele me condenou por ouvir dizer, não tiveram provas. Consegui achar uma das mães para que falasse ao juiz por que deram as crianças. O Juizado esteve presente e mostrou a documentação e os processos feitos, a PF também prestou depoimento, foram investigados. Eu vou fazer o que se a mãe quis dar? Não tenho nada para falar, porque o que eu tinha que pagar já paguei. Não foi pouco o que eu sofri com isso. Aqui em Santa Catarina, o bode expiatório é o Carlos Cesário. Lá de Israel até hoje recebo e-mails pedindo ajuda, mas eu não quero mais. Eles tinham uma intérprete, em Curitiba, uma judia. Ela que conseguiu esses casais, ela que fazia o serviço de colocar casais nos hotéis e depois eu só ia lá para tratar, pois eu não falava hebraico nem nada. Depois fiquei uns seis ou sete meses em Israel.

DC -— Por que Israel?

Arlete — Não sei. Parece que eles têm um problema, não sei, mas lá é muito comum. Tem gente fazendo, não tem?

DC — Ainda tem?

Arlete — Não sei, mas deve ter...

DC — E essa experiência da prisão?

Arlete — Foi uma maravilha. Eu mesmo pedi para o diretor da prisão, em Blumenau, que eu queria ficar trabalhando lá. No terceiro dia, por causa do curso superior, me tiraram do cadeião e me colocaram como secretária do segurança da cadeia. Fazia de tudo, até saía pra fazer compras para os presos. Depois que eu saí reclamaram, pois tiveram que contratar três funcionárias. Eu queria continuar trabalhando lá, mas o juiz não quis.

DC — A senhora se arrepende de algo?

Arlete — Nada. Tive uma experiência de vida muito sofrida. Vim de uma família tradicional sem conhecer a maldade. De repente, me vi enrolada em uma trama.

DC — A senhora sabia desse rolo?

Arlete — Que rolo? Tráfico de crianças? Não, nem sabia disso, nunca tinha ouvido falar, fui saber quem estava fazendo dentro do Juizado de Menores. Comecei querendo ajudar as mães.

DC — E o que a senhora acha do sofrimento desses jovens?

Arlete — Na realidade, vamos ser bem sinceras, eles foram laranjas. Foram adotados recém-nascidos, não estavam sabendo de nada. Eles têm todo o direito de saber da família deles. Mas uma coisa é certa, muitas mães que deram essas crianças não existem mais. Muitas morreram porque a vida dessas mulheres era precária, tinham um filho atrás do outro, as próprias mães não queriam saber deles. Eles têm de tudo lá. O que essa gente quer da vida? A vida que eles têm de reis e príncipes, o que eles seriam aqui? Marginais.

DC — A senhora não tem anotações da época? Não tem como identificar essas pessoas?

Arlete — Eu não tenho como. Isso tinha um juizado para fazer.

DC — Os documentos eram falsos?

Arlete — Falsos? Então como eles conseguiram passaporte?

DC — Como a criança saia do Brasil sem a mãe?

Arlete — Todos os processos que eu fiz foram dentro do Juizado de Menores. A PF dava passaporte. Se fosse documento falso, a PF não daria passaporte. Tudo legalizado.

DC — Dizem que a senhora foi responsável por mais de duas mil adoções?

Arlete — Que beleza, estaria hoje super-rica. Enquanto esse advogado (do Juizado) cobrava US$ 5 mil, eu cobrava as despesas. Tem criança que eu tive que hospitalizar, com problemas de saúde.

DC — Como as crianças saíam do hospital sem a mãe?

Arlete — Eles deixavam. Existia uma máfia dentro do hospital, que já tinha as pessoas certas. Venham buscar porque já nasceu.


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