Choro, medo, silêncio e horror: o clima na Costeira após a chacina Felipe Carneiro/Agencia RBS

Na manhã de quinta-feira, PM monitorava a área onde ocorreu a chacina, na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Minutos após o estampido dos disparos de pistolas e fuzis que mataram três homens e feriram gravemente outros três, na Costeira, em Florianópolis, na noite de quarta-feira, seguiu-se uma busca desenfreada de moradores da comunidade por informações sobre a identidade das vítimas daquilo que policiais consideram uma chacina patrocinada pelo tráfico de drogas na Capital. Todos tinham medo de que entre os mortos e feridos estivesse um familiar, amigo ou conhecido. Em muitos casos, havia.

Por volta de 22h de quarta-feira, enquanto o rabecão do Instituto Médico Legal (IML) se preparava para subir a íngreme Servidão Maycon Francisco Pereira, tradicional via de pontos de venda de drogas na Costeira, moradores recebiam nos celulares fotos das vítimas que circulavam em grupos de WhatsApp. O celular passava de mão em mão até que uma jovem de 20 e poucos anos, grávida, irrompeu em choro e gritos desesperados ao ver na tela do telefone o pai de seu filho – baleado e morto. Em choque, a mulher foi retirada do local e levada para atendimento médico. O homem que mostrou as fotos acabou repreendido por moradores. 

— Por que você foi mostrar pra ela? Tá louco! — diziam a ele. 

Em meio ao vai-e-vem de policiais, peritos e socorristas, apareciam mulheres e homens em prantos pedindo para passar o cordão de isolamento e conferir a identidade das vítimas no alto do morro. Havia momentos em que a descida era mais dolorosa do que a subida, pois ali já se tinha certeza do pior.

— Era meu sobrinho, morreu — disse uma senhora.

Jovens também chegavam de outros pontos do morro e, antes de subir a servidão, eram revistados por policiais militares, que perguntavam "tem passagem?", fazendo referência a registros anteriores de conduta junto à polícia. Diante das negativas, liberavam o caminho de amigos dos mortos e feridos. Enquanto um desses jovens chorava compulsivamente, uma senhora com mais de 50 anos dizia, junto a outras pessoas do bairro: 

— Tá chorando por quê, se sabe que nessa vida é cadeia ou cemitério?

Já eram quase 23h de quarta-feira e o rabecão do IML ainda estava no alto da servidão onde aconteceu o ataque. Um a um, os corpos eram retirados do interior de uma casa e colocados no veículo. Horas depois, já na manhã desta quinta-feira, o que se via, além do silêncio profundo da maioria dos moradores, eram marcas de sangue em uma parede e um boné jogado no local onde um dos feridos caiu depois de descer o morro em fuga.

Para uma senhora que prefere não se identificar, moradora há 34 anos da Costeira e cuja casa fica próxima ao local das mortes, não resta outra saída que não procurar outro lugar para morar, "bem longe da Costeira". A casa, própria e erguida com anos de trabalho, talvez fique abandonada no local, já que a mulher tem poucas esperanças de encontrar um comprador.

— Quem vai querer morar no meio do fogo cruzado? — indaga.

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

"Se vier facção pra cá o negócio vai ficar difícil", diz morador

Entre moradores da Costeira, a maior preocupação é com as informações dando conta de que o ataque partiu de uma facção criminosa que tenta ocupar o espaço das lideranças do tráfico na Costeira, historicamente comandado por membros ligados ao traficante Neném da Costeira. As pessoas temem uma "guerra" pela disputa por pontos de vendas de drogas na comunidade. 

A servidão onde aconteceu o ataque é conhecida como a "rua do Neném", onde funcionam bocas de fumo que servem para vender, embalar, misturar e armazenar drogas. Sobre a maneira como os criminosos fizeram o ataque, o tenente-coronel Marcelo Pontes diz que há dúvidas em relação à estratégia usada pelo bando que atacou os rivais. 

Uma das hipóteses é uma emboscada, na qual os criminosos teriam subido para o alto do morro por outra servidão e encontrado as vítimas em um ponto acima do que elas estavam e desprotegidas. Pontes pondera, no entanto, que os grupos podem ter marcado uma reunião na boca de fumo do alto da Costeira.

— Em tese, pode ter sido marcada uma reunião aqui ontem. O encontro era na boca. E dentro da reunião pode ter sido uma emboscada ou pode ter sido uma desavença na reunião. Nós temos áudios de suspeitos falando de AR (um código para reunião), que seria reunião, e pedindo ajuda de criminosos, para que colocassem fogo em veículos ou chamassem a atenção da polícia, para eles poderem fugir — explica Pontes.

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