Se antes o rap era apenas música de jovens negros de periferia, com rimas que denunciavam a violência e a desigualdade social, hoje é também um gênero cantado (e adorado) pelos brancos de classe média e celebrado pela mídia. Isso se deve em grande parte a uma geração que deu um passo em direção ao equilíbrio: por que não usar o sistema para desmitificar estereótipos? Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, é talvez o principal nome dessa nova cena do hip hop nacional. O músico se apresenta neste domingo em Florianópolis pelo projeto Floripa Tem. O show, marcado para as 17h, tem participação de Rael e será na Av. Beira-Mar Norte, próximo ao trapiche.

Aos 32 anos, Emicida acaba de completar uma década de carreira marcada pela quebra de paradigmas: apareceu na TV Globo, criou uma gravadora e uma grife (Laboratório Fantasma, em parceria com o irmão Fioti) cuja coleção de roupas ganhou um desfile no São Paulo Fashion Week 2017, fez parcerias com músicos da MPB, teve uma canção indicada ao Grammy Latino (A Chapa é Quente, em parceria com Real).

 Nada disso, no entanto, deslumbra o rapper. Nessa entrevista ao Diário Catarinense, o paulistano sustenta um discurso coeso em relação ao que seu nome representa na cena do entretenimento brasileiro. Absteve-se de responder perguntas mais polêmicas enviadas pela reportagem, algumas relacionadas à política, capitalismo e às críticas que recebe. Apesar disso, parece não se abalar com comentários maldosos por ter virado um artista pop.

Emicida acredita que o rap pode pertencer ao panteão da cultura do Brasil como qualquer outro gênero e faz uma provocação ao ser questionado sobre o tom mais pacífico do rap na contemporaneidade: “essa função social, que cobram dos artistas periféricos na música rap, não deveria ser uma obrigação de toda a sociedade?” 

Te chamam de “uma das maiores revelações do hip hop do Brasil dos últimos tempos.” É uma responsabilidade. Como o Leandro Roque de Oliveira enxerga o Emicida?

 Não tenho o hábito de dividir isso. Sei da responsabilidade que é ser ouvido por tanta gente e procuro contribuir com algo positivo. O mundo já tem muito caminho ruim e acessível, ter a oportunidade de oferecer um copo de água limpa é uma honra. Sou um samurai, um ronin, recito um trecho do Hagakure [livro escrito por Yamamoto Tsunetomo, samurai japonês do século 17] todos os dias e eu realmente não me divido entre Leandro e Emicida. São coisas indivisíveis, o Emicida não é um personagem inventado para o palco, é o grito mais forte da minha própria personalidade. Os rótulos eu sempre deixei a cargo dos outros. Isso não passa de uma grande distração, tudo isso é efêmero, num ambiente tóxico e oportunista muitas vezes — 

o maior disso, o rei daquilo, nada disso me emociona. Me interessa ser um ser humano melhor e, no caminho de me tornar esse ser humano melhor, vai saindo música.

Foi a musicalidade, a arte ou o discurso do rap que te atraíram?

Todas as alternativas acima. Querer ter um tênis bacana e sair com umas meninas também (risos). O hip hop é uma arte muito generosa e convidativa. É até por isso que não estranho que ele atraia tantos turistas. O primeiro rap que me lembro foi o MC Pepeu cantando nomes de menina, rap de festa, diversão. Era algo que tinha a força de nos unir pela celebração, mais coração do que cerebral. Não que isso signifique ser menos, acho inclusive que a espontaneidade e a liberdade do rap brasileiro na primeira metade dos anos 1980 parecem estar renascendo agora. Foi muito importante a construção da atmosfera política que cerca nosso criar, isso nos deu o respeito que temos e a solidez para existir para além do entretenimento. Essa liberdade divertida do rap brasileiro oitentista que tinham Ndee Naldinho, Pepeu e Maike, Black Juniors entre outros se funde com a responsabilidade e densidade de caras como Rappin Hood ou Racionais e geram personagens como o Djonga, Brisa Flow, ou Coruja BC1, por exemplo. Esses são artistas que estão arrebentando tudo com suas canetas hoje, tirando onda e passando várias visões importantes. 

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Foto: Daryan Dornelles / Divulgação

 Tua aparição na TV Globo foi um divisor de águas para o rap nacional. Essa abertura com a mídia foi intencional?

 Para mim, esse é o diferencial da minha geração: a possibilidade de um diálogo mais amistoso com a mídia. A televisão é uma arma, se conseguir usá-la a nosso favor, usarei. Isso não significa assinar em baixo de tudo que a TV brasileira produz, mas é um diálogo importante considerando que, com a perspectiva que tenho hoje a respeito do que significo no entretenimento brasileiro, a interdependência é uma realidade. Isso tem muito a ver com maturidade também. O respeito mútuo vai nos fazer construir juntos um panorama mais democrático sobre o que é a experiência criativa em nosso país. Terão ocasiões em que estarei do lado oposto deles e isso é saudável. Se eu não for capaz de reconhecer e aplaudir que também existem acertos vindos de lá, então preciso amadurecer mais. Se você tem medo de que os lugares que você vá mudem quem você é, talvez você não tenha uma personalidade muito forte e, sinceramente, desse mal eu não sofro. Já atravessei mil infernos lendo Osamu Tezuka, o mal não me contamina (risos).

Para ser rapper tem que ter ideologia?

Existe alguém que não tenha uma ideologia? 

Você comparou o Laboratório Fantasma (selo e grife criado por Emicida e o irmão, Fióti) ao Quilombo dos Palmares... Qual é a proposta de vocês? Há críticas em relação aos preços dos produtos.

 Para compreender a totalidade dessa comparação é preciso entender que um quilombo como o de Palmares era um ambiente de resistência que discordava do modus operandi da sociedade que o cercava. Ele interagia em alguma medida com aquela mesma sociedade, uma vez que coexistiam, mas tentava criar um ambiente diferente daquele que discordava. É o embrião do que hoje chamamos de movimento social. Me parece uma experiência plural e corajosa, assim como a Laboratório Fantasma. Principalmente considerando que estávamos no século 17, se não me engano. E a África esteve na vanguarda do progressismo desde sempre e muito disso veio para o Brasil com as pessoas escravizadas. Falta informação ao brasileiro médio para isso fazer sentido. Em geral, as pessoas aqui recorrem ao argumento infundado de que Zumbi era um senhor de escravos, numa tentativa infantil de justificar o injustificável.

Nos Estados Unidos, o rap é o gênero mais consumido e supera até mesmo o rock. Você acha que isso pode acontecer no Brasil?

 Acho que o Brasil é mais complexo que os Estados Unidos. Lá ambos os gêneros musicais, rap e rock, são elementos profundamente nacionais. O rap é o pagode dos caras, então essa penetração dentro do entretenimento estadunidense e, consequentemente global, é mais fácil. Aqui temos também nossos gêneros profundamente nacionais e populares, como está sendo nesse momento o sertanejo e o funk e tudo isso é interessante e legítimo. Há uma sugestão, defendida por artistas como eu, de que a música rap pode pertencer ao panteão da cultura do Brasil com grandeza como qualquer outro gênero. Mas entendo que, independente do bom momento que o rap estadunidense passa lá fora e por mais que isso influencie um determinado segmento do mercado aqui, nacionalizar, popularizar e solidificar um gênero “estrangeiro” leva tempo. E embora as redes sociais e seu fluxo de informação passem a impressão de que o tempo está passando mais rápido, os frutos ainda amadurecem no mesmo tempo de sempre, é preciso ter calma e não confundir o momento de plantar com o momento de colher.

 Você percebe alguma mudança no tom do hip hop, com pessoas falando mais de amor?

 Sampa Crew, um dos grupos mais românticos do Brasil, é um grupo de rap, essa afirmação muitas vezes vem de gente que não conhece muita coisa além do estereótipo raso que espalham sobre nós. Um outro ponto é: o que é falar de amor? Amor no singular? Amor plural? Quando canto sobre a necessidade de as pessoas no bairro onde nasci serem respeitadas e terem direito de viver com dignidade não é uma demonstração de amor? A gente não pode tropeçar nuns estereótipos tão pobres sobre o outro. Hip hop é amor plural e, infelizmente, às vezes isso parece ser impopular.

Parece que o discurso do rap está mais pacífico. O que você acha? O rap deve ter alguma função social, em essência?

 Toda música preta é um experimento social. Mas me deixe apontar uma coisa inquietante sobre esse ponto: há uns 15 anos, a imagem clássica de um grupo de rap eram jovens negros de periferia. Um grupo como o De Menos Crime cantava sobre sua realidade, violência policial, desigualdade, entre outras coisas. E foi muitas vezes rotulado, assim como muitos outros grupos foram injustamente rotulados como mera apologia ao crime, chegando inclusive a serem detidos nos shows, até eu já fui. Hoje, existe um número grande de jovens com a pele clara, de classe média, se aproximando da música rap, cantando um monte de besteiras. Suave, o julgamento moralista sobre o tema não me interessa, quero mais é me divertir ouvindo umas rimas da hora também... Mas é impossível não notar que curiosamente as acusações de apologia ao crime desaparecem de acordo com o perfil do protagonista. Surge e ganha corpo até essa outra análise que diz que o rap agora está mais “pacífico”, “aberto”, etc. Isso só me lembra o caso do Rafael Braga preso, e o filho da desembargadora com um crime pior, solto... Essa função social, que cobram dos artistas periféricos na música rap não deveria ser uma obrigação de toda a sociedade?

A Chapa é Quente foi indicada como melhor canção de Música Urbana no Grammy Latino. É um reconhecimento importante para o rap e funk brasileiros?

 Sem dúvida nenhuma. Uma das maiores premiações do planeta mencionando a fusão de gêneros ainda tão marginalizados por aqui é algo que inspira a todos nós sobre quebrar barreiras, uma prova inegável de que o pensamento provinciano de muitos não pode nos prender.

No final de 2017, você gravou o DVD 10 Anos de Triunfo. É um nome simbólico. O que mudou em você, no Brasil e no rap nessa última década, desde o lançamento do primeiro single?

 Eu estou mais maduro, observador e calmo, o que talvez sejam formas mais filosóficas de dizer que estou ficando tiozinho (risos). O Brasil infelizmente está em um momento frustrante, em que me parece que se tenta restabelecer de qualquer maneira a vocação para mera colônia. A esperança parece ter se esgotado muitas vezes. Já o rap me dá muitas alegrias, a popularização dos meios de produção e divulgação fez surgir muita coisa bacana e também ofereceu meios de isso chegar a um público mais receptivo. Fico feliz de fazer parte dos que lutaram e lutam para que isso se expanda cada vez mais. Fico muito feliz de ver principalmente o que as meninas têm feito, é inspirador. 

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