Raimundo Colombo se prepara para deixar governo de SC Diorgenes Pandini/Diario Catarinense

Foto: Diorgenes Pandini / Diario Catarinense

Raimundo Colombo anda pela Casa d’Agronômica como quem se despede. Vive precocemente, há 11 meses do final oficial de seu mandato como governador de Santa Catarina, um sentimento em algum momento compartilhado pelos 17 antecessores que habitaram a casa oficial inaugurada em 1955 por Irineu Bornhausen. O lageano eleito em 2010 e reeleito em 2014 faz parte dessa história. Garante que sai sem frustrações e que não sentirá falta do endereço.

— Eu não mudei um móvel, não coloquei um aparelho, que é para não me apegar — comentou, ao lado da televisão de tela plana instalada por Luiz Henrique da Silveira (PMDB), onde costuma assistir a partidas de futebol.

No dia 16 de fevereiro Colombo inicia a transição de governador para ex-governador. Pede uma licença para deixar o vice Eduardo Pinho Moreira (PMDB) dar início e feições ao governo que assume de vez em abril, quando o pessedista renuncia para concorrer a senador em outubro. Nesse clima de despedida, Colombo recebeu os colunistas Upiara Boschi e Estela Benetti para relembrar os melhores e os piores momentos do governo que se encerra, vislumbrar o futuro e confessar como é viver no amplo casarão que será disputado com unhas e dentes pelos candidatos a governador em outubro:

— A Casa d’Agronômica te dá uma privacidade, mas ela é muito isolada. Dá uma solidão, uma angústia.

Quando assumiu em 2011, o senhor dizia que era necessário aprender a "governar o governo". Aprendeu?

Sim. Sempre é muito difícil, porque ele é muito grande, muito complexo. Cada um tem sua personalidade, as alianças também fazem parte. Mas nós conseguimos ter unidade nas prioridades que se estabeleceram e dá para dizer que todo mundo ajudou. Com essa ajuda nós conseguimos vencer etapas importantes, superar dificuldades que outros Estados não conseguiram.

O senhor está deixando o governo agora em fevereiro, primeiro em licença, depois com renúncia em abril. Qual a marca que o senhor acredita que deixa?

Um governo que foi responsável com a crise e com a sociedade. Não quisemos dar prioridade ao governo. Não adianta o governo ir bem e a sociedade ir mal. Aumentar desemprego, as empresas quebrarem, os problemas sociais e serviços públicos piorarem. Nós tivemos que tomar decisões muito importantes. O equilíbrio fiscal foi uma das questões mais duras. Não aumentar impostos, uma das mais importantes. Pelo contrário, baixamos impostos. Tivemos cinco estratégias importantes. Primeiro, aproveitar nossas janelas, como a temporada de verão — que está batendo todos os recordes e no ano passado já tinha sido muito boa. Segundo, aproveitar a safra. Graças a Deus neste ano o tempo está ótimo, estou com os dados aqui, a expectativa é a melhor. Terceiro, aumentar as exportações. Quarto, substituir importação. O setor têxtil, por exemplo. Não tem mais produto chinês aqui. Quinto, investir em inovação tecnológica. Com isso conseguimos ter o melhor saldo de emprego do Brasil em níveis absolutos. Isso é uma marca importante: cuidar das pessoas. Isso significa dar qualidade de vida, não deixar perder o emprego, não entrar na crise econômica. Santa Catarina teve o melhor desempenho de PIB do Brasil. Enquanto a média do Brasil vai chegar a 1%, o nosso vai chegar a 4% em 2017.

Na atração de investimentos, como foi a instalação da fábrica da BMW, o que o senhor destaca?

Isso já começa a dar resultado. Na arrecadação de janeiro, nós batemos o recorde histórico de Santa Catarina. Dezembro já foi muito bom e o ano todo de 2017 já havia sido melhor mesmo sem aumentarmos impostos. Santa Catarina ficou mais competitiva. Mesmo a modernização dos portos, eles agora estão mais eficientes. São janelas importantes para o nosso desenvolvimento. Com o aprofundamento da crise econômica, muitas empresas deixaram de vir e agora retomou. É impressionante o número de consultas e já temos algumas consolidadas. Amanhã (sexta-feira) eu estou em Joinville para visitar a GM, que fez um aumento significativo na planta. A Kelloggs, antiga Parati, fez um investimento importante. A Berneck anuncia na semana que vem um investimento muito importante.

Pode antecipar?

A Berneck tem uma planta grande em Curitibanos e agora vai fazer uma do mesmo porte, é de quase R$ 1 bilhão, na região de Lages, para aproveitar a madeira. Isso vai gerar cerca de mil empregos diretos. São muitos os investimentos que vieram. Santa Catarina era importador de cimento, hoje é exportador, com a Votorantim. No setor automobilístico nós crescemos muito com a vinda da BMW, com a GM. Santa Catarina nunca teve marcas nesse setor e agora temos. Em que pese todas as dificuldades, nós conseguimos passar e ter um resultado melhor que os outros. Nossa frase dentro do governo era que Santa Catarina tem que ser o último Estado a entrar na crise e tem que ser o primeiro a sair dela. E nós conseguimos, é uma grande vitória.

Uma das marcas do seu governo, especialmente no primeiro mandato, foi o Fundam, que distribuiu recursos para obras aos 295 municípios. Existe uma expectativa muito grande pela segunda edição do Fundam, que o senhor anunciou no ano passado. Há uma apreensão entre os prefeitos que temem que não dê tempo para sair o financiamento. Vai dar tempo?

A Secretaria do Tesouro Nacional autorizou o Estado a contrair o empréstimo junto ao BNDES no valor de R$ 634 milhões para fazer obras estaduais e destinar recursos ao Fundam. Isso está autorizado pelo ministro Henrique Meirelles (PSD, da Fazenda), pelo presidente da República e pelo Tesouro. Nós já entramos com a carta consulta no BNDES. Eu estive hoje (quinta) lá, nossa equipe está lá fechando os últimos detalhes. Entendo que nos próximos dias, antes ainda da nossa licença, vamos poder efetivar isso. Estamos trabalhando com prioridade máxima porque alguns confundem o Fundam com uma ação política, mas não é uma ação política porque atende os 295 municípios com critério técnico. Não há partidarismo nisso. É uma ação política quando prioriza o nosso modelo de boa distribuição demográfica, de equilíbrio econômico, de espaço de desenvolvimento melhorando a infraestrutura. Eu considero esse um dos melhores projetos hoje no governo e ele é referência inclusive no BNDES como um bom programa.

Vai ficar abaixo dos R$ 700 milhões inicialmente divulgados.

Nós não divulgamos os valores ainda, a gente está fechando dentro da negociação que está sendo feita, inclusive agora, dentro do BNDES. Eu estive de manhã e nossos técnicos ficaram para fechar. O Tribunal de Contas da União não aceitou fazer no modelo anterior. Então, estamos ajustando o modelo. Provavelmente os municípios de até 10 mil habitantes, que são uns 170, nós faremos com recursos do Estado. E os recursos que o Estado tinha previsto para obras, nós usaremos dinheiro do BNDES. Esse ajuste está sendo feito agora lá pelas exigências do TCU.

As duas edições do Fundam, a que teve e a que deve acontecer, foram viabilizadas com esses recursos de empréstimo. É possível tornar esse programa permanente com recursos do Estado?

É o caminho, com certeza. Nosso modelo precisa ser bem protegido por nós governantes. Se não, as pessoas vêm todas para o litoral, para as grandes cidades, perde-se qualidade de vida, o custo dos serviços públicos aumenta. Então, essa é uma das nossas grandes vantagens e não podemos perder. O ex-governador Antonio Carlos Konder Reis sempre me aconselhava nesse sentido. Era uma visão que ele tinha e eu procuro reproduzir. A verdade é que nestes últimos anos a queda de arrecadação foi muito intensa, então não há folga (para usar recursos próprios). Mas nós temos uma das situações de dívida mais equilibradas do Brasil. O juro do BNDES é muito favorável, com carência, ele foi alongado. Não tenho dúvida de que esse modelo pode ser reproduzido dentro de um modelo de receitas próprias. Além desse, através do Badesc, temos um fundo para os municípios.

Existem críticas de que ao contrair estes empréstimos o senhor aumenta o endividamento do Estado e coloca a conta para os sucessores. Os valores das parcelas da dívida vai atrapalhar os futuros governadores?

Eles estão equivocados, porque na verdade, com a renegociação da dívida (com a União) nós diminuímos a dívida de forma histórica e ainda alongamos de forma excepcional. Isso foi oferecido a todos os Estados em uma iniciativa de Santa Catarina (após o questionamento judicial sobre os juros da dívida, que resultou em um acordo de renegociação). O que está afetando o caixa do Estado não é o pagamento da dívida, que é muito menor e continuará sendo menor. É o problema da Previdência. Isso está acontecendo no Brasil inteiro. Eu estava falando com o (Luiz Fernando) Pezão (PMDB, governador do RJ), vamos segunda-feira à tarde para Brasília para uma reunião com o Rodrigo Maia (DEM, presidente da Câmara). A Câmara vai votar um projeto de lei buscando uma negociação para os Estados terem estrutura financeira para enfrentar esses próximos dois anos. Seria colocada junto com a reforma da previdência, mas ainda não está bem clara.

O que prevê?

Eles querem fazer a securitização da dívida. Santa Catarina não sei se vai usar. É uma forma de arrecadar um dinheiro. Temos R$ 11 bilhões de dívida ativa. Se vender e o próprio governo comprar, coloca uns R$ 2 bilhões em caixa. O Estado de Santa Catarina, sob o ponto de vista de dívida, tem uma situação privilegiada. Os outros Estados já venderam seus ativos. O Rio Grande do Sul agora está tentando (Assembleia gaúcha votou aprovação a venda de estatais, mas foi rejeitada). Santa Catarina não vendeu nenhum ativo. No nosso período de governo não vendemos nenhuma ação de nenhuma empresa. Não vendemos nenhum imóvel do Estado. Quanto vale o BRDE? Vale R$ 4 bilhões e nos temos 40%. Vende para o próprio governo federal e coloca R$ 1,5 bilhão no caixa. Quer vender ações da Celesc, da Casan, tem uma série de ativos que os outros já não têm mais.

O senhor acha que o Estado deve caminhar na direção de privatizar essas estatais?

Eu acho que esse debate deve ser feito na campanha do futuro governo. Eu não farei absolutamente nada disso. Mas se não houver reforma da previdência, obrigatoriamente vai precisar ter dinheiro novo. E mesmo com reforma da Previdência, se for uma mudança muito leve ao longo do tempo (precisará). Porque o futuro está resolvido com a lei estadual (reforma da previdência do Estado, aprovada em 2015). Essa transição, se vender ativos e colocar esses recursos em um fundo de previdência, dá para passar sem a crise. Só que os outros Estados já fizeram e Santa Catarina não fez.

E para a sociedade, Celesc e Casan privadas, teria uma diferença significativa?

Acho que o que importa é o serviço que se oferece. É um bom debate e deve ser feito. Eu tinha o compromisso de não privatizar e não privatizei. Estou falando de oito anos atrás, era outro momento. Hoje, se for feito um movimento para ter um fundo previdenciário, essa pode ser uma solução. A securitização da dívida ativa é outra. Existem muitas alternativas e Santa Catarina tem uma a mais que os outros, porque tem ativos de que não se desfez. Nós temos recebíveis do Prodec (créditos a receber das empresas que aderiram ao programa de benefício fiscal). Eu nunca aceitei vender, mas são empresas de renome internacional, empresas nacionais das maiores. Esse é um papel que é lucro imediato, você vende hoje se quiser e faz caixa. Mas isso é dilapidar o patrimônio público, porque vende por um valor muito menor, o deságio é muito grande. Mas o Estado tem uma carteira de bilhões de reais dos incentivos fiscais que ofereceu. Então, quando se fala em dívida, existe o caixa do governo que é uma coisa, mas o Estado tem ativos que os outros Estados não têm mais. Ativos de grande valor, forte liquidez. Ambev, BMW, a Weg, empresas que se beneficiam de incentivos fiscais, esse papel você vende hoje se quiser. Eu não vendi nenhum em sete anos porque achei que nós tínhamos que aguentar. A questão da previdência vai se agravar, porque a sociedade quer que você amplie o serviço dos hospitais, quer que contrate mais policiais, que melhore a infraestrutura das estradas. Em 2004, o Estado tinha 87,3 mil servidores ativos na administração direta, indireta e autarquias. Hoje tem 89 mil. Em 14 anos, aumentou 2 mil. Os inativos, tinha 33 mil e agora são 52 mil. Vai explodir isso aqui.

Como impedir?

Tem que aumentar a idade mínima. Aumentar o tempo de permanência do servidor.

O senhor estava falando dos ativos que Santa Catarina pode lançar mão para se capitalizar. Mas o Estado também tem passivos históricos e bilionários, como as dívidas das Letras, das debêntures do Invesc, a obra da SC-401. Vai estourar nos próximos governos?

Nós recorremos na Justiça em todas essas ações e conseguimos levar isso para a frente. Ganhamos ações importantes. Na da SC-401, a ação original previa pagar o lucro presumido pela operação do pedágio que não foi implantado. Isso já foi eliminado e a dívida já veio para um valor bastante razoável. A questão das debêntures nós conseguimos rever tudo e vamos conseguir ganhar por um valor muito mais baixo. A questão das Letras é o maior problema porque estão entrando em precatório. Vai trazer um transtorno grande, mas nossa área jurídica está cuidando com muita responsabilidade. Temos uma equipe dentro do governo cuidando desses problemas que são problemas, em termos financeiros, os maiores que o Estado tem e que vem de muitos anos. Nossa luta jurídica continua.

O Estado entrou com ação de inconstitucionalidade contra a emenda aprovada pela Assembleia que permite a empresas que têm debêntures do Invesc de abaterem no ICMS. Preocupa?

Nós já temos uma vitória no STF, de um ano e meio atrás, que assegura o Estado o direito de não reconhecer. Como houve essa votação (recorremos), porque isso implica em desembolso do caixa. A empresa em vez de recolher o imposto ia pagar com esse material que nós não reconhecemos. Não tenho dúvida de que a ação de inconstitucionalidade será reconhecida.

O que foi mais difícil: manter os salários em dia no auge da crise ou fazer a sociedade voltar a acreditar na reforma da Ponte Hercílio Luz?

(risos) Eu acho que foi mais difícil o salário. Foi muito difícil, momentos muito tensos de fechamento. A gente ficava muito angustiado. Quando você atrasa o salário, já estourou todo o resto. Então, a gente procurou manter e nossa fé e foi um bom trabalho de equipe. Esse foi o mais difícil.

O senhor pegou uma enchente poucos dias depois de assumir, com 83 cidades decretando situação de emergência. Santa Catarina está mais preparada hoje?

Aquilo me mostrou como nós tínhamos que agir rápido. Nós disponibilizamos muitos recursos para poder fazer. Uma das ações acertadas, além de criar a Secretaria da Defesa Civil, foi criar o fundo, porque isso deu condições de fazer o trabalho preventivo. Duas vitórias importantes do governo estão relacionadas à Defesa Civil e o sistema de segurança pública e prisional.

Mas temos muitos problemas na segurança pública, crescimento da criminalidade de forma assustadora, mortes relacionadas ao tráfico de drogas. Um problema que cresce de maneira assustadora apesar das ações policiais. O que preciso ser feito para enfrentar isso?

Se eu pudesse deixar um conselho, esse é o maior desafio do Estado brasileiro para os próximos anos. A gente tem que agir com muita firmeza, o Estado não pode relativizar essa questão. Ela é muito grave e nós precisamos agir com a força que ela precisa. Há uma necessidade do governo federal, porque isso tem entrado pelas fronteiras. O crime organizado se estabeleceu no Brasil e nos países da América, ele tem uma relação. Ele tem mostrado sua perversidade e seu aspecto mais cruel na forma que age. Nós temos que ser muito duros nisso. Continuar um trabalho de dia a dia, ampliar as forças, investir em inteligência, tecnologia, aumentar os efetivos. É o trabalho que temos procurado fazer.

Nos seus governos o Estado enfrentou ondas de atentados ordenados direto das prisões, inclusive poucos dias antes da eleição que o reelegeu. Momentos muito tensos para diversas cidades do Estado. Em algum momento o senhor pensou em mudar os comando das pastas de Segurança Pública (Cesar Grubba) e da Justiça e Cidadania (Ada de Luca, do PMDB), ambos secretários que permanecem desde o início do primeiro mandato?

Eu destaco a importância da continuidade do trabalho. O mais simples que tem é achar uma vítima e trocar uma pessoa. Isso não vai resolver, porque era nítido que o problema era estrutural. O Grubba fez um grande trabalho, ele é promotor de Justiça, ele tem uma liderança muito forte, eles estão muito unidos. Era um problema antes, porque a Polícia Civil e a Polícia Militar sempre tiveram (desentendimentos), ao longo do tempo. Isso harmonizou. No primeiro ataque a gente teve muita dificuldade. Hoje a gente pode falar, houve um erro da nossa parte em relação à vinda ou não vinda da Força Nacional. Quando a gente corrigiu, acho que...

Qual foi o erro, governador?

Nós demoramos a pedir a contribuição da Força Nacional. Ali foi um erro que nós cometemos, todos nós. Mas em seguida corrigimos.

E demoraram por quê? Acharam que era uma capitulação?

É, o pessoal achava que tinha a situação sobre controle e que a Força Nacional não traria reforço muito significativo. Nós erramos nessa avaliação. Tivemos que corrigir logo em seguida. Esse foi um ponto crítico de insegurança em relação a pessoas, mas eu entendi que era possível preservar. Uma característica que procurei adotar, numa fase tão difícil, é que não adianta ficar trocando toda hora, servindo às ondas que se formam.

Grubba e Ada de Lucca têm dificuldade de se comunicar?

São personalidades muito diferentes. A Ada é uma pessoa que faz um trabalho muito grande, muito bom. É só olhar. Ela tem uma dificuldade de comunicação, mas o trabalho compensa.

Logo no primeiro ano de mandato o senhor pegou uma greve de professores de 62 dias, com ampla adesão. Outras greves se sucederam durante seu mandato, menores e menos amplas, mas muito constantes. O Sinte/SC foi a sua oposição mais organizada?

Eu sempre tratei eles com respeito e quase sempre fui tratado com respeito. A reivindicação era justa (a greve de 2011 era para que o Estado seguisse o piso nacional da categoria), foram momentos muito difíceis para o governo. A gente estava começando, inseguro, sem uma força nas convicções. Quando se tem uma greve, as pessoas começam a tentar enfraquecer o governo, enfraquecer as ações de governo. Foram momentos muito difíceis. Você citou momentos muito difíceis na gestão. Um foram os ataques, em que você via as pessoas sofrendo e o modelo do Estado fracassando, como vi também na greve dos caminhoneiros, embora fosse nacional. Era um castelo de cartas que caía, tudo parava e você ficava completamente angustiado porque as consequências disso são duras. E o outro foram as greves. Você fica desconfortável nas ações.

O governo teve que aprender a fazer um diálogo mais direto com a categoria, através de teleconferências do secretário Eduardo Deschamps, para driblar o Sinte/SC e desmobilizar as greves?

Sim. Fomos achando os caminhos com o tempo, achando as pessoas certas para fazer o diálogo. Também houve um amadurecimento dos representantes dos servidores, que passam a compreender de uma forma mais adequada. Eu diria que uma das grandes vitórias de Santa Catarina foi fazer a reforma da Previdência. Os servidores deram sua parte de sacrifício. Tanto é verdade que, nos últimos três anos, a contribuição passou de 11% para 14%. Perderam parte do salário para ajudar na previdência. Há que se reconhecer essa maturidade.

O senhor fez a reforma da previdência em 2015 e naquele ano falou muito em rever benefícios dos servidores como as licenças-prêmio e os triênios. Por que não avançou nesses temas?

Seria só para os novos (servidores). Há uma lei, desde a época do Vilson Kleinübing (governador de 1991 a 1994 pelo PFL) que já limitou o percentual da licença-prêmio até um valor e praticamente todo mundo está nesse valor. Então, a mudança seria praticamente inócua. Eu também acho que não adiantava começar a tirar tudo ao mesmo tempo, porque nesses momentos não é a força, é o jeito e a intensidade que se coloca. Tem que achar um ponto de equilíbrio. Eu entendia que a situação mais grave a ser enfrentada era a previdência. Optei por fazer essa reforma e não tratar desses outros temas. Eu acho que o Estado fará essas mudanças para os futuros servidores. Mas também não adianta criminalizar o serviço público, porque ele está fazendo seu papel e utilizando os direitos que a lei deu a ele até agora.

A folha de pagamento cresce acima da inflação. Como fazer com que ela fique nesse patamar, levando em consideração inclusive a aprovação do teto de gastos pela Assembleia?

A folha cresceu 4,37% em 2017 e a receita cresceu 9%.

Mas a inflação cresceu menos de 3%.

Sim, mas há o crescimento vegetativo. A previsão para 2018 é na faixa de 3%. Talvez a inflação seja até menor do que isso, mas a receita será maior. Para nós o balizador não pode ser a inflação, tem que ser a receita. A gente está recuperando capacidade de investimento. A receita de janeiro em relação a janeiro do ano passado, e acredito que neste ano será assim, cresceu 10,88%. É muito significativo. Acho que a média neste ano chega a 10%.

Em que situação financeira o senhor entrega o Estado? Vai ser possível fechar as contas no final do ano?

Vai fechar as contas, mas é tudo muito apertado como foi nos sete anos que eu enfrentei. Todos os anos, para você fechar tudo é feito com muito zelo, muito cuidado, não tem folga.

Em algum momento o senhor chegou a achar que não ia fechar as contas?

Não, em nenhum. Tinha certeza de que íamos conseguir. Temos dois problemas que a gente precisa resolver. Um é o problema do custo do sistema prisional, que cresceu muito. Foram construídas novas unidades e tem muito mais preso que antes. E o processo da saúde. Ampliamos muito os serviços, ampliamos muito os custos. Isso foi incompatível com a receita que tivemos em um momento de crise. Isso vai acontecer no Brasil inteiro. O Ministério da Saúde não reajustou o SUS, não reajustou os repasses. E a demanda é enorme. Com esses dois setores será preciso um cuidado especial.

O que foi possível avançar no seu governo na questão da educação?

Nós aumentamos muito a estrutura física. Reformamos praticamente todas as escolas. Temos a melhor estrutura física do Brasil disparado, isso dito por todos os técnicos em nível nacional. Acho que no aspecto da pedagogia também melhoramos muito. Na autonomia das escolas. Aquele cartão (para pequenos gastos) entregue aos diretores. O modelo da escolha (dos diretores) não é mais aquela indicação política. São escolhidos por um programa que eles apresentam, é aprovado por um conselho e fiscalizado em cada escola pela comunidade, pelos alunos e por este conselho que avalia se o que foi prometido está sendo entregue. Hoje cada unidade tem seu próprio plano. Não tenho dúvida de que um dos setores em que mais avançamos é a educação. Inclusive no financeiro, está totalmente equilibrado. Não ficou nenhum passivo. Terminamos o ano investindo R$ 200 milhões que não estavam previstos para pequenas recuperações nas escolas porque houve um excelente controle financeiro.

No ano passado o Brasil e Santa Catarina viveram um terremoto político com as delações da Odebrecht, inclusive com citações ao senhor como beneficiário de propina. Mal foram assimiladas, vieram também as delações da JBS, em que o senhor também é citado. Como o senhor reage a isso?

Foi um dos momentos mais duros da minha vida pessoal. É o nome da gente que está ali. Foi um sofrimento que é impossível quantificar. Mas eu estou a cada dia mais seguro de que nós vamos conseguir explicar tudo isso. O documento que nós entregamos é muito robusto, ele esclarece todas as ações de governo com absoluta transparência. Mesmo que houvesse qualquer dúvida, e os documentos esclarecem as dúvidas, não foi vendida nenhuma ação, não houve nenhum contrato, nenhuma obra foi realizada. No caso da JBS, não foi concedido nenhum incentivo diferente dos outros Estados, nenhum tratamento diferenciado. Os recursos liberados (doações para a campanha de 2014) foram feitos oficialmente, ao diretório nacional (do PSD) e distribuídos a uma centena de candidatos.

O governo agiu com lisura em relação a Casan e o suposto interesse da Odebrecht e da JBS em sua aquisição?

Cem por cento e os documentos comprovam isso. Quando fizemos a avaliação da Casan e o valor deu baixo, e isso está nos documentos do processo, o governo já em 2012 informou a todos os técnicos a orientação de que não seguiria a negociação. A Casan tinha dois problemas: dívidas trabalhistas e dívidas previdenciárias, da Fucas (Fundação Casan). E por isso não evoluiu. Nós protegemos o interesse catarinense.

Havia pressão da Odebrecht e da JBS pela venda das ações da Casan?

A JBS nunca tratou de assunto de Casan conosco, nunca. Nenhuma vez. Eles trabalham na área de carnes, proteína animal. Aquilo ali é uma coisa sem pé nem cabeça. Nunca tratamos desse assunto. No caso da Odebrecht por ofício nós deixamos claro em 2012 que esse processo estava interrompido e que as ações não seriam leiloadas (o governo tem autorização da Assembleia para vender 49% das ações da Casan). Se houvesse a venda, ela seria feita de forma transparente, em leilão na Bolsa de Valores. Mas em 2012 foi informado que a decisão era não prosseguir e nunca mais se alterou essa decisão.

As doações da JBS para sua campanha foram feitas de forma oficial em 2014. No caso da Odebrecht teriam sido em caixa 2 na primeira eleição. O senhor recebeu dinheiro da Odebrecht?

Não recebemos dinheiro da Odebrecht, não tem nada que comprove isso. Não foi feito. Fizemos uma campanha dentro das regras que todos os outros candidatos fizeram. Havia uma prática no Brasil naquele momento que precisa ser corrigida, que precisa ser aperfeiçoada. Da minha parte eu vou contribuir de uma forma muito dedicada, porque acho que isso foi muito ruim para todo mundo e para o Brasil. Mas era o modelo político existente. Da Odebrecht, que eu saiba, não recebemos nenhuma doação.

O modelo político existente que o senhor diz era o caixa 2?

O modelo de financiamento de campanha. Eram campanhas muito caras. Elas terão que ser muito mais baratas e quem quiser ser candidato vai ter que se adaptar a isso.

Nesse processo o senhor acabou perdendo o secretário da Fazenda, Antonio Gavazzoni (citado nas delações da JBS como intermediário), que era uma espécie de primeiro-ministro, participava de diversas áreas, tomava frente. Sente falta dessa figura que faça a interface de todo o governo?

O Gavazzoni faz falta em qualquer equipe, porque ele é brilhante. É um rapaz de uma inteligência muito forte, uma capacidade e uma habilidade muito grandes. Foi uma perda extraordinária. Tenho certeza de que ele vai reverter todo esse cenário e vai contribuir muito para o desenvolvimento do nosso Estado. Não só do Estado, mas do país. Ele tem estatura para isso.

O senhor deixa o governo com alguma frustração? Algo que não conseguiu fazer e achava que poderia?

Cada um tem o desafio no seu momento. Nós pegamos um período muito difícil. Por exemplo, o período que me antecedeu, o período do Lula (na presidência), as coisas eram mais fáceis. A receita crescia, a economia era favorável, tudo bombava. Então, isso também foi nos Estados. O Luiz Henrique (da Silveira, do PMDB), governador de 2003 a 2010, morto em 2015), que eu admirava muito, uma pessoa que teve muita importância na minha vida e tem até hoje porque sempre lembro dele e procuro aprender com o que ele dizia e fazia, ele teve um período de muita expansão. A nossa situação foi corta, corta, corta, está difícil, está complicado. Então, houve uma exigência maior. Mas eu não tenho o direito de ter frustração. Acho que cada um cumpre uma missão. Às vezes ela é mais fácil, às vezes ela é mais reconhecida e às vezes ela é mais difícil. Neste período, ela foi difícil, mas me permitiu aprender muito e ser um cidadão muito melhor. Eu me sinto hoje, depois de sete anos, muito mais maduro, muito mais preparado. E não sou mais triste do que era. É um desafio da vida.

E qual seu maior legado?

Nosso maior legado é ser um Estado que passou muito bem pela crise. As pessoas não sofreram a crise. É só olhar os outros Estados, o que eles estão vivendo, o que as pessoas estão enfrentando. Nós conseguimos passar. A imagem de Santa Catarina hoje é a do melhor Estado do Brasil. Eu não estou falando melhor governo do Brasil, não é isso. Mas é o melhor Estado do Brasil. Todo mundo que vem se encanta e quem está aqui sente que aqui está vivendo um bom momento. Este é o maior legado.

Como o senhor se sente neste ambiente político conflagrado e até envenenado que vivemos hoje?

É consequência de toda essa crise que está no mundo político. Há um processo muito duro para a classe política.

Como o senhor se sente nele?

Extremamente desconfortável. Desencontrado. Não tem como esconder isso.

O senhor é considerado um político conciliador. Faltam conciliadores na política ou eles estão fora de moda?

Acho que hoje o perfil que está dominando é o dos extremos. As pessoas que botam fogo, as pessoas que incendeiam. As pessoas que desejam a ruptura. Às vezes a gente até reconhece que é preciso mudar profundamente as coisas, eu entendo que tem que mudar. Não sou contra. Só acho que não posso lutar pela ruptura porque é uma irresponsabilidade. O que vem depois é muito grave para as gerações futuras. Entendo que a gente precisa ter maturidade, bom senso, equilíbrio, prudência para poder fazer a transição. Uma transição com coragem. Tem que mudar. As mudanças precisam acontecer, elas têm que ser profundas e verdadeiras, autênticas, transparentes, mas sem ruptura.

O senhor já tem candidato a presidente da República?

Tenho muita simpatia pelo Geraldo Alckmin (governador de SP, do PSDB). Claro que se o meu partido tiver o Henrique Meirelles, que também é um grande brasileiro, seria um ótimo nome.

E a governador?

O meu partido tem o (deputado estadual Gelson) Merisio e ele está lutando muito. Dentro do partido outros nomes também pleiteiam, mas o Merisio está à frente porque construiu dentro do partido. Eu vou ajudar como puder.

O senhor acredita que a aliança com o PMDB pode ser mantida?

Acho que tudo é possível. Temos que fortalecer o nosso partido, lutar para ter o nosso candidato, que ele seja viável, mas não podemos fechar a porta para as alianças. No modelo político brasileiro elas são naturais, mas só serão tratadas lá na frente.

O governo do vice Eduardo Pinho Moreira (PMDB) começa de fato com sua licença em 16 de fevereiro?

Sim, vou dar todo o respaldo para que ele possa tomar todas as decisões. No último ano de mandato a Lei de Responsabilidade Fiscal impõe uma série de restrições no segundo quadrimestre. Então, acho que uma transição tranquila, harmoniosa, equilibrada é bom para o governo e para Santa Catarina. Esse é o meu esforço. E o dele também. Então, não há nenhum problema. Agora, nós fizemos parte da mesma chapa e temos a mesma responsabilidade com o governo. Sob ponto de vista político, não existe compromisso nem deles (PMDB) e nem nosso (PSD), é uma transição administrativa.

O senhor pretende disputar o Senado na próxima eleição e já foi senador entre 2007 e 2010. No que acha que sua contribuição pode ser diferente do que for aquela vez?

Duas razões. O momento brasileiro vai exigir grandes decisões, fundamentais para o Brasil. Nós vamos dizer para onde o Brasil vai, eu não tenho dúvida que isso será uma coisa muito forte em 2019, 2020. Teremos que fazer escolhas muito duras e teremos que ser muito responsáveis. Acho que a contribuição que posso dar, até pela experiência de governo e da minha história política, eu posso ser um ponto de apoio. Hoje também sou muito mais conhecido, tenho um relacionamento maior. Posso ser um bom representante para Santa Catarina. Não disputar a eleição seria um ato de irresponsabilidade da minha parte. Santa Catarina me deu muito. Preciso me colocar à disposição.

Que decisões são essas que o senhor espera ver no Congresso?

Acho que o nível de eficiência do Estado brasileiro está muito baixo. E a razão é o descontrole das relações e das atribuições entre os poderes e os órgãos de controle e fiscalização. O Estado brasileiro está amarrado de tal forma que perdeu toda a eficiência, perdeu os resultados. As pessoas estão preocupadas com a atividade meio e não com a atividade fim. O que menos está importando é a necessidade e o direito das pessoas. Nós temos que discutir isso de uma forma muito profunda e acho que posso levar uma boa colaboração porque isso me incomoda profundamente. A gente leva três anos a mais do que devia para fazer uma obra, o custo dela é exagerado, as exigências são absurdamente burocráticas. Quando a burocracia toma conta, a necessidade das pessoas deixa de ser valorizada. Um inimigo cruel das pessoas mais pobres é o predomínio da burocracia.

O senhor já imaginou o que vai fazer se não for eleito senador?

Vou ter todo direito de pensar em mim. A vida pública te impõe muitos sacrifícios. Um deles é a tua vida pessoal. Se por acaso (não vencer), e é uma possibilidade que eu reconheço, porque essa é uma das eleições mais imprevisíveis e mais abertas (são duas vagas e o eleitor vota duas vezes para senador). Ninguém está eleito, surpresas poderão haver. Tenho consciência dos riscos. Não é uma eleição fácil, morro abaixo, é uma eleição imprevisível. Se isso acontecer (a derrota), estou preparado para começar a assumir um papel de aposentadoria. Vou fazer 63 anos (o governador ri).

Quando o senhor se elegeu a primeira vez, resistiu um pouco em se mudar para a Casa d’Agronômica. Se acostumou?

A Casa d’Agronômica te dá uma privacidade, mas ela é muito isolada. Às vezes eu fico aqui de manhã, abre a porta e tem uma pessoa ou duas. Dá uma solidão, uma angústia. É uma coisa que te isola. Esse é o aspecto mais negativo.

Vai sentir falta do poder?

Não, com certeza não. Procurei me preparar para isso, não me vincular a nenhum tipo de influência. Estou absolutamente preparado para desapegar. (pensa um pouco) É possível que eu sinta falta, mas acho que eu consigo me equilibrar e superar.

DIÁRIO CATARINENSE
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