Um grito forte e solitário vindo da rua ressoa nos corredores elegantes do Parlamento britânico: "Paaaaaarem o Brexit!". O galês Steve Bray não precisa de megafone após mais de um ano fazendo sua voz ser ouvida em um protesto extraordinariamente persistente.

Trajando uma cartola azul e dourada, inspirada na bandeira da União Europeia (UE), ele se manifesta em frente à Câmara dos Comuns a cada sessão parlamentar, em uma tentativa de convencer os deputados a mudar de ideia sobre a saída do bloco.

"Falo com os deputados e pergunto como o Brexit pode me beneficiar. Não ouço respostas positivas", diz à AFP o britânico, de 59 anos.

Sua arma mais poderosa é aparecer com cartazes no fundo de entrevistas realizadas ao vivo por emissoras de TV, um método que irrita produtores, mas lhe rendeu fama.

Ele garante querer "mandar a mensagem, através dos veículos, de que há uma luta e muitas pessoas estão envolvidas nisso".

"Você é um herói!", elogia um passante - um dos muitos que se aproximam para cumprimentá-lo ou tirar uma foto com ele -, enquanto os carros de apoiadores buzinam.

Bray e seus simpatizantes intensificaram os protestos em frente ao Parlamento antes da histórica votação da próxima terça-feira sobre o acordo do Brexit negociado pela primeira-ministra Theresa May com Bruxelas.

"Não é preciso ser um gênio para ver que ficaremos muito pior se sairmos da UE", afirma.

- 'Perdedor!' -

Bray protestou em frente ao Parlamento em todos os dias nos quais houve sessões desde setembro de 2017, durante cerca de sete horas por dia, chova ou faça sol.

Sua casa fica a quase 300 km de Londres, na cidade galesa de Port Talbot, mas ele mora em um apartamento em Londres que seus apoiadores oferecem.

Bray, que é chamado nas ruas de "Sr. Parem o Brexit" diz trabalhar por conta própria vendendo moedas raras, mas conta com o apoio de uma campanha anti-Brexit não identificada, algo que seus críticos costumam denunciar.

"Ele faz o que é pago para fazer", diz Robert Wright, um defensor do Brexit que também condena o acordo, alegando que ele faz concessões inaceitáveis à UE.

A atmosfera é geralmente amigável, mas às vezes há tensões e Bray diz que eles chegaram a ameaçar espancá-lo. "Você é um perdedor, Steven! Perdedor!" gritou um homem no meio da multidão.

"E você, o que você ganhou?", questionou Bray, sem obter qualquer resposta.

- Confiante no 'bom senso' -

Ele protesta onde e como consegue: reordenando latas de conservas nos supermercados para escrever "Stop Brexit" (Parem o Brexit) ou içando uma bandeira europeia em frente ao escritório de seu conselho municipal.

O País de Gales, uma das zonas mais pobres do país, votou majoritariamente a favor do Brexit, apesar de receber um volume significativo de fundos europeus.

"Na minha terra, não se dão conta do que o Brexit implica. Protestar aqui me permitiu fazer a mensagem chegar a muito mais pessoas", afirma Bray.

Quando questionado se continuará em frente ao Parlamento de Westminster quando o Reino Unido deixar a UE, em 29 de março, ele responde com otimismo.

"Estou certo de que não vamos sair. No fim, o bom senso vai acabar prevalecendo".

* AFP

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