A Alemanha vai compensar as vítimas de Colônia Dignidade, um antigo reduto alemão fundado por um nazista no Chile, onde os abusos sexuais e tortura foram cometidos, anunciou o governo em Berlim na sexta-feira (17).

Elas receberão até 10.000 euros (11.200 dólares) cada uma, informou em Berlim o secretário de Estado Niels Annen, segundo a decisão conjunta do governo e de uma comissão parlamentar.

O montante total da compensação será de cerca de 3,5 milhões de euros (3,9 milhões de dólares) até 2024.

Cerca de 240 ex-membros desta seita ainda estão vivos, 80 deles na Alemanha, de acordo com a comissão.

Colônia Dignidade foi fundada em 1961 pelo ex-ditador nazista Paul Schäfer. O local foi apresentado como um lugar familiar idílico.

Na verdade, Schäfer reinou brutalmente sobre essa comunidade alemã de algumas centenas de pessoas, submetendo-as à escravidão ou infligindo abuso sexual a crianças.

Após a fuga de Schäfer em 1997, os chilenos descobriram que o enclave alemão também havia sido um inferno para os oponentes da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), já que muitos deles foram torturados lá ou desapareceram.

Detido em 2005 na Argentina, Paul Schäfer morreu na prisão em 2010. Colônia Dignidade foi transformada em um centro turístico e agrícola, com o nome de Vila Baviera.

Uma ecologista alemã, Renata Kuenast, que defendeu as vítimas por anos, chamou as compensações de "simbólicas", mas "aceitáveis".

Para o Centro europeu para os direitos humanos e constitucionais, o Ministério dos Negócios Estrangeiros alemão "evita a sua responsabilidade legal quando se trata de indenizar as vítimas".

"Muitas vítimas chilenas foram deixadas de fora" do programa de compensação, disse ele.

Um comitê oficial alemão disse em seu relatório na sexta-feira que Schaefer "derrubou famílias inteiras, abusou de inúmeras crianças e colaborou ativamente com os capangas da ditadura de Pinochet para torturar, assassinar e desaparecer".

"Os sobreviventes ainda sofrem maciçamente as graves consequências psicológicas e físicas dos danos causados pela violência, pelo abuso, pela exploração e pela escravidão".

No entanto, não se pode derivar "uma responsabilidade legal da República Federal da Alemanha" dos atos cometidos por esse ex-nazista no Chile.

As indenizações são uma consequência "exclusivamente de uma responsabilidade moral, sem a qual uma obrigação legal pode ser inferida", acrescentou.

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier reconheceu em 2016, quando era chanceler, que "durante anos os diplomatas alemães estavam limitados, na melhor das hipóteses, a olhar para o outro lado - e claramente eles não fizeram o suficiente para proteger seus compatriotas nessa colônia".

A escala de atrocidades cometidas naquela comunidade isolada, cerca de 350 km ao sul de Santiago, só veio à tona após o fim do regime de Pinochet.

O mão direita do fundador da colônia, Hopp, que administrava a clínica, foi condenado no Chile por cumplicidade em crimes sexuais, mas fugiu para a Alemanha em 2011, antes que a sentença pudesse ser aplicada.

Um tribunal alemão ratificou a condenação, mas um tribunal superior, bem como a promotoria, decidiram mais tarde que as provas fornecidas pelo tribunal chileno não cumpriam os requisitos da justiça alemã.

- Insuficiente -

A decisão da Alemanha de compensar as vítimas de Colônia Dignidade é uma "ajuda", mas insuficiente para aqueles que sofreram com abuso sexual e tortura.

"Estamos muito gratos pela ajuda, pelo tremendo esforço dos parlamentares que nos visitaram, é uma ajuda sim, mas não resolve o problema que existe (...) somos uma geração perdida", disse Horst Schaffrick à AFP, um alemão que aos 3 anos de idade se estabeleceu ao lado de sua família no enclave localizado no sul do Chile.

Schaffrick sofreu o abuso sexual cometido pelo ex-cabo nazista Paul Schäfer, que fundou a Colônia em 1961. O lugar apresentado como um local acolhedor de família tornou-se o reino de Schäfer, que instalou um esquema de trabalho escravo e estuprou crianças alemãs e chilenas.

A compensação "chega a cobrir muito pouco, em comparação aos 40 anos sem pagamento de trabalho, sem imposições, há também a questão do sofrimento para a escravidão, paus, drogas, abuso sexual há 20 anos", disse o alemão, que ainda vive nas terras onde a colônia foi erguida.

"Como vou seguir minha velhice, como vou viver? Isso não se soluciona, essa é a gravidade da situação", acrescentou.

* AFP

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