"Você não tem que demonizar alimento nenhum" Pancho / Agência RBS/Agência RBS

Drauzio Varella palestrou para cerca de 700 pessoas no Teatro Carlos Gomes em Blumenau

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Pancho. Francisco Fresard. Colunista De Ponto a Ponto.
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 Ao iniciar a palestra que proferiu quarta-feira em Blumenau, o médico e escritor Drauzio Varella deixou bem claro que ele não trazia novidades:

– Tudo o que eu vou dizer aqui vocês já sabem, mas não fazem.

Para boa parte das cerca de 700 pessoas que estavam no Teatro Carlos Gomes a fala daquele homem magro e divertido caiu como um bombardeio de verdades que insistimos em esconder para não nos lembrarmos do óbvio: dieta balanceada e atividade física não fazem mal a ninguém. Antes da palestra promovida pelo CDL e Unisagres conversei por 15 minutos com ele e trago outras verdades que apesar de serem conhecidas, por muitos são ignoradas.

O que preocupa mais atualmente em reação à saúde do brasileiro?

Não tem nada pior do que fumar. Encurta a vida de um homem em 12 anos e a de uma mulher em 10 anos. As pessoas que fumam envelhecem com problemas respiratórios, câncer etc. Felizmente menos de 10% da população adulta fuma hoje. Na minha geração eram 60%. Outro problema é que as pessoas engordam e passam os dias sentadas. O brasileiro envelhece com excesso de peso e sedentário. E aí vai pagar o preço das doenças que vêm associadas a esse processo, como diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, problema de articulações, artrites de modo geral e doenças degenerativas.

A cada ano percebemos mais gente dispensando a carne. Há algum risco? O vegetariano é uma pessoa saudável?

Há populações que são vegetarianas. Na Índia, por exemplo, tem centenas de milhões de pessoas que não comem carne. O problema mais grave para o vegetariano é o da quantidade de ferro. Nós precisamos de ferro para fabricar hemoglobina e você encontra ferro nas carnes de modo geral. Se você tira a carne da dieta fica difícil repor o ferro às custas de outros alimentos. Não tem nada de errado em ter uma dieta vegetariana, mas tem que controlar e ver se você não precisa de reposição de ferro.

E as demais dietas restritivas?

O que existe hoje são essas modas que cercam a alimentação. De repente não pode comer glúten. Tem os que acham que o leite é um veneno, dizem que nenhum animal adulto toma leite. Não toma leite, mas não toma chope também. Eu acho o seguinte. Da metade do século passado para cá os serviços de saúde disseram que a carne tem colesterol, tem mais risco de ataque cardíaco e derrame cerebral. Então você tem que comer o mínimo de gordura. O que aconteceu? Se eu não como gordura, vou comer carboidrato, sanduíche. Você não troca o bife por uma cenoura. Troca por batata, macarrão. Você não tem que demonizar alimento nenhum. Não há demonstração de que a carne está relacionada com ataques cardíacos e derrame cerebral. Ao contrário. Há vários artigos recentes mostrando que os carboidratos são mais perigosos. Temos que fazer o que os nossos avós faziam. Comer de tudo um pouco. Sem exagero.

A obesidade infantil tem relação com o fato de que os pais não têm mais tempo para controlar as crianças como nós éramos controlados no passado?

Eu acho que sim. Não estou dizendo que era bom, mas no passado os papéis eram mais definidos. O homem ia trabalhar e a mulher ficava em casa controlando o restante, que não era pouco. Ela estava presente o tempo todo. Hoje ela trabalha, não tem como ficar em casa controlando os filhos. Além disso a criança tem o computador e o tablet e fica horas e horas naquilo. Devia estar jogando bola, mas na rua não pode mais ir. Eles ficam fechados em casa, o tempo inteiro sentados com esses joguinhos e os armários estão abarrotados de bala, bombons, chocolates. E isso causa esse desacerto na vida da criança.

Cabe aos pais tomar as rédeas?

Não é fácil, mas só os pais podem fazer isso. Se você vê que teu filho está mais gordinho, tem que ficar esperto. Você não tem que ter doce em casa. É uma vez por semana, no fim de semana. Acabou. Sobremesa é fruta. Tem que criar hábitos alimentares mais saudáveis, o que não é fácil.

E essa outra onda de alimentação orgânica? Isso vai ser assimilado pela população no futuro?

Do ponto de vista teórico não há nenhum estudo mostrando que os alimentos orgânicos trazem mais benefícios para o organismo do que os outros. Não tem defensivo, tudo bem, mas ninguém provou que dietas com alimentos orgânicos são mais saudáveis para o organismo do que a dieta com os alimentos comuns. Do meu ponto de vista, enquanto não surgirem dados concretos, você não tem que aconselhar a população a comer alimentos orgânicos. Eles são mais caros, a produção é mais complexa. Se você pode e se você gosta, tudo bem. Fique à vontade. Mas isso não pode ser colocado como programa de saúde pública. 

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