Lula ressuscita em Santa Catarina rixa histórica entre PT e DEM Pena Filho/

Lula participou de comício em Joinville com Dilma Rousseff e Ideli Salvatti

Foto: Pena Filho

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Um Lula com forte teor ideológico e disposto ao confronto aterrissou em Santa Catarina na segunda-feira e reavivou uma longa história de rivalidade dos petistas catarinenses com o DEM da família Bornhausen. No comício em Joinville, o presidente chegou a dizer que o partido adversário deveria ser "extirpado da política brasileira".

A resposta, no mesmo tom, veio nesta terça-feira em nota do deputado federal Paulo Bornhausen: "Para pronunciar o nome dos Bornhausen dentro de Santa Catarina, Lula tem que estar são e lavar a boca antes".

A frase de Lula ganhou repercussão nacional. Aos militantes petistas que lotaram a praça Dario Salles, no Centro de Joinville, o presidente não mediu as palavras ao criticar a aliança que o ex-governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB) mantém com o DEM desde 2006.

— Quando Luiz Henrique foi eleito governador de Santa Catarina, eu pensava que era pra mudar. Mas ele trouxe de volta o DEM que precisamos extirpar da política brasileira.

Lula citou diretamente a família Bornhausen, vinculando-a à candidatura de Raimundo Colombo (DEM) ao governo estadual.

— Sabemos que os Bornhausen não podem vir disfarçados de carneiro. Porque sabemos quem são os Bornhausen — disse o presidente.

As frases de Lula provocaram reação imediata do DEM. Na mesma linha da nota oficial do filho, o ex-senador Jorge Bornhausen sugeriu que o presidente estava "fora das condições normais" quando participou do comício. Disse que tem muito orgulho da história da família em Santa Catarina e foi ao contra-ataque:

— Aconselho o presidente a não faltar com a verdade, não inaugurar obras inacabadas, respeitar as famílias catarinenses e não ingerir bebidas alcoólicas antes dos comícios.

Bornhausen disse que, ao falar em "extirpar", Lula usa uma expressão "hitleriana". Ele nega semelhança da frase de Lula com a declaração que deu em 2005, na época do mensalão, quando disse "estaremos livres dessa raça por 30 anos".

— Eu expressei uma reação diante da vergonha que foi o mensalão, que até hoje o presidente esconde dentro do armário. Não teve intenção racista — justifica.

O candidato ao governo Raimundo Colombo disse ter ficado decepcionado com as declarações do presidente, mas minimizou o episódio.

— Eu achei uma frase muito infeliz, fiquei decepcionado com o presidente. Mas isso é coisa de palanque, prefiro entender dessa forma.

Luiz Henrique diz que Lula foi mal informado pelos petistas catarinenses sobre os motivos que o levaram a se aproximar do DEM.

— Continuo respeitando muito o presidente Lula. Quando me elegi, chamei o PT para participar do governo e o partido não quis. Para fazer as reformas que prometi, procurei o DEM — afirmou LHS.
UMA RIXA ANTIGA
1980
Filiado ao PDS, antiga Arena, Jorge Bornhausen é o governador de Santa Catarina. Ele seria
o último governador eleito indiretamente pela Assembleia Legislativa, durante o regime militar.
Bornhausen é filho do ex-governador Irineu Bornhausen.
Com o fim do bipartidarismo imposto pelo regime militar, é fundado o Partido dos Trabalhadores. A principal liderança do partido é Luiz Inácio Lula da Silva, que se destacou no comando de greves do metalúrgicos do ABC Paulista em 1978.
1982
Ainda no PDS, Jorge Bornhausen é eleito senador por SC, em dobradinha com Esperidião Amin, vencedor da disputa pelo governo estadual.
PT disputa sua primeira eleição em Santa Catarinacomo partido nanico. Eurídes Mescolotto faz 6,8 mil votos ao governo.
1985
Amin e Bornhausen tomam rumos diferentes nas eleições, ainda indiretas. Amin fica no PDS e Jorge entra na dissidência que funda o PFL para apoiar Tancredo Neves (PMDB) à Presidência da República. Tancredo vence Maluf, mas morre antes de assumir. José Sarney, também ex-PDS, assume o cargo.O PT recusa-se a votar em Tancredo no Colégio Eleitoral.
1998
Bornhausen reedita a dobradinha com Esperidião e se elege senador. Amin dá o palanque catarinense para Fernando Henrique (PSDB), reeleito no 1º turno.
2002
Jorge aposta tudo na eleição do filho Paulo Bornhausen ao Senado. Ele foi derrotado. A coligação incluía Amin ao governo. A causa seria a “onda Lula”.
Lula se elege presidente no segundo turno contra José Serra (PSDB). A onda Lula impulsiona o PT-SC, que elege Ideli Salvatti senadora e é fundamental na eleição de Luiz Henrique (PMDB) ao governo.
2005
Jorge Bornhausen é um dos principais opositores do governo Lula no Senado. Diante das denúncias de compra de votos de deputados, o mensalão, o senador ironiza quando perguntam se estava desencantado com os petistas. “Desencantado? Pelo contrário. Estou é encantado, porque estaremos livres dessa raça pelos próximos trinta anos.”
Momento de maior fragilidade do governo Lula, o mensalão provoca a queda de José Dirceu, um dos principais articuladores do partido. Além de deixar a Casa Civil, ele tem o mandato de deputado cassado. O mensalão está sendo avaliado no STF.
2006
Jorge Bornhausen é um dos principais articuladores da aliança do PFL com PMDB de Luiz Henrique. Não disputa a reeleição para o Senado, mas indica Raimundo Colombo (DEM) sucessor. Com a aliança, LHS é reeleito contra Amin e Colombo vence Luci Choinaki (PT) na disputa ao Senado.
Lula é reeleito no segundo turno. Em SC, o partido não mina a polarização entre LHS e Amin. Sem palanque no segundo turno, petistas se aproximam do adversário histórico Amin, o que não impede que Geraldo Alckmin (PSDB) ganhe de Lula em SC.
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