Além do prazer: vício em sexo é mais incompreendido do que em drogas Carol W/Divulgação

Estima-se que até 6% da população tenha algum tipo de compulsão sexual

Foto: Carol W / Divulgação

"Completei 90 dias de abstinência. É muito bom alcançar esta marca. Consegui esta façanha agora, depois da minha recaída, na primavera passada. Estou em recuperação da dependência de sexo. Meu programa inclui de 3 a 5 reuniões por semana, prestar serviço para a irmandade Grupo de Ajuda Mútua de Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa), terapia de grupo semanal, serviços de culto e oração diária.

Tive a recaída quando descobri o sexo no computador. Eu não tinha nenhuma experiência anterior nesta área. Inocentemente, numa noite eu entrei nas salas de conversa. Rapidamente comecei a me isolar em casa e no trabalho. Mentia para minha mulher sobre os motivos de ficar até tão tarde da noite no computador. Estava gastando o dinheiro da família em chamadas telefônicas e contas de internet. Também recaí no meu procedimento primário: sexo com prostitutas. Com a ajuda dos companheiros da Dasa, me internei por 90 dias. Meu senso de amor próprio aflorou e adquiri um profundo entendimento do quanto a minha doença é perigosa. Mas estes ganhos vieram com um alto preço. Minha mulher e eu estamos separados, meu casamento não sobreviveu. Fizemos um empréstimo, para a minha internação. Minha mulher ficou com raiva e não acreditou na minha recuperação, nem meus filhos. Apesar de tudo, estou otimista quanto ao futuro. Aprendi com a minha experiência de recaída e estou grato por ter outra chance
."

O texto acima é parte do depoimento de um homem, postado na página da internet do Grupo de Ajuda Mútua de Dependentes de Amor e Sexo Anônimos Dasa, que funciona seguindo os mesmos moldes dos Alcoólicos Anônimos ou dos Narcóticos Anônimos. O objetivo é prestar apoio e ajudar na recuperação daquelas pessoas para quem o sexo deixou de ser apenas um prazer, natural e saudável, para transformar-se numa compulsão e dependência, trazendo muita angústia e sofrimento.

Alguns especialistas acreditam que o sexo vicia mais do que as drogas, é mais destrutivo do que o álcool e mais incompreendido do que outros vícios. Recentemente, a apresentadora de TV norte-americana Oprah Winfrey entrevistou Drew Pinsky, médico especialista em vícios e apresentador do reality show Sex Rehab with Dr. Drew. Ele define a doença como uma desordem da intimidade e afirma que esse problema pode atingir todo tipo de pessoa. Segundo Drew, grande parte dos viciados em sexo sofreu algum trauma quando crianças, principalmente abuso sexual.

Buscar ajuda é essencial

Estima-se que até 6% da população tenha algum tipo de compulsão sexual, segundo dados da Organização Mundial de Saúde. Para ser caracterizada como compulsiva sexual, a pessoa precisa ter, além de uma obsessão por sexo, a sensação de culpa e falta de controle sobre seu desejo. Há um ano, um caso de compulsão sexual ganhou as manchetes: o maior jogador de golfe da atualidade, o americano Tiger Woods, internou-se em uma clínica de reabilitação, após sua mulher descobrir que ele tinha várias amantes. Depois da internação, Tiger pediu desculpas publicamente.

— É difícil admitir, mas preciso de ajuda. Durante 45 dias, do fim de dezembro ao começo de fevereiro do ano passado, fiquei internado e recebi orientação sobre meus problemas. Ainda tenho um longo caminho a percorrer —  comentou.

Nos Estados Unidos, as clínicas que oferecem programas de rehab para sexo compulsivo são cada dia mais comuns. No Brasil, ainda não existem centros especializados neste tipo específico de dependência. O Projeto Sexualidade (ProSex) do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo é dos poucos a tratar de transtornos da sexualidade, entre eles a compulsão sexual.

— O período crítico do tratamento dura em média um ano, com atendimento por psiquiatra, acompanhamento psicoterápico e reeducação sexual — explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do projeto.

Outro serviço, gratuito e de frequência voluntária, é o Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (Dasa). As sessões são em grupo, para fortalecer o espírito de ajuda mútua, com programa de 12 passos e discussão de experiências entre os participantes.

Em Santa Catarina, dois grupos de Dasa já funcionaram, por alguns meses, em Florianópolis. Um membro do grupo afirma que por se tratar de um tema delicado, rodeado de moralismos e preconceitos, as salas foram fechadas. Atualmente, existem articulações para reabrir um dos grupos.

Para ser um membro é preciso diagnosticar se a pessoa de fato sofre da doença de dependência emocional e/ou sexual, e se ela realmente deseja se recuperar. Para informações, acesse: dasafloripa@hotmail.com

Eles se trataram

— O ator Michael Douglas passou temporada numa clínica no Arizona em 1990, quando ainda era casado com Diandra, e até hoje jura que foi por excesso de bebida. O casamento com a atriz Catherine Zeta-Jones parece ter resolvido o problema.

— Em 2008, depois de negar durante anos que tivesse problemas com sexo, o ator David Duchovny, da extinta série Arquivo X e da atual Californication, internou-se para tratar de sua compulsão e assim salvar o casamento com a atriz Téa Leoni.

— O comediante inglês Russell Brand, hoje casado com a cantora Katy Perry, transformou os vícios em piada: publicou um livro contando suas passagens por rehabs tanto de drogas quanto de sexo.

:: Esta doença existe, sim

"Sempre fui muito ligada a sexo, desde a adolescência. Mas eu sentia que era diferente das minhas amigas. É como se fosse uma ideia fixa. Quando comecei a namorar, sempre queria mais e mais. Acabava assustando os homens. Achei que se eu casasse isso iria passar, mas não foi assim.

Traí meu marido inúmeras vezes, mas depois chorava muito, arrependida, me sentindo imunda. Cheguei a ponto de pensar em me matar, até que procurei ajuda médica. Hoje, sei que posso ter outras formas de prazer, como sair com minhas amigas, viajar, ler um livro. É importante as pessoas saberem que esta doença existe sim, e que não é a gente que inventa uma desculpa para transar fora de casa
." Maria, 34 anos, professora

Procura pela felicidade

Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, especialista em sexualidade pela Universidade de São Paulo, o tratamento para compulsivos sexuais é demorado, mas pode ter bons resultados se for feito com um acompanhamento médico.

— É preciso fazer uma análise de cada caso para ver se a pessoa tem um problema ou se a história de ser viciado em sexo é só desculpa para uma traição.

Apesar de já ser descrito há bastante tempo, o sexo patológico ainda é pouco conhecido. Alguns pesquisadores acreditam que possa haver alguma origem orgânica para esse tipo de distúrbio, mas nada foi provado até agora.

— A compulsão sexual é uma dependência. O vício em sexo é uma variante daquele em drogas ou em jogo, o funcionamento é o mesmo. O sexo patológico é diagnosticado quando a pessoa perde a liberdade por não conseguir controlar os seus impulsos — define o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior.

Caracteristica do sexo compulsivo

— A erotomania (homem) e a ninfomania (mulher) são termos que indicam um exagero do desejo sexual.

— A pessoa apresenta um nível elevado de desejo e de fantasias sexuais, compulsividade do ato e grande sofrimento.

— Quem sofre deste mal preocupa-se a tal ponto com seus pensamentos e sentimentos sexuais que prejudica atividades e relacionamentos.

— Não pensa nos riscos na hora de satisfazer sua vontade sexual, mesmo sob pena de perder os seus relacionamentos (alta rotatividade de parceiros) ou a própria saúde (Hepatite B e C, HIV).

— Quando tenta controlar o impulso, fica tenso, ansioso ou depressivo. Sente-se escravo de seus desejos.

— Ansiedade pré-atividade sexual, intensa gratificação após o orgasmo e culpa após o ato são frequentes.

— Existem diferentes níveis, desde masturbação compulsiva e prostituição, a comportamentos como exibicionismo, voyeurismo ou até mesmo pedofilia e estupro.

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