Caso Goetten: inquérito conta detalhes da investigação  Divulgação,Polícia Civil/Divulgação

Cristiane do Carmo Alves Paes foi presa por suspeita de aliciar as garotas para o político

Foto: Divulgação,Polícia Civil / Divulgação

A virgindade de uma adolescente de 14 anos. Aliciamento, encontros, consumo de álcool, cafetinagem e o trauma de uma vítima. São detalhes que fazem parte do inquérito da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) contra o ex-deputado federal catarinense Nelson Goetten (PR), 55 anos, preso desde segunda-feira em Florianópolis suspeito de estupro e exploração sexual de menores. Os depoimentos mostram que, em torno dos crimes sexuais, havia também pequenas quantidades de dinheiro em jogo. As garotas viajavam do Alto Vale do Itajaí para o Litoral Norte para se encontrarem com ele. A polícia afirma que era a vendedora de lingeries Cristiane do Carmo Alves Paes, 28 anos, de Rio do Sul, que também está presa, quem aliciava as garotas para o político. Ela seria parente de uma das meninas. Na investigação consta como tia dela e em outras partes como sendo prima.

A "venda da virgindade"

Teria ocorrido no final de 2009 no apartamento em Meia-Praia (Itapema). Além de intermediar o estupro em troca de dinheiro, Cristiane teria participado dos atos sexuais.

Um tio da menina de 14 anos procurou a delegacia de Tijucas, na Grande Florianópolis, depois que um amigo da família que foi casado com Cristiane contou a ele que a ex-mulher estava trabalhando "como cafetina de adolescentes, agenciando meninas novas para saírem com homens mais velhos, inclusive vendendo a virgindade de algumas meninas".

O tio contou na delegacia que obteve a confirmação do estupro com a própria menina. Disse ainda que às 10h41min do dia 8/6/2010 recebeu ligação no celular de um homem que se identificou como Nelson (Goetten), pedindo para que não fizesse nada e não procurasse a polícia "porque o nome dele não poderia se expor".

Meia hora depois, o tio disse ter recebido ligação no mesmo número, em que Cristiane o ameaçou dizendo que se falasse alguma coisa a vida dele iria virar um inferno. A mãe da menina também fez boletim de ocorrência na delegacia informando do estupro de Itapema e outro em Rio do Sul em maio de 2010, e acusou Nelson e Cristiane pelos crimes. Ela disse ter ficado sabendo que Cristiane vendeu a virgindade da menina para Nelson e que a filha lhe confirmou o abuso. A garota disse à polícia que outras duas adolescentes lhe contaram que Nelson também tinha tirado a virgindade delas.

Os encontros

O primeiro encontro ocorreu depois de um lanche, pouco depois de um show musical em Porto Belo. A garota relata que, ao chegarem lá, encontraram Nelson e outras três adolescentes (forneceu os nomes à polícia) que não conhecia. A menina disse que no show Cristiane lhe serviu bebida alcoólica e no final todos foram a uma "zona" em Itapema, onde ingeriu mais bebida alcoólica misturada com algum tipo de droga, que passou mal e desmaiou.

A polícia relatou que às 2 horas da madrugada desse dia a garota foi levada ao apartamento de Nelson em Itapema. A menina disse que percebeu ter sido violentada ao acordar com as pernas sujas de sangue.

Num segundo encontro, a menina disse que ouviu telefonema de Cristiane em que ela disse a Nelson que estava precisando de dinheiro e que iria mandar a menina a ele. A adolescente disse que começou a chorar e que não iria, mas que Cristiane a mandou tomar banho, fazer uma prancha no cabelo e depois lhe disse: 'trate de fazer ele feliz hoje'.

A menina afirmou que nesse dia Nelson a buscou em sua caminhonete e seguiram para o Motel 3 Chalet's, em Rio do Sul. No local, beberam uísque com energético e que Nelson amarrou as suas mãos e os pés com uma blusa e a sua calcinha em uma banqueta de bar alta com ferro antes de violentá-la, oferecendo-lhe ainda R$ 350 em dinheiro. A menina informou que Nelson a deixou na casa de Cristiane, mas na frente do imóvel entregou R$ 250 dizendo que era para dar R$ 200 a Cristiane e que ficasse com o resto. Ela afirmou ter entregue todo o dinheiro a Cristiane e que antes de sair do carro Nelson a puxou pelos cabelos, deu um beijo no rosto e disse: 'tchau lindinha'.

As ameaças de morte

Os depoimentos mostram que a garota afirmou ter sofrido várias ameaças de morte de Cristiane caso revelasse a alguém os abusos sexuais. Num deles, o tio contou à polícia que procurou sua sobrinha afim de saber se o estupro era verdade, tendo ela inicialmente negado. Depois, ao dizer que iria na delegacia, a menina veio correndo atrás dele e disse que não era para fazer nada porque eles iriam matá-la. Há ainda relatos da própria menina afirmando que, ao voltarem para casa, Cristiane disse que se contasse alguma coisa para alguém, seria uma pessoa morta. Após o segundo encontro com Nelson, a menina contou que, ao levá-la embora, Cristiane novamente a ameaçou caso contasse a alguém.

A filmagem

No primeiro estupro, a garota relatou à polícia que, ao acordar, viu Cristiane e Nelson pelados na mesma cama e que ele então retirou uma filmadora de cima da TV e uma mídia de DVD. Isso a fez desconfiar que toda a situação tinha sido filmada. A garota disse também que as outras duas adolescentes que estavam no apartamento lhe disseram que Nelson e Cristiane filmaram tudo e que depois mostraram o DVD a elas. Apesar dos relatos, a polícia ainda não encontrou nenhuma filmagem da suposta gravação dos atos sexuais.

A investigação

A polícia conseguiu apurar a data dos fatos entre Nelson e a garota a partir do depoimento da mãe e quando conheceram outras três adolescentes. Elas disseram que também sofreram abusos. Os policiais encontraram bilhetes da passagem de ônibus da viagem da garota da região de Pouso Redondo a Itapema. A polícia obteve mais detalhes também com o depoimento do colega do tio da menina _ houve comentário no seu ambiente de trabalho sobre os supostos abusos. A polícia investigou e ouviu pelo menos dois funcionários da empresa (de Canelinha) e colegas do tio da menina. O nome do ex-deputado também foi citado pelos abusos num desses interrogatórios.

O trauma

A polícia ouviu pessoas do círculo da menina e afirma que a violência deixou sequelas. Um depoimento revelou que a garota tentou o suicídio pelo menos duas vezes, uma delas no banheiro. "(As tentativas) se deram antes do trauma do abuso sexual sofrido (...) antes da violência sexual era uma menina dócil, tranquila, alegre, com um comportamento normal, mas após esses fatos tornou-se agressiva, distante, calada, que chora muito e que parece ter perdido a alegria de viver, que parece que a cabeça está sempre 'sem sintonia'". Há também depoimento onde a adolescente conta ter sido chamada de "estuprada" por colegas.

Contrapontos

Em nova conversa com os jornalistas, na Deic, nesta terça-feira, o ex-deputado voltou a garantir que é inocente e que as denúncias são inverídicas. Algemado, Nelson Goetten afirmou estar vivendo uma situação "muito dolorida" e de surpresa com a sua prisão.

— É totalmente absurdo e desprovido de qualquer fundamento a acusação da qual eu respondo. Estão acontecendo barbaridades que eu não sei. Eu sou uma figura pública e pode ter razões e motivações para esse tipo de acusação. Eu estou tranquilo — desabafou.

Goetten disse não ter a mínima noção de alguém que pudesse lhe acusar pelos crimes sexuais e fez questão de reiterar que não praticou estupro e que não é um homem perigoso.

— Me sinto muito constrangido, envergonhado, minha família, meus amigos estarem acompanhando uma barbaridade dessas e eles não sabem a verdade. Agora eu tenho a verdade para explicar e vamos provar — destacou.

Goetten disse que o relacionamento que mantinha com Cristiane do Carmo Alves Paes e Gilberto Orsi era apenas de amizade no meio político. Ele ficou no auditório da Deic e não na carceragem. A Deic justificou a medida para manter a sua segurança pessoal, pois acredita que estaria colocando em risco a vida do preso caso fosse colocado com os outros detentos.

O que diz o advogado de Gilberto Orsi

O advogado Clóvis Barcelos Júnior, defensor de Gilberto Orsi, declarou que não há motivos para a prisão de seu cliente e também vai analisar as acusações para depois se manifestar e entrar com pedido de liberdade na Justiça.

A advogada de Cristiane do Carmo Alves Paes não foi encontrada.
DIÁRIO CATARINENSE
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