"Historiadores não endossariam" retirada de painel sobre impeachment de Collor, diz professor Ana Volpe/Agência Senado

Sarney inaugurou galeria histórica na segunda-feira

Foto: Ana Volpe / Agência Senado

A exclusão do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo dos painéis que contam a história do Senado desde o Império teve de ser explicada ontem, em nota, pela Secretaria de Comunicação Social da Casa. A justificativa apresentada foi a de que os dezesseis quadros expostos em um corredor que liga o prédio principal do Senado ao edifício anexo não citam o impeachment e outros fatos relevantes da história recente por uma opção dos historiadores.

— Trata-se de uma desculpa absolutamente improcedente. Estou certo de que as instituições ou associações ligadas a historiadores não endossariam esse tipo de leitura sobre a História do Brasil — comenta Flávio Heinz, professor de história da pós-graduação da PUCRS.

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Heinz afirma que não há dúvidas de que o impeachment de Collor é um fato de extrema importância para a política do Brasil. O impeachment foi aprovado pela Câmara dos Deputados em 29 de setembro de 1992, com uma ampla margem de votos — 441 a 38 — favoráveis ao afastamento do então presidente, depois que uma CPI comprovou sua relação com o esquema de lavagem de dinheiro envolvendo o empresário Paulo César Farias.

Collor não chegou a ser cassado pelo Senado porque renunciou ao seu mandato momentos antes da votação no Congresso. Apesar disso, ele foi condenado pelos senadores e teve seus direitos políticos suspensos.

O trecho que conta a história do processo sofrido por Collor já havia sido retirado do Túnel do Tempo do Senado em 2007, um dia antes de Collor tomar posse como senador, eleito pelo estado de Alagoas. Posteriormente, o episódio foi recolocado nos painéis. Ontem, ao reinaugurar a galeria, Sarney justificou a nova retirada do painel dizendo que o impeachment de Collor foi apenas um "acidente" na História do Brasil.

— É lamentável que o sistema político faça esse tipo de leitura da História recente brasileira — afirma Heinz.

Ouça a justificativa de José Sarney:



Os painéis do Senado

A exposição traz os principais episódios da história brasileira, como a abolição da escravatura, o período do Estado Novo e o golpe militar de 1964. O Túnel do Tempo segue uma ordem cronológica centrado na relação do Senado com os principais fatos da história do Brasil entre 1822 e 1988. A partir daí, no penúltimo painel, passam a ser citados apenas leis e códigos importantes que foram aprovados pela Casa.

No que se refere aos personagens mais importantes da história brasileira, são lembrados, por exemplo, Joaquim Nabuco, Visconde do Rio Branco, Machado de Assis e os ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck.

O atual presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), é citado três vezes: sobre suas atuações durante a ditadura militar, no período em que assumiu a presidência da República e durante a constituinte de 1988.

A respeito de sua atuação como parlamentar no regime militar, Sarney é citado como integrante de um grupo de senadores que se preocupou em "manter um debate importante para a permanência do regime democrático".

Além do impeachment de Collor, outros fatos ligados ao Senado ficaram de fora da história contada nos painéis. É o caso da única cassação de um senador, quando Luís Estêvão perdeu os direitos políticos por oito anos em 2000. Também não são citadas as renúncias de Antônio Carlos Magalhães e de José Roberto Arruda.

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